Gramsci e a Revolução Russa (por Alvaro Bianchi e Daniela Mussi)

Retirado do Blog da Boitempo

O que pensava o jovem Antonio Gramsci sobre a Revolução Russa?

Oitenta anos atrás, em 27 de abril de 1937, Antonio Gramsci morreu depois de passar sua última década numa prisão fascista. Reconhecido postumamente por seu trabalho teórico em seus cadernos do cárcere, as contribuições políticas de Gramsci começaram durante a Guerra Mundial, quando ele era um jovem estudante de linguística na Universidade de Turim. Mas mesmo naquela época, seus artigos na imprensa socialista desafiavam não apenas a guerra, mas a cultura italiana liberal, nacionalista e católica.

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Giuseppe Vacca e o século XX de Antonio Gramsci (por Leonardo Cazes & Giuseppe Vacca)

Esta entrevista foi conduzida pelo jornalista Leonardo Cazes, de O Globo, em abril de 2017, abordando ainda tópicos cruciais do livro Modernidades Alternativas: O século XX de Antonio Gramsci, lançado pela Ed. Contraponto e a Fundação Astrojildo Pereira. Com a palavra, Cazes e Vacca.

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Prosperidade, solidariedade e liberdade é o socialismo

Ontem, em Recife, comemoramos os 89 anos do PCdoB na Câmara de Vereadores, proposição do nosso camarada Almir Fernando do PCdoB. Estiveram presentes muitos vereadores, centenas de militantes e amigos.

O discurso que proncuncei é o que segue.

O PCdoB comemora 89 anos, de vida e luta. A história de um partido, como afirmava Gramsci, é a história das lutas políticas e sociais de uma nação, contada pelo ângulo dos interesses de classe que esse partido representa. A istória dos comunistas em nosso país se confunde com a história política moderna do país. Desde as jornadas operárias de 22, das lutas pela reforma agrária, as lutas democráticas até o presente, em que propugna uma nação soberana, democrática e de progresso social, os comunistas se inseriram a fundo no cenário social e político do país, integrou todas as lutas que definem o Brasil, levantando a bandeira do socialismo, dos trabalhadores, do povo, da defesa da pátria na luta antiimperialista. São, por assim dizer parte da paisagem política brasileira.

O PCdoB é fruto da segunda modernidade brasileira. A primeira, aberta com as grandes sagas da luta pela independência, abolição e república, ocupou todo o século 19. Nela se forjou a nação e o povo brasileiro, povo novo e uno, integrado e mestiçado, numa das maiores nações do mundo, com território e língua única. Esse caminho foi temperado com as lutas heróicas e o sangue dos negros, indígenas e europeus que aqui se amalgamaram no povo brasileiro. O Brasil atraiu e atrai esperanças de todas as forças avançadas do mundo, pelo potencialidade das forças do povo e da nação.

A segunda modernidade foi tardia no país, premido pelos interesses das grandes potências imperialistas. Foi plasmada na célebre década de 20, com inúmeros levantes revolucionários de vastas forças, que culminaram com a revolução política de 1930. Na década surgiram os grandes órgãos de comunicação modernos presentes até hoje; igualmente a Semana da Arte Moderna; forjava-se a imagem renovada do país, levada a cabo nos anos posteriores. O PCdoB é fruto dessa saga, a irrupção do proletariado moderno como força social, portador de um projeto político autônomo para o país. A 25 de março, em Niterói, se consagrava o nascimento do mais antigo e permanente partido político do Brasil, o Partido Comunista do Brasil, então PCB. Refletia e irradiava a onda invencível das exigências de avanço nacional contra a estagnação da República Velha, e os grandes acontecimentos revolucionários do mundo, com a vitória das ideias de Marx e Lênin na velha Rússia. Constitui-se então a corrente dos comunistas em todo o mundo.

A razão de existir do PCdoB continua fincada nesses princípios: a representação dos trabalhadores e do povo, a defesa dos interesses nacionais e da soberania, da democracia e dos direitos do povo. Jamais deixamos de honrar essas bandeiras, ao preço de muitos sacrifícios. Mas hoje ele está mais maduro: segue na mesma luta com ideais retemperados e renovados. O Brasil precisa retomar a construção nacional, abrir um terceiro ciclo civilizatório, capaz de afirmar a nação brasileira soberana, desenvolvida, radicalmente democrática, integrada a seus vizinhos sul-americanos, retomar desenvolvimento avançado para suprir as enormes carências que ainda marcam o povo brasileiro. Superar as desigualdades sociais e regionais, afirmar a unidade indissolúvel do povo brasileiro acima de diferenças de etnia, religião, opções pessoais. Emancipar por completo essa grande força social que são as mulheres e os jovens. Colocar a intelectualidade a serviço do projeto de nação.

A modernidade brasileira ficou incompleta, inconclusa, pela condição de nação dependente. É preciso completá-la até suas últimas consequências. Ela será feita de prosperidade, solidariedade e liberdade para o povo brasileiro, sinalizará integração, paz e respeito entre os povos e nações. O Brasil pode ser o paradigma de um  novo mundo.

O PCdoB luta, para isso, pelo Programa Socialista. O Brasil precisa, segundo cremos, de um rumo e um caminho: um novo projeto nacional  tendo por norte o socialismo renovado.

Tiramos lições do primeiro ciclo de experiências socialistas, enfim derrotado. A principal é aplicar a ciência avançada à realidade nacional, de nossa história, da formação da nação, das particularidades econômicas e sociais, culturais e psicológicas do povo brasileiro. Nós nos orgulhamos, sim, de manter o ideal socialista atualizado, com princípios, mas manter a mente aberta para abrir-lhe caminho pela luta política e social concreta do país, com um tática ampla e flexível, capaz de unir verdadeiramente as forças avançadas da nação, o povo em primeiro lugar, para avançar no desenvolvimento, de que depende tudo que almejamos para o povo.

Hoje, a realidade brasileira é favorável para tanto. Há uma situação inédita que foi a terceira vitória eleitoral consecutiva das forças populares nas eleições presidenciais; mais: uma mulher na presidência da República. Em contraste com a situação mundial de crise, instabilidade, guerras e agressões, profundas assimetrias nas relações de poder e desequilíbrios econômicos, o Brasil se democratiza, desenvolve, reduz as distâncias sociais e regionais, integra-se a seus vizinhos, com uma política externa autônoma e soberana.

O Brasil está no rumo de grandes transformações que chamam a atenção do mundo. Há muito por fazer, todavia. É forçoso considerar, a partir da experiência histórica brasileira, que o caminho da afirmação nacional exige reunir amplas forças, e no seio delas carece-se de constituir  um núcleo programático com clareza e determinação para conduzir o projeto nacional com uma estratégia econômica determinada, que reposicione o país no rol das nações como pólo de maior liderança. Essa nossa luta, ao lado do governo Dilma e das forças de esquerda que lhe deram sustentação: assegurar a governabilidade com ampla base de apoio ao governo e constituir o centro de gravidade de um governo avançado. Com a luta social e a luta de ideias, com o apoio e a crítica, o PCdoB luta pelo êxito do governo Dilma como modo de abrir caminho para efetivar o projeto vitorioso nas urnas.

O PCdoB propõe lutar pelas reformas estruturais democráticas capazes de saldar os défices democráticos e sociais a partir de arrojado plano de desenvolvimento acelerado. Clama pela reforma da educação e saúde, pela democratização dos meios de comunicação, pela reforma urbana e agrária, pela democratização do sistema partidário, assegurando o pluripartidarismo democrático, com voto em lista e financiamento público, único capaz de fortalecer os partidos políticos e garantir a expressão de todas as forças da nação.

Assim quer ser conhecido pelo povo, falar a todos os trabalhadores e toda a sociedade. Assim tem acumulado forças.

Aos 89 anos, abrimos as comemorações dos 90 anos. Vamos lutar ainda mais pelo fortalecimento do PCdoB no país, cuja atuação tem sido sempre um termômetro inconteste da democracia brasileira. Queremos ser partido de esquerda capaz de reunir inteligência, convicção, talento político e compromisso militante em torno desse projeto e programa.

O PCdoB permanece sendo um partido de militância, nosso principal tesouro. Atua para acumular forças, na luta política e institucional, na luta social, na luta de idéias. Somos um partido socialista, não importa quanto tempo durará essa luta e por quais caminhos. É impressionante como esse debate sobre a organização política tem ocupado pouco espaço na esquerda brasileira, no sentido de renovação a adaptação. Nós vamos enfrentar isso. Porque cada tempo coloca seus próprios desafios: queremos estar livres dos condicionamentos modelados por outra época ou desafios estratégicos de outro molde. Somos um partido do presente para antecipar o futuro. Por isso fazemos o nosso esforço de renovação de concepções e práticas de partido, renovação de cultura política, voltada para os desafios do tempo.

Hoje somos mais de 300 mil no país. Almejamos chegar a 500 mil até o 13º Congresso. As portas do partido estão abertas a todos quanto abracem essa perspectiva, reforçando o sentido estratégico de nossa luta e o caráter unitário do projeto dos comunistas.

Companheiras e companheiros

Quando pensamos no futuro não esquecemos o passado. Não nos esquecemos dos que deram o melhor de suas energias e até a própria vida para que chegássemos até aqui. A eles nossas homenagens vivas, que se expressam no compromisso de seguir adiante com a luta. Este é o partido de Otávio Brandão e Astrogildo Pereira e Cristiano Cordeiro, fundadores; de Luis Carlos Prestes,  herói do povo brasileiro, e Gregório Bezerra. De Jorge Amado e Graciliano Ramos, de Pagu e Cândido Portinari. De Maurício Grabois e João Amazonas, de notáveis ideólogos que marcaram a história do PCdoB indelevelmente. De Pedro Pomar e Elza Monnerat. É o partido que defende a perspectiva desse que é o brasileiro vivo mais ilustre da nacionalidade, Oscar Niemeyer, sempre jovem e sábio, generoso e comunista. Mas também de enorme contingente de militantes comunistas, anônimos ou não. Reinvindicamos essa história marcada por vicissitudes terríveis, acertos e erros, porque nos orgulhamos dela e de tê-la conduzido à afirmação que marca a legenda do PCdoB na atualidade.

O PCdoB, dizia, chega mais maduro, experiente e ainda mais compromissado com os trabalhadores, o povo e a nação, aos 89 anos. Não podemos deixar de sorrir diante dos “exageros da notícia da morte do socialismo e do partido comunista”, como diria o astuto literato G.B.Shaw.

Seguimos sendo um partido dos trabalhadores e do povo, das mulheres e jovens, dos trabalhadores e intelectuais, que luta pelo socialismo, com a cara dos brasileiros. A saída é o socialismo. O Brasil precisa disso. O Brasil necessita de uma forte e influente esquerda, e o PCdoB busca qualificar-se para isso.

Esses são os bons augúrios desta comemoração de nosso ingresso no nonagésimo anos de vida e luta.

Agradeço, mais uma vez, a iniciativa desta sessão e a presença de tantas autoridades, militantes e amigos, que reforçam nossa disposição.

O Brasil vencerá, o povo será o artífice maior da nação, o socialismo vencerá.

Muito Obrigado

120 anos de Gramsci

No fim desta semana, 23 de janeiro, domingo próximo, lembramo-nos dos 120 anos de nascimento de um gigante do pensamento revolucionário marxista e leninista do século 20, Antonio Gramsci, italiano da Sardegna. Certamente, sua vida, ação e obra vão ser lembrados ao longo de todo este ano.

Em sua homenagem, proponho a leitura de um texto magnífico, ainda mais por ter sido escrito por um dos mais ilustres intelectuais que escreveu em nossa língua pátria, Otto Maria Carpeaux. Foi publicado na célebre Revista Civilização Brasileira, 7, maio 1966. Não conhecia o texto, me deliciei e quero compartilhar com todos que não o conhecem. Devo-o à indicação do sempre atento Felipe Maia, um dos que mais estudam a obra de Gramsci entre nós. O texto é de 1997 (aos 60 anos da morte) e vai bem apoiado por indicações do excelente trabalho do sítio Gramsci e o Brasil, que realiza um trabalho de enorme seriedade e importância. Não deixe de consultar os links, que completam uma visão da vida e obra de Gramsci.

Minha homenagem singela à memória de Gramsci, de Carpeaux e ao trabalho do sítio. A homenagem de fundo é persistir no trabalho revolucionário, marxista e leninista, infundindo a esse corpo teórico e de ação um poderoso sentido dialético, contraposto aos dogmas reducionistas e empobrecedores.

Felizmente, há uma extensa e intensa acessibilidade a Gramsci na internet. Imbuído do necessário espírito crítico, cada um e cada uma pode aprofundar-se em todos os aspectos de sua vida e obra. Desejo que a Fundação Maurício Grabois, pelo PCdoB, possa protagonizar e se somar ao esforço de apropriar-se do conteúdo revolucionário disso, com seminários, dossiês, artigos e palestras.

Gramsci morreu em 27 de abril de 1937. Foi sepultado no Cemitério dos Ingleses, à sombra da Pirâmide de Cestio, perto do túmulo de Keats. Uma coroa de verdes permanentes, com fita vermelha, indica o lugar em que dormem seus pobres restos mortais. Curioso: sua obra não foi “escrita na água”.

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Acima, Gramsci em diferentes fases da vida, o caderno de pautas em que escrevia sua obra, a prisão de Turi e seu túmulo.

“Sto bene, sto bene”. “Sinto-me muito bem”, porque o tirano não conseguiu realizar a promessa do promotor, de “inutilizar por 20 anos esse cérebro”. A morte prematura foi a coroa do martírio. Mas a cova debaixo da campa fascista ficou vazia. O espírito ressurgiu. Gramsci, embora postumamente, venceu. O pensamento de Gramsci está hoje mais vivo que no momento da morte do seu corpo. A vida de Gramsci continua.

O artigo, na íntegra:

A vida de Gramsci

Otto Maria Carpeaux – 1997

Antonio Gramsci é o fundador do Partido Comunista da Itália. A história das suas lutas, do seu martírio no cárcere e das vitórias póstumas do seu espírito é leitura edificante para os adeptos do credo político que foi o seu. Mas suas atividades de altiva independência em parte só agora reveladas, também o tornam caro a todos os que apreciam a heresia, the right to dissent, em suma: a liberdade. A recordação de Gramsci deve ser igualmente cara a todos os que reivindicam a verdadeira democracia, contra as hipocrisias do elitismo. Sua obra de grande intelectual — um dos maiores do século XX — inspira respeito até aos adversários do seu credo: inspirou respeito também ao intransigente Benedetto Croce que “só com reverência e com afeto” se permitiu falar desse morto, desse símbolo vivo de uma resistência inquebrantável nos cárceres mais escuros da tirania. Antonio Gramsci foi um mártir e quase um santo. Sua história é um exemplum vitae humanae.

A vida de Gramsci! Seria um livro para todos. Mas não pretendo escrevê-lo. Em parte porque minha intenção é outra; em parte porque os fatos já são bem conhecidos, de modo que basta recordá-los.

1. Antonio Gramsci nasceu em 23 de janeiro de 1891 em Ales, província de Cagliari, na Ilha de Sardegna, na parte mais pobre e mais atrasada da Itália, filho de gente humilde ao qual só duras privações permitiram o estudo na Universidade de Turim, onde em 1915 aderiu ao socialismo, no mesmo ano em que Benito Mussolini saiu das fileiras do partido socialista para entrar nas do nacionalismo reacionário e belicoso, que seria depois o berço do fascismo. Enquanto o renegado sonhava, nas trincheiras, sua futura ditadura, o jovem Gramsci organizou em 1917 a greve dos operários de Turim contra a continuação da guerra. Restabelecida, precariamente, a paz européia, e entrando a Itália numa fase de graves perturbações sociais, Gramsci fundou o semanário Ordine Nuovo que reuniu em breve os mais avançados intelectuais da península. Organizou os consigli di fabbrica que, em momentos de greve, ocuparam fábricas e usinas, preparando-se para administrá-los. Em abril de 1920 dirigiu a greve geral. No Congresso do Partido Socialista Italiano em Livorno, em janeiro de 1921, foi Gramsci o líder da ala radical que saiu, constituindo-se como Partido Comunista Italiano. Foi o primeiro secretário-geral desse partido, que o elegeu deputado e do qual fundou o órgão jornalístico, o diário L´Unità. Enquanto isso, fortaleceu-se cada vez mais a ditadura fascista, que ainda tolerava a existência do Parlamento para oferecer ao estrangeiro o espetáculo de uma democracia simulada. Mussolini conseguiu vencer a crise mais grave do seu regime, a indignação moral do país inteiro depois do assassinato de Matteoti. Só então, o terrorismo iniciou, sem freios, a opressão totalitária. Os mandatos dos deputados oposicionistas foram cassados. Perdida a imunidade parlamentar, Gramsci foi preso em 8 de novembro de 1926 e confinado na ilha de Ustica, perto de Palermo. Alguns meses depois, transportaram-no de volta, algemado, para Roma. Processo perante o Tribunal especial. O Promotor falou com franqueza: “Devemos”, dizia aos juízes, “inutilizar por 20 anos esse cérebro perigoso”: a 20 anos de reclusão na Penitenciária de Turi, perto de Bari, foi Gramsci condenado. Submeteram-no a um regime severo, embora permitindo-lhe escrever cartas e notas, permissão da qual nasceu a imponente obra desse espírito encarcerado. Mas em 1933 os sintomas da tuberculose dos ossos tornaram-se evidentes. A doença fez progressos rápidos. Enfim, as autoridades fascistas não quiseram que o preso morresse como mártir dentro dos muros do cárcere. Gramsci foi solto três dias antes do desenlace. Morreu em 27 de abril de 1937 numa clínica particular em Roma. Foi sepultado no Cemitério dos Ingleses, à sombra da Pirâmide de Cestio, perto do túmulo de Keats. Uma coroa de verdes permanentes, com fita vermelha, indica o lugar em que dormem seus pobres restos mortais.

2. Seria esta a vida de Antonio Gramsci: de um homem morto há 29 anos e que não acreditava na ressurreição dos corpos. Acreditamos, por nossa vez, no preceito evangélico que manda deixar aos mortos o mister de enterrar os mortos. Importam os vivos. No túmulo de Keats, perto daquele de Gramsci, o poeta infeliz mandara gravar as palavras: “Eis um cujo nome foi escrito na água”. Mas na verdade tinha escrito os versos imortais em língua inglesa. Quando Antonio Gramsci foi, em 1937, enterrado, o que ele tinha feito e pensado também parecia “escrito na água”. E hoje sua personalidade está mais viva que jamais e o poeta Pier Paolo Pasolini, no colóquio com o sepultado do Cemitério dos Ingleses que abre o volume Le ceneri di Gramsci, pode acrescentar “às fadigas, contradições, pensamentos, atos, lutas e vitórias” a homenagem de una luce poetica. A personalidade de Gramsci continua uma força viva.

Tratando-se de um discípulo de Croce — à filosofia do pensador napolitano dedicou Gramsci um volume, escrito na prisão —, temos o direito de empregar a distinção crociana entre a personalidade empírica e a personalidade “poética”, isto é, que se exprime através de versos ou de pensamentos ou mesmo de ação. A personalidade “atual” de Gramsci desapareceu. Mas sua personalidade “poética”, de escritor, pensador e homem de ação, continua atual e é — veremos — uma atualidade para nós e conosco. Eis por que importa a Vida de Gramsci.

Muitos estrangeiros, fora da Itália, já se admiravam do alto nível intelectual do Partido fundado por Gramsci. Intelectuais de estatura, os líderes Palmiro Togliatti e Umberto Terracini. Ao PCI pertencem ou pertenceram grandes professores universitários como Luigi Russo, Eugenio Garin e Natalino Sapegno, escritores como Cesare Pavese, Elio Vittorini, Alberto Moravia, Salvatore Quasimodo, Vasco Pratolini, Pier Paolo Pasolini, os cineastas Vittorio De Sica, Cesare Zavattini, Lucchino Visconti, o pintor Guttuso, o compositor Nono. A fascinação exercida pela personalidade já desaparecida, pela recordação de Gramsci tem contribuído para essa atração intelectual do Partido. Decisivo, porém, é um fato do qual o fundador do Partido apenas participa. Durante mais de 30 anos, a filosofia de Benedetto Croce dominava espiritualmente a Itália, inclusive os anticrocianos que nunca conseguiram livrar-se totalmente da influência do filósofo. Toda a vida italiana da primeira metade do século XX, a literatura, as disciplinas históricas e científicas, o pensamento político e econômico estavam e estão imbuídos de espírito filosófico. Um antimarxista italiano não é ou não precisa ser um propagandista vulgar, mas é ou pode ser um crociano. Um marxista italiano é, em regra, um ex-crociano. Antonio Gramsci também foi ex-crociano e essa sua formação filosófica abriu-lhe os olhos para interpretações erradas, porque pouco filosóficas, do marxismo.

Como secretário-geral do Partido fundado por ele, Gramsci teve de combater radicalismos (“a doença infantil do radicalismo”) e a tentação contrária de acomodação reformista. Enfim, a vitória total da ditadura fascista acabou com os adversários de Gramsci dentro do Partido: tornando impossível a revolta armada exigida pelos radicais e recusando a adesão dos reformistas. Gramsci já estava na Penitenciária de Turi — e esse contraste, entre o ditador vitorioso e soberbo e o preso reduzido à impotência e o silêncio — é a primeira vez que a atualidade de Gramsci, hic et nunc, aqui e agora, nos toca vivamente.

Pois qual tinha sido o “crime” que levara Gramsci para o cárcere? Não penso em pintar-lhe o retrato como de um anjo inocente, condenado sem culpa nenhuma. Foi ele homem de ação revolucionária, disposto a subverter pela força e pela violência a ordem estabelecida. Mas apenas estava disposto para tanto, sem chegar a realizar seus projetos, ao passo que o ditador fascista tinha realizado a subversão, colocando-se a si próprio acima de todas as leis humanas e divinas e atribuindo-se o direito de punir com requintes de crueldade, e inapelavelmente, o crime político que ele próprio perpetrou. Alega-se salvar a democracia ou a civilização ocidental, destruindo-se a democracia e violando-se a civilização. Compreendemos, hic et nunc, aqui e agora, a situação de Mussolini na ditadura e a de Gramsci na prisão. É uma atualidade que continua e percebemos que Gramsci, embora postumamente, venceu.

3. Mas não vamos antecipar nada. Ainda estamos em 1926: Gramsci na prisão, e os democratas italianos de todas as nuanças perseguidos e no ostracismo. Como se comportar, nessa situação aparentemente sem saída? Comportavam-se como se todos estivessem, com Gramsci, na prisão. Esperavam um milagre: pela marcha inexorável dos acontecimentos históricos. O preso, dentro dos muros da Penitenciária de Turi, sabia disso; e discordou. Reconheceu, sim, naquele fatalismo passivo uma fonte de fortalecimento moral em tempos de opressão. Definiu a fé em certa razionalità della storia como sucedâneo da fé dos cristãos na Providência divina. Mas rejeitou a analogia, exigindo a permanente tomada de consciência, única fonte possível — naquelas circunstâncias — do futuro ativismo revolucionário.

Esse ativismo é bem marxista. Ou então, para defini-lo mais exatamente: é marxista-leninista. Mas Gramsci não encontrara os argumentos para refutar o fatalismo nem em Marx nem em Lenin. Sua doutrina da consciência como fonte de ação — que lembra, de longe, pensamentos de Lukács e Ernst Bloch — é herança do seu mestre ou ex-mestre Croce. Como discípulo do filósofo de Nápoles, exigiu Gramsci um marxismo humanista, base etica del nuovo Stato. Como discípulo de Croce, Gramsci não podia imaginar a revolução política e social sem a consideração devida dos fatores culturais. Mas esses pensamentos e raciocínios todos não seriam tipicamente revisionistas?

A crítica de Gramsci contra as falsas interpretações do marxismo, unilateralmente economicistas e mecanicistas, também se baseia em pensamentos de Croce. Enquanto o Partido Comunista Italiano sempre, desde 1945, defendeu a ortodoxia, no sentido de Moscou, como doutrina de Gramsci, os adversários do Partido nunca deixaram de focalizar aquelas diferenças: o santo do comunismo italiano também é venerado como santo nos altares do revisionismo internacional, ao lado de Trotski, Bogdanov, Deborin, Lukács, Bloch e Lefebvre. A verdade é que nos escritos e manifestações de Gramsci se encontram trechos e frases capazes de justificar esta e aquela interpretação. Seriam as “contradições” às quais Pasolini, em Le ceneri di Gramsci, prestou a homenagem de sua luce poetica. Estou convencido que essas contradições se revelarão, futuramente, como elos do seu pensamento dialético. Limito-me, agora, a focalizá-las sem tentativa nenhuma de escondê-las.

Bem ortodoxamente exigiu Gramsci, antes de tudo, a unidade doutrinária. Mas para justificá-la apelou, mais uma vez, para Croce: como este, citou o exemplo da unidade doutrinária do catolicismo. Anticlerical, como sempre foram os intelectuais italianos, Gramsci não é, no entanto, anticatólico. Venera, de longe, a Igreja à qual não pertence. Pretende aproveitar a milenar experiência moral da instituição de Roma. Exige que os comunistas preservem a disciplina intelectual e moral de um clero. É assim que ele entende o Partido.

O escrito básico de Gramsci, a esse respeito, é sua interpretação originalíssima de Maquiavel. O fascismo vitorioso tinha proclamado o “Duce” como reencarnação do “Príncipe”; e todo mundo, dentro e fora da Itália, tinha concordado, acostumado como se estava a ver no secretário florentino o pai do amoralismo político. Gramsci, devolvendo a Maquiavel o papel de fundador do pensamento político moderno, tinha, antes de tudo, de destruir aquela identificação. Embora reconhecendo, com Croce, o papel dos grandes espíritos individuais na História, nega a possibilidade e a necessidade de um Príncipe individual nos tempos modernos. O Príncipe de hoje é um coletivo: é o partido de vanguarda política, é o partido comunista, liderando e dirigindo o povo.

Nessa altura, Gramsci parece leninista dos mais ortodoxos. Mas leninista, sim, e não stalinista. Citando trechos menos citados do pensador-revolucionário russo, Gramsci rejeita ou parece rejeitar a ditadura do proletariado, admitindo apenas a hegemonia do proletariado numa fase de transição (ver Fabrizio Onofri, ex-membro do Comitê Central do PCI, em seu artigo “La via sovietica alla conquista del potere e la via italiana aperta da Gramsci”, Nuovi Argomenti, 23/24, 1957). Este Gramsci é o pai do comunismo libertario e da democracia operaia, o fundador dos consigli di fabbrica, que estavam destinados a ocupar, explorar e administrar as empresas industriais. A esse respeito é Gramsci o precursor da organização industrial hoje em vigor na Iugoslávia, começo de uma evolução que ainda não terminou. É bem possível que esse “revisionismo” de Gramsci se transforme mesmo em “ortodoxia”. E o mesmo vale quanto às atitudes democráticas de Gramsci dentro do seu partido e dentro da III Internacional de então.

A publicação dos respectivos documentos é de data recente. Só em 1964 permitiu Togliatti a publicação (L´Unità, 30/05/64) da carta de Gramsci, datada de 15 de outrubro de 1926, dirigida “aos camaradas russos”, na qual advertiu contra a supressão da oposição trabalhista dentro do partido russo. Mas os iniciados sabiam, há anos, dessa atitude de Gramsci. Já em 15 de março de 1956 tinha Togliatti veladamente aludido a ela, acrescentando: “A procura de um caminho italiano para o socialismo foi nossa preocupação permanente. Creio poder afirmar que essa preocupação também foi a de Gramsci, que em seus atos políticos e essencialmente no pensamento da última parte de sua vida estava ocupado em tirar dos ensinamentos da revolução russa as conclusões de uma versão italiana dela”. Caminho italiano para o socialismo, caminho francês para o socialismo, etc., etc., essas atitudes também foram ontem “revisionistas” e passam hoje por “ortodoxas”. O pensamento de Gramsci está hoje mais vivo que no momento da morte do seu corpo. A vida de Gramsci continua.

Gramsci como mentor do “caminho italiano para o socialismo” parece confirmar aquilo que poderíamos chamar de “italianismo essencial de Gramsci”. Sua vida e seu pensamento só são compreensíveis como parte de determinada fase da evolução política, social e cultural da Itália; suas ideias continuam ideias de Croce, embora invertendo-as; italianos são todos os seus pontos de referência, a começar com Maquiavel. O italianismo de Gramsci culmina em sua crítica dos intelectuais italianos, da intelligentsia italiana, pois são fenômenos, estes, diferentes em qualquer uma das nações modernas, dependentes da história, da evolução social, da evolução literária e até da formação da língua. Não seria possível aplicar à intelligentsia francesa ou russa ou espanhola as lições tiradas das experiências históricas, muito diferentes, da intelligentsia italiana. No entanto, justamente através do italianismo fundamental de Gramsci revela-se seu universalismo.

O respectivo livro de Gramsci, Gli intellettuali e l´organizzazione della cultura, censura nos intelectuais italianos o cosmopolitismo e a falta de relações com o povo. Lembra o fato de que toda a maravilhosa literatura italiana, Dante, Petrarca, Boccaccio, os humanistas, Ariosto, Tasso, Parini, Goldoni, Alfieri, Foscolo, Leopardi, Manzoni, Carducci, foi feita por uma pequena classe de letrados para ser lida por pequena classe de amadores; ainda por volta de 1880, 20 anos depois da unificação política da Itália pelo Risorgimento, que passava por movimento democrático, 80% da nação italiana eram de analfabetos, excluídos da política e da cultura do país; e essa “desnacionalização” agravou-se no século XIX pelo afrancesamento das classes cultas da península.

A propósito das críticas de Gramsci à interpretação fatalista-passiva do marxismo em tempos de opressão e perseguição e a propósito da resistência inquebrantável de preso contra a tirania armada, tocou-nos a atualidade surpreendente e dolorosa, hic et nunc, dessa vida exemplar. Não é menor a atualidade, aqui e agora, da sua crítica a uma intelligentsia cosmopolita (antes afrancesada e agora, muitas vezes, americanizada), sem relações com a maioria analfabeta de nação. Um dos pensamentos mais italianos de Gramsci revela sua validade universal.

O próprio Gramsci indica as causas desse universalismo: pois o caráter cosmopolita da intelligentsia italiana é herança do universalismo católico medieval — Roma como Capital supranacional da Europa, do mundo de então — e do caráter supranacional do humanismo italiano. O catolicismo de rotina e o humanismo formalista das nações da América Latina participam da mesma herança; e por isso o pensamento especificamente italiano de Gramsci também vale aqui e agora, assim como seu exemplo de resistência.

Na solidão do cárcere descobriu Gramsci a índole ilusória da muito exaltada “independência do intelectual” de tipo tradicionalista. Exigiu a formação de um novo tipo de intelectual, técnico e científico, capaz de organizar o trabalho e a classe que trabalha; mas, advertindo seriamente contra o especialismo e o especialista que é bárbaro em tudo fora de sua especialidade e incapaz de desempenhar verdadeira atividade dirigente, revela Gramsci novamente o humanismo crociano no fundo do seu pensamento marxista.

Enfim, a variedade das interpretações do marxismo de Gramsci baseia-se na evolução dialética do pensamento do próprio Gramsci, no qual descobrimos várias camadas: o comunismo “libertário”-democrático dos consigli di fabbrica, o ortodoxo “comunismo de Partido” do escrito sobre Maquiavel; e, enfim, a ideia revolucionária de uma aliança libertadora dos operários industriais do Norte da Itália com as massas rurais do Sul subdesenvolvido da península. Essa última ideia parece, mais uma vez, especificamente italiana, nascida de circunstâncias históricas. No entanto, mais uma vez, o italianismo de Gramsci se revela como de validade universal.

La questione meridionale, a “questão do Sul”, é o permanente problema político-social da Itália. Do país da mais antiga civilização na Europa toda, agora também economicamente bem desenvolvido, desse país a parte mais populosa, o Sul, continua entregue aos males do latifúndio feudal, do pauperismo, da miséria, do analfabetismo, das superstições populares, da mortalidade infantil. Não é exagero afirmar que as melhores cabeças políticas dos últimos cem anos — e a Itália é a terra de promissão da ciência política — se têm dedicado ao trabalho de estudar as causas do problema e de propor remédio da doença. Gramsci escreveu sua Questione meridionale em 1926, às vésperas de ser preso pelos fascistas, completando o trabalho na prisão. Só não foi possível a publicação na Itália. Em 1930, uma revista de exilados políticos em Paris publicou o escrito que, tratando de problema especificamente italiano, não encontrou repercussão na Europa e ficou praticamente despercebido, enterrado como seu autor. Mas a roda da História deu uma volta: e depois da queda do fascismo, em fevereiro de 1945, a pequena obra-prima foi republicada na revista Rinascita: desde então, continua sendo guia de todos os que pretendem resolver radicalmente e para sempre a “questão do Sul”. Qual é a solução? Muitos já têm denunciado as condições climáticas e a aridez da terra. Também denunciaram o pecado capital da democracia italiana, de ter abusado das massas humanas do Sul para, por meio de eleições fraudulentas, conseguir Parlamentos dóceis em Roma, que votaram tudo menos a modificação das condições de vida no Sul. Mas a destruição do regime parlamentar pelo fascismo tampouco modificou coisa alguma. E Gramsci previu bem que o restabelecimento da democracia formal (acontecido, depois, em 1945) tampouco modificaria as coisas. A chamada reforma agrária, desde então empreendida, limita-se a melhorar as condições físicas, a irrigação, o adubamento, etc., desmentindo pelo menos o fatalismo daqueles que acreditavam na inevitabilidade da miséria produzida pela aridez da terra e pelo desfavorável regime de chuvas. Gramsci, porém, responsabilizou pela questione meridionale o formalismo da democracia do Risorgimento, que deu aos sulinos o voto sem dar-lhes a terra, isto é, a independência econômica do voto. E propõe a democratização do Sul pela radical reforma agrária, que as populações rurais conseguiriam pela aliança com o operariado industrial nortista.

Pela terceira vez atinge-nos a atualidade do pensamento gramsciano; e seu universalismo, válido para toda a gente fora da Itália. A primeira vez foi o exemplo da resistência contra a ditadura terrorista. A segunda vez: a alienação da intelligentsia e a necessidade de sua reconstrução em bases nacionais. Agora, na terceira vez, pensamos no latifúndio, na miséria, na democracia formal e na necessidade de uma radical reforma agrária, reconhecendo: aquilo que na Itália é o Sul, isto é, exatamente, no Brasil o Nordeste.

Um dos argumentos ou pseudo-argumentos mais usados pelos adversários de reformas sociais é a alegada necessidade maior de realizar uma reforma moral da sociedade. Em vez da reforma agrária levantam a falsa bandeira da luta contra a corrupção. Depois de extirpada a corrupção, eles realizariam o milagre de reformar tudo sem tocar no regime social vigente. Exigem, antes, a reforma moral porque a sabem inviável ou porque, desprezando as possibilidades do homem, a acreditam inviável. A esse pseudomoralismo opõe Gramsci o exemplo da sua vida. Um exemplo irrespondível de reforma moral e verdadeira.

4. As obras escritas por Gramsci no cárcere só podiam ser publicadas depois de 1945. O primeiro volume que saiu compreende as 218 cartas que o preso escreveu entre 1926 e 1936 a membros de sua família: à mãe; aos filhos que viviam em Moscou com a mulher do preso, física e mentalmente quebrada; e, sobretudo, à cunhada Tatiana, a pessoa lá fora no mundo que melhor o compreendeu. Escritos sob a censura das autoridades da Penitenciária, as Lettere dal carcere falam pouco ou nada de política. Destinam-se, sobretudo, à luta contra a solidão dentro das quatro paredes; à luta contra o progressivo enfraquecimento físico, e, sobretudo, à luta pela sobrevivência espiritual: separado dos seus para sempre, o encarcerado não quer ficar esquecidos por eles. Por isso, se dirige Gramsci, nesse grande documento humano e obra-prima da literatura italiana, com preferência a seus filhos nos quais espera sobreviver. Nessas cartas aos filhos não se percebe o menor traço de sofrimento, de impaciência, mas uma maravilhosa adaptação ao espírito infantil: no entanto, muitas vezes, as palavras têm duplo sentido, escondendo atrás dos conselhos paternais, acessíveis à compreensão das crianças, confissões de auto-introspecção do preso e propósitos dele para seu próprio futuro, tão limitado. Penosamente, o epistológrafo procura reconstruir as caras, as vozes que ele já quase esqueceu. Lembra-se para não ficar esquecido e não esquecer, é seu grande esforço. Atrás da família surgem recordações de sua própria infância na Sardenha, inspiradas pelo profundo amor cristão desse materialista aos pobres da sua terra. O estilo rigorosamente sóbrio das Lettere dal carcere não dissimula a emoção de quem as escreve. Pela emotividade procura Gramsci superar o intelectualismo seco que ele próprio censurara nos seus pares, nos intelectuais; e procura fortalecer-se para o trabalho intelectual em circunstâncias monstruosamente difíceis.

“Eu sei”, diz Gramsci, “que bater com a cabeça contra o muro não destrói o muro, mas a cabeça”. Não desespera. Mas escreve. Escreve furiosamente, cadernos, cadernos e mais cadernos, que foram, depois de 1945, coligidos e ordenados pelos seus testamenteiros e publicados pela Editora Einaudi: O materialismo histórico e a filosofia de Benedetto Croce; o escrito sobre Maquiavel; Os intelectuais e a organização da culturaLiteratura e vida nacional; um comentário sobre o Canto X do Inferno de Dante; um estudo sobre Pirandello; e a versão definitiva da Questione meridionale. É um output admirável. Escrevendo e escrevendo, o mortalmente doente sempre repete em suas cartas: “Sto bene, sto bene”. “Sinto-me muito bem”, porque o tirano não conseguiu realizar a promessa do promotor, de “inutilizar por 20 anos esse cérebro”. A morte prematura foi a coroa do martírio. Mas a cova debaixo da campa fascista ficou vazia. O espírito ressurgiu.

“O espírito está disposto, mas a carne é fraca”, diz São Paulo. Vida, martírio e morte de Antonio Gramsci desmentem vigorosamente esta frase, mas confirmam outras palavras do apóstolo: “A fé, o amor e a esperança, esses três ficam, mas o amor é o maior entre eles”. Grande foi, realmente, o amor de Antonio Gramsci a seu povo sofredor e maltratado. Maior foi, porém, em seu caso, a fé que consegue transferir montanhas e que para Gramsci abriu, espiritualmente, os muros da prisão. Mas a maior das virtudes suas foi a Esperança. Pensamos: em 1926, quando Gramsci escreveu La questione meridionale, o preso já não podia publicá-la; em 1930, quando em Paris se publicou o escrito, só poucos o leram; e em 1937, quando Gramsci morreu, seu pensamento parecia enterrado com ele na terra italiana, dominada talvez para sempre pela tirania fascista, baseada em exército, polícia, hordas inumeráveis de milicianos armados, justiça especial, dinheiro da grande burguesia, apoio do latifúndio, ajuda de potências estrangeiras e apatia do povo exausto. Mas só poucos anos depois caiu como um castelo de cartas todo esse edifício da tirania e o sintoma externo dessa queda foi, em 1945, a segunda publicação da Questione meridionale numa revista editada na Via delle Botteghe Oscure, em pleno coração da Roma libertada.

Mesmo no escuro da prisão que parece perpétua e é efêmera, a esperança não morre e “é a maior das três”. Eis a vida de Antonio Gramsci.

Nacionalismo é patriotismo

Enfim, somos patriotas, sem dúvida, antiimperialistas conseqüentes. Lutamos por um projeto nacional afirmativo, de desenvolvimento democrático, soberano, socialmente avançado, com integração regional. Então, somos também nacionalistas? Ou devíamos fugir dessa condição como de um anátema? Imagino que isso seja importante para todo latino-americano.Um argentino devia deixar a condição de nacionalista apenas para o peronismo, reivindicando-se patriota? Um brasileiro, por analogia, distinguir-se nesse quesito de Getúlio Vargas? Seriam muitos os exemplos.

Parece-me necessário ver isso não apenas com olhos ontológicos, nem tampouco dispensar a história, mas igualmente atentos à nova realidade do mundo e de nossa luta na atualidade. Por que você também não entra nesse debate? Ele tem tudo a ver com as polêmicas atuais, desde por que se deve lutar pela eleição de Dilma, quanto por que se deve dar todo apoio e solidariedade a Aldo Rebelo pela coragem destemida de sua defesa dos interesses do desenvolvimento nacional, os interesses e soberania ambiental e os interesses comerciais agrícolas do Brasil no mundo.

Ronaldo Carmona atendeu a meu convite. Em (http://www.waltersorrentino.com.br/?p=609) ele já compareceu as páginas do blog. Contribuiu muito, segundo creio, pois tema de que tem se ocupado é nevrálgico para o mundo e para a esquerda: a questão nacional em ligação com as exigências democráticas e de atendimento das demandas sociais dos trabalhadores, povos e nações dependentes. Ele é um dos professores da Escola Nacional.

Pedi a ele para comentar criticamente o artigo A esquerda e a questão nacional publicado recentemente em(http://www.waltersorrentino.com.br/?p=2626). É importante esse debate. Posteriormente, ele se manifestou também (em http://www.waltersorrentino.com.br/?p=609) sobre o Código Florestal e a relatoria Aldo Rebelo. Veja adiante a conversa que mantivemos.

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