A hegemonia norte-americana, satélites e a bomba atômica (por Marco Aurélio Cabral Pinto)

Os EUA parecem dobrar apostas no caminho de afirmação hegemônica contra um sistema-mundo que vem se desenhando como multipolar nos últimos 20 anos. Recursos orçamentários crescentes para P&D militar devem se reverter em liderança tecnológica inalcançável

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Brilho nos olhos por ser PCdoB

CONFERÊNCIA DO PCdoB MARANHÃO

Na constelação política do país e naquela do PCdoB em todo o país, um ponto luminoso se sobressai. É a experiência que vive o Maranhão e seu povo, sob um governo democrático, popular, de ampla frente anti-oligárquica, em cujo seio ponteia o PCdoB. Essa foi daquelas vitórias políticas que se inscrevem na história do país, como testemunho de todo um ciclo político progressista vivido nos últimos anos no Brasil.

olhos+walter

Enfim, o povo maranhense decidiu que chegara a hora do vento mudancista para fazer no Estado uma plataforma modernizadora, moralizadora e de elevação do padrão de vida da maioria do povo.

E decidiu, para nosso orgulho, que seria a hora e a vez de um bravo combatente, de uma histórica corrente política, empalmarem esse destino. Flávio Dino, líder nacional já reconhecido, pelo PCdoB, foram capazes de unir as forças necessárias para avançar, exercendo com maestria os atributos de liderança política, moral e cultural, para somar e não dividir, para incluir e não demarcar, para propor e não para se impor a ninguém.

Maestria e sensibilidade para captar o sonho e emular a esperança dessas forças, representando o sentimento majoritário da sociedade, enfim prevalecente nas urnas – e até agora, nos índices de popularidade do novo governo.

A direção nacional não pode deixar de saudar Flavio Dino como um dos maiores representantes políticos nacionais do PCdoB. Ao fazê-lo, tenham certeza, homenageia não apenas o governador, mas sim o militante, o dirigente Flávio Dino e todo o partido no Maranhão.

Hoje no MA já não somos o “velho” partido e o “novo” partido. Somos um só. Homenageio a abertura e generosidade da velha geração comunista aqui presente, que soube acolher as novas forças que vieram nos últimos 9 anos. Homenageio também a generosidade dos novos, que não vieram para substituir ninguém, mas para se amalgamar com os antigos, ensinando e aprendendo ao mesmo tempo.


Essa obra deu certo, foi vitoriosa!

Agora realizamos esta Conferência, oportuna e necessária, porque vencemos uma etapa e outra se apresenta, com outros e maiores desafios. Não só os desafios de governar esta sociedade complexa e carente no Maranhão, estado com muitas riquezas, mas também de realizar o projeto estratégico que apresentamos ao povo maranhense – o Maranhão de todos nós, com justiça social. Um norte assim generoso precisa de uma estratégia bem definida que nos mobilize a todos.

São desafios novos para os comunistas, em que eles aproveitam a experiência da esquerda brasileira. Nós comunistas somos persistentes. Aprendemos a ser bons de luta e bons de governo. Mas nunca fomos tão inovadoramente exigidos quanto agora, para governar um Estado da federação. Trata-se de desafio político e administrativo, mas que envolve a sabedoria política para firmar e perseguir estratégias claras e ampliar, sempre, a participação e apoio popular.

O documento em debate apresenta os pontos fundamentais destes desafios. Estão muito bem apresentados e serão coroados com esta Conferência.

De minha parte, falo das forças de sustentação necessárias para o êxito estratégico desse movimento. Precisamos saber renovar o arcabouço da esquerda brasileira para essa missão.

Qualquer estratégia tem como centro a hegemonia. Se há um rumo formulado, a questão é: de que tipo, por quais caminhos? Também nisso devem se diferenciar os comunistas.

Nosso bom documento em debate afirma a hegemonia como liderança política, de massas e cultural na sociedade. Capaz de abarcar vastas forças, tendo por centro o projeto definido; que as coesione, de modo político e republicano, compartilhando responsabilidades.

Há essas vastas forças na sociedade maranhense, de cunho democrático, progressista e patriótico. Já foram unidas nas eleições; precisam permanecer unidas para cumprir o desígnio que lhe foi dado pelo povo.

Mas, no seio de processos desse tipo, se carece da força indutora. Esse o desafio posto para o PCdoB e sua construção, neste momento vigoroso de sua história no Estado.

É absolutamente necessário ligar umbilicalmente a tarefa de governar à da participação popular, envolvendo, sobretudo, os movimentos sociais organizados, mas não só. Apenas com a força popular pode sustentar as mudanças proclamadas pelo novo governo. Esse é um dos pilares da hegemonia, condição absolutamente necessária.

Mais ainda, não desvincular essas duas questões da poderosa luta de ideias, mãe de todas as batalhas. Porque não há movimento avançado sem ideias avançadas, traduzidas num projeto político e numa estratégia bem definida. É certo que elas estão bem formuladas aqui no Maranhão. Mas a luta do Maranhão é parte de uma luta maior – o Maranhão de todos nós com justiça social é parte integrante do novo projeto nacional de desenvolvimento perseguido pelas forças avançadas de nosso país, sob a atual liderança da combativa presidenta Dilma Rousseff, e é matéria central do Programa do PCdoB. Por outro lado, a pressão do praticismo cotidiano, o ativismo cego, sempre atua pelo rebaixamento da reflexão sobre os caminhos trilhados.

Aí residem as três questões apontadas no documento. São igualmente as questões nevrálgicas para a construção partidária. O partido são os trilhos em que se assentam a combinação da luta de ideias, com a luta institucional e a luta social de massas.

Falo então nm partido para construir a hegemonia de um bloco político social avançado, que nucleie forças mais amplas de caráter democrático e progressista.

Um partido que seja o centro gravitacional dessa hegemonia.

Hegemonia é força e consenso – consenso de rumos para maior aglutinação de força, e força para forjar unidade avançada, pelo método da persuasão e soma e não pelo exclusivismo, que tem a habilidade de isolar os alvos centrais adversários, neutralizando aqueles cujas contradições, momentaneamente, são secundárias com o projeto.

Um partido que não perca a capacidade de refletir sobre a experiência, analisar os fatos e não se perder nas aparências ou em êxitos efêmeros. Que saiba permanentemente relacionar o particular ao universal, a especificidade maranhense à realidade nacional. Quanto mais a alma não for pequena, mais valerá a pena fazer do Maranhão de Todos Nós uma luta nacional.

Um partido que de fato incorpore e subordine toda e qualquer frente de ação ao projeto maior, as coesione programaticamente, que saiba combater as formas de cretinismo parlamentar, institucional ou mesmo corporativo dos movimentos sociais. Pragmatismo e horizontes estreitos, pessoais ou coletivos, num momento destes, são dissolventes do verdadeiro espírito de instituir a hegemonia do PCdoB.

Um partido que seja a inteligência coletiva, acumulada em quadros experimentados, comprometidos e mobilizados para formular caminhos. Portanto, de direção coletiva, capaz de mobilizar toda a estrutura de militantes, filiados e amigos, seja no âmbito administrativo, técnico, de massa, parlamentar, intelectual. Uma direção capaz de por todas essas forças em sintonia, orquestrada, para o projeto político.

Um partido norteado por essa estrutura de quadros que alcance ser uma formação de massa de militantes e filiados, cumprindo seus direitos e deveres partidários, devidamente organizados e mobilizados para o projeto político.

Um partido de portas abertas para os lutadores do povo e lideranças da sociedade, mas onde se tem regras, para manter e aprimorar o caráter de uma força realmente organizada desde a base e valorizadora da vida partidária.

Um partido, enfim, organizado para ser eficaz, e para ser uma escola de formação de novos quadros de todos os tipos. Que tenha um trabalho de comunicação própria com o povo e suas extensas fileiras.

O segredo denominador comum de todo esse movimento são as justas relações entre partido e governo, e a relação entre ambos e a direção nacional. Como se sabe, trata-se de uma responsabilidade de magnitude nacional, ponta de lança de todo um movimento de afirmação da identidade do PCdoB, a partir do êxito estratégico na gestão do governo do Maranhão.

Partido e governo são autônomos, cada qual com sua missão e tarefas. O importante é sustentar o governo, mas sem se confundir com o governo, capaz de ser a antena dos sentimentos e anseios na sociedade e fazer a mediação disso com o projeto de governo. Portanto, uma organização política com meios próprios para sua ação e independência, que não se dilua de modo amorfo na frente política ampla que sustenta o governo. Cujos fóruns funcionam regularmente. Onde todos seus membros se ponham à frente e ao lado dos interesses gerais do partido, nunca acima dele.

É cheio de perspectiva este momento do PCdoB no Maranhão. Devemos estar à altura para aproveitá-lo inteiramente. Sem desconsiderar que hoje vivemos no país a mais adversa conjuntura política destes 13 anos, tendo se instituído no país uma correlação de força de inclinação conservadora, que ninguém pode deixar de levar em conta.

Face a isso, como todos sabem, o PCdoB tem lado e tem campo político definido. Desassombradamente. Até por isso, a IDENTIDADE do PCdoB, tema de nossa 10ª Conferência, ou seja, a definição do lugar político próprio do PCdoB no cenário nacional, tem objetivamente um poderoso holofote nacional aceso no Maranhão.

Tenho certeza de que podemos alcançar os objetivos do documento. Tenho certeza de que todos darão o melhor de si para isso.

Por isso, o que mais desejo ao PCdoB no Maranhão é que, ao cabo destes próximos anos, quando perguntarem a um de nós “quem é você” (o que na política brasileira querem dizer “você é alguém”?), possamos responder: “Sim, sou membro do PCdoB!”. COM BRILHO NOS OLHOS, possamos dizer “Sou militante do PCdoB, sou dirigente municipal do PCdoB, com muita honra e orgulho!”.

Parabéns, êxitos, à vitória do povo maranhense, ao fortalecimento do PCdoB no Maranhão.

Política de quadros em função da estratégia

O ponto de partida essencial para a política de quadros contemporânea é a estratégia e caminhos propugnados pelo novo Programa Socialista. O centro da estratégia definida é alcançar hegemonia. No caso, a necessidade de uma luta tenaz e prolongada na luta patriótica, anti-imperialista e socialista, no terreno político, da luta social e de ideias, acumulando forças. O PC luta pela liderança política, intelectual e moral, capaz de elevar os trabalhadores à condição de classe nacional dominante na sociedade. A organização política precisa se fazer funcional a isso. A própria força da organização política é parte da luta pela hegemonia. Se a política não se comprova justa na prática, sem dúvida pode conduzir o próprio partido a impasses, também no terreno organizativo; mas aí o debate é igualmente sobre a justeza da política.

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Militância mais estável em organizações definidas desde a base

O presente artigo propõe retomar o debate desse tema. Ele é estratégico para nós, por isso não comporta simplificações, pelo que o artigo é relativamente longo. Conto com a paciência de todos. Para além da importância do tema em si mesmo, acresce que será possível fazê-lo de modo interativo, em tempo real. A nova página do 12º Congresso permitirá que se comente a matéria, e esses comentários serão automaticamente exibidos. É, portanto, um ato inaugural. Será muito importante a colaboração dos leitores para isso. E será bom também para a mobilização do 12º Congresso.
Ritmo líquido se infiltrando
no adversário, grosso, de dentro,
impondo-lhe o que ele deseja,
mandando nele, apodrecendo-o.
Ritmo morno, de andar na areia,
de água doente de alagados,
entorpecendo e então atando
o mais irrequieto adversário”.
Ritmo quente, águas de aluvião,
Arrastando, tomando de assalto
Cidadelas e casamatas.
Vencendo, por persistência e determinação.
(Adaptado de João Cabral de Mello Neto)
Dar-me asas, atando-me os pés, é o mesmo que condenar-me à prisão.
(Machado de Assis)
Na guerra primeiro elabore os planos que assegurarão a vitória e só então conduza teu exercito à batalha, pois quem não inicia pela construção da estratégia, dependendo apenas da sorte e da força bruta, jamais terá a vitória assegurada.
(A Arte da Guerra)
A mobilização do 12º Congresso recoloca um tema permanente da vida partidária: a questão da militância organizada. É nesses momentos que se retoma a estruturação de bases e outras organizações do partido; entretanto, sabe-se que em grande parte dos casos elas se esfumam posteriormente, nos mil e um condicionamentos da vida. Nas organizações políticas revolucionárias em nosso país, incluído o PCdoB, sempre foi muito difícil dar um caráter mais persistente ao trabalho de base, mesmo nas fases de ascenso do movimento social e sindical. Mas experiências muito importantes existiram e existem, onde o PCdoB alcançou, também devido a isso, um papel principal de dirigente político de lutas do povo e redutos eleitorais.
A singularidade atual da edificação do PCdoB é seu vigor político, fileiras em expansão, com concepções e práticas renovadas de partido. Isso possibilita superar o problema em maior grau, no rumo de uma militância mais estável e estruturada em variados graus e formas de organicidade definidas desde a base, como modo maduro da vida partidária.
Novo debate coletivo
Nos três últimos Congressos (1997, 2001 e 2005), bem como na 9ª Conferência (2004), no 1º e 2º Encontro Nacional sobre Questões de Partido (2004 e 2005), formulou-se uma linha de organização para interrelacionar, na atuação das organizações militantes, a direção política, a intervenção na luta social e a estruturação partidária. Formou-se no 1º Encontro um “decálogo” (Extrato 1º Encontro) e no 2º Encontro a prioridade às relações de trabalho como critério organizacional (Extrato 2º Encontro), ainda hoje válidos. O Estatuto aprovado em 2005 consolidou uma cultura política de ampla flexibilidade de formas e tipos de organizações, segundo o que melhor permita a participação ativa dos membros do partido na elaboração e ação política. De certo modo – positivo – o Estatuto está adiante da prática prevalecente.
O tema da militância mais extensa porém estável retornou ao debate nos Encontros Nacionais de Organização desde dezembro de 2007. O argumento central era o da necessidade de firmar liames mais desenvolvidos dos militantes entre si, entre as direções e a base, e entre a militância e o povo. Vale a pena revisitar o artigo, porque nele se demonstra consciência dos problemas, contextualizados na realidade do PCdoB (Liames com a militância são essenciais).
Todas essas abordagens vêm produzindo algum resultado. Motivaram campanhas de valorização da militância e, em 2007 concluiu-se, significativamente, a centralidade de firmar o papel de largo contingente de quadros intermediários e de base para impulsionar o esforço. Mas o debate alcança pouca repercussão, todavia, e há muitas lacunas e insuficiências no concernente a alcançar uma militância a um só tempo mais estável e ampla. Não obstante, o PCdoB está entre os partidos mais organizados do país, sob qualquer critério – malgrado as insuficiências e nossa própria insatisfação –, exceto o da extensão.
Ação militante abnegada há, sem o que não se teria alcançado os êxitos dos últimos anos. Mas é muito fluida a atuação das organizações desde a base, o que leva a uma pequena estrutura militante mais perene, uma ampla margem flutuante com participação sazonal ou pouco regular, um entorno disperso. Muitas vezes, o esforço predominante ainda é fazer funcionar adequadamente os próprios comitês municipais. Nas batalhas que dominam a cena política, as eleições, uma aparente contradição: um auge de mobilização militante, com um ativismo político dispersivo. Agrega-se a isso o que se pode chamar de “crise de crescimento”, aportando dezenas de milhares de novos membros: na última década, o PCdoB multiplicou por três o número de membros e avançou para dois mil municípios.
Tudo isso cria defasagens entre os propósitos da orientação política e a força para implementá-la junto aos trabalhadores e ao povo.
O questionamento de concepções teóricas e ideológicas sobre o tema é residual. Todos parecem compreender que militância é a forma de forjar convicções e compromissos na vida partidária coletiva, onde se assume um contrato de direitos e deveres motivados por disciplina livremente aceita, num processo de construção dialética da consciência. Mas há falta de clareza política da vantagem de laços militantes mais estáveis como um elo central da vida partidária.
O que se verifica é uma prática de duplo caráter. Uma é de pouca atualidade política: concepções anacrônicas, que se apegam a moldes de pensamento estratégico que prevaleceram no passado, como epígonos de presumido bolchevismo.
Organizativamente, leva a reuniões de pequenos círculos, sempre com os mesmos, e rebaixa o esforço propriamente organizativo, com base em apelos ideológicos que não alcançam nem mesmo parcela estreita de militantes. Baseia-se numa mentalidade que transforma costumes datados em normas e, estas, muitas vezes, em cláusulas pétreas. Tendem a identificar a noção de militância com sacrifícios, uma concepção estreita ou muito estrita de militância que esteriliza o terreno para uma participação mais ampla de membros do partido na vida coletiva.
Outra é, a rigor, despolitizada, porque desconsidera desafios de fundo. Pratica concepções frouxas, vale dizer, liberais no espírito militante, procrastinando esforços por estruturar a militância desde a base, abrindo mão deles diante das primeiras dificuldades; é uma mentalidade de “tropa solta”, que rebaixa a consciência e tende a tratar os militantes como apêndices. Leva a ocupar o terreno com ervas daninhas em lugar de uma militância organizada mais extensa, porque, onde atuam, tais concepções têm potencial desestruturante sobre o conjunto.
As duas práticas são esquemáticas e ideologizadas: para uma os meios são mais importantes que os fins políticos; noutra supostamente os fins prescindem dos meios. O resultado, por diferentes caminhos, são liames militantes frouxos e pouco persistentes, ou que alcançam parcela restrita da militância.
No contexto de uma estruturação como partido comunista de massas e da centralidade atual da luta institucional-eleitoral, aumenta a pressão pelo liberalismo nos compromissos. Corretamente, o PCdoB não esconde essas pressões, nem se omite quanto a medidas destinadas a enfrentá-las. Mas ambas são práticas políticas atrasadas, de um pensamento estratégico que leva a derivações organizativas desligadas das necessidades da própria ação política.
Compreende-se que o tema é tão perene na vida partidária quanto insuperado até hoje. É preciso tirar o debate do impasse em que vive. Superar visões esquemáticas, ideologizações mistificantes, mentalidades. Principalmente, superar a defasagem político-organizativa que isso representa para o projeto político do PCdoB na atualidade.
Condicionamentos
Por que é tão difícil organizar politicamente bases militantes? É importante que não se compreenda isso como um ideal pelo qual a vida tivesse que se regular, nem apenas como falta de ideais. É preciso ir além, considerando duas premissas básicas para superar tal defasagem. Uma é a de que as defasagens são sempre dinâmicas; supera-se uma, criam-se outras. A questão é se se está em progresso ou em involução. A escala atingida hoje pelo PCdoB permite enfrentar o desafio proposto com novas possibilidades. Verdadeiramente, a escala é absolutamente central para abordá-lo por novo ângulo, pois permite falar de alcançar organicidade que não seja à base de pequenos círculos gremiais, que não dariam conta das exigências políticas.
A outra premissa é que se persegue esse objetivo em meio a condicionamentos de ordem política, social e cultural, em contextos determinados. Não se pode desconsiderar o enorme peso deles na constituição de uma militância política transformadora. Hoje a “política” sofre permanente campanha de desmoralização, e os partidos são arrastados para uma suposta geléia geral, onde todos os “gatos seriam pardos”. A própria bandeira da ética e moralidade é utilizada para esvaziar o poder político real das instituições, em favor de poderes financeiros, corporativos e midiáticos, infensos a qualquer controle social democrático. Há eleições a cada dois anos, o que exige esforço hercúleo para vencer contra a força do dinheiro e do poder.
No caso do Brasil, elas se dão em votações nominais (a legenda é secundária), com financiamento inteiramente privado, donde os mandatos pessoais alcançados são quase instituições singulares que se autogovernam. Contrapor-se a isso tudo, com um partido de maior organicidade desde a base seria um poderoso antídoto, por isso mesmo difícil de alcançar. É de se perceber, por exemplo, que uma medida puramente político-institucional como a instituição de voto em lista e financiamento público seria grande alavanca para o fortalecimento de organizações como o PCdoB, permitindo amoldar mais e melhor sua estrutura organizativa.
O país, por outro lado, tem uma história política marcada por ondas mudancistas, forjando grandes frentes políticas e sociais heterogêneas, com acentos movimentistas, hoje marcadamente eleitorais. Isso, segundo óticas distintas, aparenta contradizer a necessidade de esforços persistentes por formar e ativar bases político-partidárias: para quê mesmo? Parece que a própria vida política, em seus fluxos ascendentes, se encarregaria de resolver a questão – o que é parte importante da verdade, mas desconsidera o trabalho “molecular” prolongado para se chegar a esses fluxos. Há, ainda, as dimensões do país, a indicar que só com um partido muito grande se pode colocar na ordem do dia, efetivamente, a questão de organizar bases que incidam realmente no processo político. Deveriam ser vastas bases, para superar a atomização.
Os condicionamentos são pesados igualmente na esfera da vida e lutas sociais. Vive-se hoje uma dispersão de causas de todo tipo, que mobiliza a consciência humanista, reformista e até anticapitalista de contingentes variados. Mas só lentamente elas vão se ligando a projetos políticos transformadores exequíveis e não meramente “possibilistas”, que unam amplas forças e as mobilizem para um novo projeto nacional de desenvolvimento. Entra aí o défice do fator consciência das classes fundamentais.
A orientação política de movimentismo fragmenta essa perspectiva. A esquerda, é certo, crescentemente vai falando para a ampla maioria do povo – coisa inédita, a partir de Lula – mas de modo inorgânico; o movimento social organizado – adubo do trabalho de base – atinge apenas um terço da população. Avulta hoje o papel das igrejas; o individualismo é estimulado à exaustão; as redes sociais de proteção são precárias. Florescem a auto-ajuda, as filosofias folclóricas e exóticas, a dessolidarização e dessociabilização nas periferias dos grandes centros urbanos, a violência gratuita, as instituições criminosas ocupando os vazios do poder público. Percebe-se o quanto isso é hostil à noção de militância política, o quanto é difícil constituir uma força revolucionária de contracorrente à dominação do capital e mercantilização da vida social.
Não obstante, o Brasil, chegado à sua encruzilhada histórica – afirmar-se ou ter destino incerto enquanto nação –, está diante de novas perspectivas. Se é certo que não se está em plena fase de ofensiva política, é certo igualmente que cresce a politização do povo, na experiência inédita vivida na América do Sul. Nova geração de trabalhadores, intelectuais, jovens e mulheres, que vão fazendo sua própria experiência política. Fica mais claro que o Brasil necessita de uma esquerda determinada, socialista, de caráter unificado e com protagonismo político, visando a unir as forças populares para um novo projeto nacional. A questão de constituir uma militância ampla e estável, de líderes comunistas dos trabalhadores e do povo, é parte desse movimento concreto. Há espaço político para o PCdoB, é preciso ocupá-lo.
Dar asas à política sem atar-lhe os pés
O PCdoB elaborou linhas de acumulação de forças que realçam que a questão da organização política como parte irrecusável da acumulação de forças, na perspectiva estratégica. A questão central para o debate proposto é que, para uma militância extensa e mais estável, no caso do PCdoB, será mais frutífera uma abordagem radicalmente político-organizativa. Em que sentido? No de que organizações partidárias de qualquer tipo se organizam para a consecução de objetivos políticos, sem o que se estará no terreno da ficção. E no sentido de que a boa política precisa chegar ao povo, pô-lo em movimento – aí é submetida ao teste da vida real, se está atrasada ou é artificial para o nível posto da luta e da correlação política de forças.
O sentido político da questão tem caráter estratégico, porque a acumulação de forças tem em vista alcançar hegemonia política, cultural e moral na sociedade. É um movimento prolongado, conscientizando e unindo os trabalhadores e o povo em torno de objetivos concretos, não apenas mas também nas lutas eleitorais. Neste 12º Congresso, com o Projeto de Programa Socialista e o de uma Política de Quadros Comunistas para a Contemporaneidade, torna-se mais tangível aquilo pelo quê luta o PCdoB, um caminho brasileiro ao socialismo no curso da luta por um terceiro ciclo histórico de afirmação da nação. Pressupõe o partido como destacado integrante de um bloco político de forças avançadas de caráter nacional, popular e democrático, combinando reformas estruturais e rupturas, numa processualidade que compreende também movimentos de transformações mais aceleradas advindas da luta política e eleitoral. A hegemonia é o centro da estratégia e define o que se exige da organização política –que seja um líquido capaz de penetrar cada poro da sociedade, tomando a forma concreta das exigências de cada situação, fazer-se presente em todas e cada uma das formas de vivências, resistências e lutas sociais, numa disputa política persistente, no Estado e na sociedade, no rumo de seu projeto socialista.
Também tem sentido tático, mais concreto e imediato. Organizando politicamente a militância se ganha força política, seja nas instituições, no movimento social, intelectual ou nas eleições. Conquistas em qualquer um desses terrenos são suadas, exigem liderança que só se conquista com esforços prolongados, custam mesmo muito esforço financeiro. No nível posto da luta política no país, não se altera facilmente a correlação de forças eleitoral ou no seio das grandes entidades de massa sem um período de tempo mais ou menos largo, com preparação e persistência, vasto trabalho de base, apoio social e fortes aliados.
Quanto ao sentido organizativo, ocorre que sem a participação de um corpo extenso de homens e mulheres conscientes, unidos em torno de uma orientação política, perde-se energia na luta, ou deixa-se de transformar o potencial em movimento real. Ou seja: se dá asas à ação política. E outra face da moeda é que com isso se pode ganhar características diferenciais entre a esquerda brasileira, as de um partido onde todos têm vez e voz, elaboram e decidem a orientação desde a base, um partido onde acima das lealdades e afinidades pessoais está o projeto político unitário. Enfim, um partido de militância e não de “correligionários”, ou apêndices de mandatários. Isso é inexequível sem uma estrutura organizativa capilarizada que possibilite, ao menos isso, incorporar a todos na ação política. Como dizem militantes nossos: “quando se está organizado a sorte ajuda”; “não se junta água com peneira”.
É necessário desideologizar, em boa medida, o tema da militância e do trabalho de base, deslocando-o precipuamente para a esfera da necessidade política e para o terreno de opções organizativas concretas, ou seja, caminhos, métodos, logísticas e planejamento. Ligar decididamente isso à consecução do papel estratégico do Partido. Compreender que, para alcançar hegemonia, se necessita de uma militância extensa e presente em todos os terrenos da vida social, política e cultural, no Estado e na sociedade em geral. E se necessita, igualmente, ter uma visão mais larga de militância, não restringindo seu caráter apenas ao ativismo político-social, como também – e de forma crescentemente importante – o de uma militância pela ideia de um novo projeto nacional. Pode-se compreender a diversidade de formas e meios de levar os membros do partido à condição de militantes, variando de acordo com as circunstâncias da atuação deles, penetrando as instituições mais influentes da sociedade. E é claro que a ideologia, base das convicções e motivações, estará presente, como amálgama dessa vontade coletiva.
Na abordagem radicalmente político-organizativa, uma visão avançada é conceber o desafio proposto como um vasto movimento para conferir organicidade, em variados graus e diversas formas, a uma corrente de opinião de massas com a política do PCdoB, estruturada como vasta rede politicamente ativa na sociedade, que chegue às forças avançadas e à maioria do povo. Essa é a perspectiva que emana do Programa em debate e da Política de Quadros contemporânea.
Em que pese o sentido eminentemente partidista da matéria, é preciso insistir que essa é uma tarefa democrática de ordem geral para a sociedade brasileira. Juntamente com uma reforma política democrática que fortaleça os partidos políticos, vai ser um impulso vigoroso por unir o povo brasileiro para um grande salto no fortalecimento da nação.
Direção política
Tal enfoque, em níveis mais concretos de determinação, torna necessária uma visão orgânica e sistêmica do conjunto do trabalho de direção, fazendo a devida mediação política entre as questões de concepção sobre a militância comunista e os resultados almejados, entre as exigências políticas e as possibilidades reais no nível posto da luta.
Faz falta em primeiro lugar um modo de direção política que induza a esses resultados. As próprias diretivas políticas da mobilização precisam pressupor – e indicar – uma pauta e agenda definidas para a vida de organizações de todo tipo. Mais claramente: as próprias diretivas políticas precisam demonstrar a necessidade de estruturação militante desde a base – ou elas são necessidades sentidas do processo político ou se tornam emblemas ocos. Se na ação política não faz diferença ter ou não organizações de base, elas não vão ser constituídas – seria idealismo. Se basta o ativismo político geral de pequena parcela de membros do partido nas grandes batalhas, não haverá organizações partidárias mais definidas e duradouras, prevalecerá a dispersão orgânica.
Hoje, no partido, isso se volta mais propriamente aos comitês, mal ou bem. De fato, é necessário, nos casos de baixos graus de estruturação; mas é insuficiente, porque isso deveria ser apenas um meio para fazer chegar à militância e bases essa pauta e agenda, passíveis de serem ajustadas à sua realidade.
Um exemplo útil são as campanhas eleitorais: elas representam hoje a principal batalha política concentrada pelo poder. Se a vida de base não intervêm nelas organizadamente, na verdade sinaliza-se serem desnecessárias. Já se falou, acima, da contradição que isso envolve – a mobilização que então se realiza parece um “defeito”, porquanto é dispersa. Mas há o outro lado da questão: é nelas que os liames ficam mais ativos, entre os militantes e entre eles e as direções, com pauta e agenda bem definidas. Outro exemplo foi a proposta de campanha pelas reformas estruturais democráticas (proposta pelo Comitê Central em março de 2007): promoveu-se seu lançamento em todo o país, mas pouco se organizou uma campanha propriamente dita, desde a base, capaz de levá-la ao debate do povo.
Mais uma vez, a chave parece ser: na luta política precisa-se estar vinculado aos trabalhadores e ao povo de forma sistemática, desenvolver as relações sociais locais em ligação com a luta política nacional, com mais campanhas mobilizadoras de todo tipo, com pautas e agendas dinâmicas. Isso é o que pode permitir a persistência das organizações partidárias.
Será muito relevante também forjar identidade bem definida do PCdoB na sociedade, seja a partir da atuação institucional-eleitoral, das lideranças de todo tipo, da presença nos movimentos sociais, na cultura, nas artes, na academia, com bandeiras ligadas ao novo projeto nacional, além de forte trabalho de comunicação e publicidade. Por isso também se insiste que, na agenda e pauta das organizações partidárias, precisam estar presentes campanhas próprias regulares com a identidade do partido. Alcançando falar para todos os trabalhadores e todo o povo, com identidade partidária bem difundida na sociedade, o trabalho de base será, de certo modo, a “sucursal” dessa identidade em cada local. Quem é “pessoal” do PCdoB? Não é o que aparece apenas em época de pedir votos; é o que faz parte da “comunidade”, parceiro na luta e na festa,  apoio nas horas mais difíceis para manter as conquistas alcançadas, que está se mobilizando para novas conquistas; é o que está batalhando por um novo projeto nacional no plano das ideias. Há razão, portanto, para dizer que esse é um problema puramente político e de direção política.
Direção organizativa – organicidade em movimento
O foco de direção organizativa decorre daí: construir permanentemente uma pauta e agenda pauta para a militância desde as bases, com um projeto político que a aglutine em cada situação dinamicamente, com debate político regular, apoio de quadros e controle de sua ação. Necessita-se de uma mudança de rumo da direção organizativa, com o apoio na direção política. Primeiro, para assegurar a governabilidade partidária por intermédio da política de quadros atualizada; segundo, para operar o partido por intermédio de estruturas auxiliares que visem a valorizar a organicidade desde a base.
A política de quadros atualizada possibilita chegar a uma infinidade de situações novas, particularmente no tocante a aglutinar um sem número de membros do partido mais diretamente ligados à luta de ideias, e com isso encontrar novas definições da condição militante nesse segmento. A proposição de coletivos, inscrita no Estatuto, ainda não é utilizada em todo seu potencial, mas é também uma forma de organicidade.
No que concerne ao tema de organizações de base, há duas chaves. A principal são os quadros intermediários e de base. A conclusão não é original, mas nova na escala: é necessário vasto contingente de quadros intermediários como modo de operar a vida interna – os pivôs de articulação da vida militante do PCdoB. E, igualmente, fixar o papel de quadros de base – afirmou-se, com razão, que eles são uma espécie de “elo perdido” na concepção e prática do PCdoB. Sem ambos, seria imaginar que o “rabo possa balançar o cão” e que estruturar a vida militante se daria por geração espontânea.
Trata-se, portanto, de opções organizativas determinadas. Ou seja, uma estrutura de quadros intermediários responsáveis diretamente por um conjunto de organizações partidárias, sob o comando dos quais são postos diversos quadros de base, num sistema de pivôs sucessivos, para aglutinar o contingente de militantes e filiados em cada região, pautando sua ação dinamicamente. Pode-se constituir fóruns desses quadros de base e intermediários, com debate político, formação, apoio, acompanhamento regular e sistematização de experiência; o mesmo quanto a fóruns de  secretários de organização de base e de comitês auxiliares no âmbito dos municípios ou em macro-regiões.
A segunda chave é compreender que alcançar organicidade desde a base não é um processo estático e fixo, ou segundo uma fórmula única. Está sujeita a leis de movimentos por ondas sucessivas, tendo em conta as características da ação política a cada situação. Deve-se deixar de lado uma visão estreita de organizações partidárias como pequenos círculos, reuniões pouco dinâmicas, sem pauta determinada; operar assim a vida partidária emperra-a. É uma  falácia o argumento segundo o qual campanhas desorganizam o partido –  na verdade, desorganizam uma visão estática.
Ambas as chaves denotam trabalho cotidiano e metódico para fazer as mediações necessárias. A militância deve ter tarefas para o tempo de paz – campanhas políticas regulares, comemorações partidárias, solidariedade internacionalista, arrecadação de fundos, distribuição de materiais, cursos, debates congressuais etc. – e para o tempo de guerra – eleições, greves e lutas reivindicatórias,  eleições dos movimentos sociais, mobilizações nacionais etc. Os comunistas são mais afeitos ao tempo de guerra. É mesmo de se discutir até que ponto se pode ir em tempos de “calmaria”. Mas, melhor que discutir é agir. O que faz falta é um trabalho verdadeiramente organizativo, com ciência e método, ao longo de alguns anos, para alcançar resultados mais consistentes em valorizar a militância, cultivá-la, estimulá-la por todos os meios, dar-lhe maior organicidade de ação política.
Rede, estilos, métodos
Nesse tipo de abordagem organizativa, fica melhor definido o trabalho de organização em sua especificidade própria e na resolutividade requerida. Organização é política, mas também um determinado fazer administrativo como suporte à ação política. Enfim, é um trabalho com especificidade adaptada a cada área, setor ou segmento da sociedade.
Fala-se hoje muito em redes, como tema organizativo, com razão. A lógica de redes pode ser combinada com a organização política, até melhor que a lógica puramente “verticalista” mais própria dos partidos. A organicidade pretendida se compatibiliza com isso. As redes permitem mobilizar com rapidez um contingente mais ou menos largo da sociedade. A questão, mais uma vez será: uma pauta e agenda política, e coordenação para puxar a rede pelos nós, que são precisamente os quadros intermediários e de base. Neste particular, ênfase deve ser posta na possibilidade de organizar a ação militante a partir de relações não presenciais. Se de fato se tem uma pauta política e agenda, a internet é uma ferramenta poderosa para mobilizar e manter informada a militância. Revoluções silenciosas estão sendo processadas nesse terreno. Particularmente, as redes são importantes em segmentos que lidam mais diretamente com informação e conhecimento, como os profissionais liberais, acadêmicos e professores, na área da cultura, arte e ciência em geral, na juventude em geral. Redes que podem se articular em torno das ideias programáticas do PCdoB, combinadas com eventos presenciais mais amplos nos momentos de definição de rumos.
Outro tema, este muito especial para os comunistas, é o de bases partidárias em setores e categorias, de trabalhadores em geral. As características organizativas, aqui, diferem positivamente, já que se busca aglutinar pessoas já organizadas pelo regime de produção e pela atividade sindical; e negativamente, dado o regime de falta de liberdade no chão das empresas e local de trabalho. Carecem, portanto, de esforço mais especializado e perseverante. Exatamente esse tipo de organização precisa ser mais definida e duradoura. Por que? Porque se relaciona com a base social definidora do caráter do PCdoB, o proletariado contemporâneo, que longe de estar em extinção, se ampliou e segue com o potencial de se constituir como a classe principal na luta contra o capital. É a ele que a política do partido precisa produzir maior aderência e representação e infundir maior consciência política. A linha atual de estruturação propõe priorizar, entre os critérios de organizar a militância, as relações de trabalho, nem que para isso se necessite reuni-los em local de moradia ou em plenárias reunindo categorias e setores diversos.
Também são temas organizativos concretos as questões de estilo e método de trabalho militante – e não são secundárias. As organizações partidárias de todo tipo precisam se instituir como “parte da paisagem” natural da vida social nos locais onde atuem, abrindo as suas portas para o debate dos filiados e apoiadores, agindo com a identidade do PCdoB, relacionando-se amplamente com as forças de todo tipo atuantes no mesmo meio. Onde isso ocorre – há experiências antigas e vitoriosas – constituem-se redutos políticos e eleitorais vitais para a luta de longo prazo. Onde isso se enfraqueceu, a vida mostra quanto tempo se demora a retomar posições. Onde se é um alienígena no meio em que se atua, nada progride.
Sobre métodos também há muito a fazer. As características do povo brasileiro são muito flexíveis e dinâmicas, avessas a muito formalismo ou mandonismo. É gente empreendedora, com uma mente ágil e de muita plasticidade. Mas o povo gosta de reuniões onde as principais lideranças estão presentes, atualizando o debate político, dando-lhes o exemplo moral. Assim devem ser as reuniões partidárias: empreendedoras e ágeis, com discussão e deliberações de ação realistas, motivadas; ativadas com a participação de lideranças partidárias; reuniões que muitas vezes são festas também. Reuniões longas, com muitas abstrações, sem clareza do por que estão sendo realizadas, tendem a se esgotar no próprio evento, mobilizarão sempre os mesmos, sem ampliar a organização.
Para tudo isso, o trabalho de organização em geral deve ser mais reforçado, como pilar destacado da estruturação militante. Precisa-se nessa frente de direção de gente madura, experiente e com autoridade, e apetrechá-la com recursos humanos e técnicos apropriados; indispensável também é haver uma estrutura de secretários em todos os escalões, até a base. Só assim se pode extrair consequências das justas e sadias preocupações da base com as insuficiências existentes, por um lado, e para fazer responder aos desafios do crescimento atual, sem travá-lo. É o caso de pensar em priorizar essa frente no próximo período de gestão.
Movimento coordenado em todas as frentes
Resumo concentrado da sinfonia: pauta política, agenda e quadros intermediários e de base para o apoio – essas as exigências de direção política e organizativa para a organicidade desde a base. Subsidiariamente, invoca-se: 1) não desconsiderar as diversas formas e meios para ligar militantes ao projeto partidário não apenas mediante ativismo político-social como também em torno de ideias, essencialmente as da luta por um novo projeto nacional; 2) características versáteis do papel e funcionamento dessas organizações, inclusive no sentido de utilizar ferramentas modernas de informação, coordenação e mobilização, como parte da paisagem do meio em que atuam, constituindo redes organizativas dinâmicas na coordenação do movimento; no mais das vezes, plenárias de militantes e filiados darão conta disso, ou reuniões de coletivos, com a condição de que sejam sistemáticas, bem focadas e tenham pivôs coordenadores para atuar no passo de se constituírem de forma mais madura as organizações; 3) formas de “movimentismo” na vida das bases não é um mal; ao contrário, em campanhas de todo tipo se pode ativar mais e melhor a militância desde a base, porque elas não são necessariamente perenes, mas constituídas em dinâmicas próprias às exigências políticas, que são cambiantes. Por isso, mais campanhas, mais movimento das bases, mais utilização da internet – essa a perspectiva para estabelecer liames mais fortes entre os militantes; 4)movimentos como o proposto serão impensáveis sem o concurso dos quadros mais prestigiados do partido, líderes comunistas de expressão pública, os líderes internos e de massa, os dirigentes; se eles não participam do esforço de firmar a militância de base, não a respeita e cultiva seu trabalho, não se dirige a ela regularmente, ou se se põem acima do partido e de sua vida coletiva, dificilmente se vencerá.
O que importa é essa direção geral, fazer convergir os esforços de todos os setores de direção para esses objetivos. Será realista, com isso, chegar a uma estrutura militante mais larga e em ação política organizada desde a base, capaz de polarizar regularmente uma margem mais ampla de filiados e incorporá-los à ação política. Enfim, amoldar mais a vida partidária, dar-lhe caráter mais maduro e menos amorfo.
Aí têm grande importância o trabalho de formação, de comunicação e da Carteira Militante. O mesmo pode ser dito das frentes de massa, numa via de duas mãos, estruturando para intervir na sociedade e intervir visando a estruturar mais o partido, sempre ligando os temas específicos ao projeto político geral do PCdoB. O exemplo de A Classe Operária é primoroso quanto a fornecer um tipo de trabalho regular e permanente para as bases na distribuição gratuita e sistemática. A internet tem sido poderosa ferramenta de unificação da orientação política em tempo real, com o acréscimo da exigência de fazer chegar seu conteúdo à militância de base. O trabalho de formação capacita os quadros intermediários e de base, bem como os militantes desde seu ingresso ao partido. A CNM expressa o compromisso de eleger e ser eleito na representação partidária.
A linha de estruturação e organização não tem pontos “cegos” quanto a isso. O que importa é desentranhar visões e atender às particularidades do processo político brasileiro. Se o movimento proposto ficar restrito a um discurso organizativo, tende a acentuar uma dicotomia com as demais áreas envolvidas que o levará ao insucesso. Pode-se esperar que, com o esforço sistêmico a partir das direções, sem dúvida ele vai motivar a recíproca da atitude dos militantes no esforço por auto-organizar-se e cumprir preceitos da vida partidária.  Tem sido uma experiência real: a militância cresce – e sinaliza exigências às direções – quando é tratada com o respeito devido, valorizada e desafiada.
Pensar grande, atuar de modo focado e concreto
Pode-se chegar a um PCdoB de várias centenas de milhares de membros no bojo de uma terceira vitória do povo nas eleições de 2010. Como se imagina conduzir um partido dessa magnitude? Como se imagina dar lugar a todos na luta? Concretamente hoje, por exemplo, pergunta-se: é agir de modo consequente preparar condições para a disputa eleitoral de prefeituras em 2012 em importantes capitais de Estados, sem agregar à construção das indispensáveis condições políticas e materiais o componente bases militantes? Como se sabe, numerosas capitais têm um PCdoB completamente aquém do possível em termos organizativos.
A condição para crescer é ter a política no comando, a organização materializando a força, a consciência soldando compromissos. A condição para crescer é saber crescer – sem se dividir, sem se dispersar, sem se desencaminhar. Sem organicidade desde a base não haverá lugar para todos no PCdoB com uma política una, e isso travará o seu próprio desenvolvimento, transparecendo a ideia de uma organização que tem “donos” imutáveis e práticas atrasadas.
É o caso de pensar política e organizativamente grande, e começar de modo focado e concreto, retomando nas novas condições essa luta por militância ampla e mais estável, com maior organicidade. Ela sempre acompanhou a estruturação do PCdoB. Não se vence tal batalha de um golpe só, ao mesmo tempo e em todo lugar. Objetivos podem ser traçados com realismo em cada município e estado. Um rumo promissor será conduzir uma extensa campanha política e ideológica, organizativa e prática, num movimento de todo o partido, do alto até a base, durante alguns anos: planificar um movimento político-organizativo de maior organicidade desde a base, estruturá-las e conferir-lhes papéis persistentes, valorizar a militância. É possível hoje pensar as coisas nesse rumo fora do horizonte do imediato, como também a médio e longo prazo.
O desafio proposto é a opção política mais eficaz ao projeto programático, por isso mesmo mais difícil de alcançar. É preciso mais eficácia na ação política – Lênin sempre insistia na eficácia e no espírito prático – e adaptar-se à realidade, porque a vida política do país vai impondo isso. Isso parte da premissa de que a matéria prima está dada: homens e mulheres que já se tornaram membros do PCdoB, ato elevado e consciente. Pode-se e deve-se partir dessa consciência dada, que os trouxe ao PCdoB, para organizá-la na ação política concreta. Que a ideologização não atribuam a eles as insuficiências do trabalho que se realiza no sentido de amoldar mais a vida partidária, conferir-lhe maior maturidade.
O PCdoB vai formando uma tradição própria e renovada de edificação de partido nos últimos 12 anos, cujas raízes remontam ao 9º Congresso: recusa a um molde único de organização, no caso o codificado pelo bolchevismo no âmbito da 3ª. Internacional. Tem a seu favor a compreensão de pôr a política no posto de comando da própria edificação, um modo politizado de lidar com a vida interna, algo mais de domínio da dialética entre as possibilidades e necessidades, entre o que é e o que devia ser, entre o curto e o médio prazo, entre vontade e condições objetivas. Isso é um patrimônio que se vai acumulando.
É preciso atentar para um problema frequente de qualquer movimento. Uma consciência elevada, assentada em premissas justas e realistas, impulsiona a superação de uma realidade dada. Esta, modificada pela ação, progressivamente vai exigindo novos enfoques – a consciência anterior fica defasada. O que se quer dizer? Que se deve atentar para mudanças de patamares, que superam as proposições anteriores. O PCdoB mudou de patamar estes anos, desafia-nos a novas aquisições de consciência, numa evolução dialética. Que o esquematismo não nos impeça de ver novas possibilidades na realidade e cambiar formulações. Pode-se vencer pelas ideias, pode-se dirigir pelas ideias; quando justas e maduras enquanto necessidade objetiva, apossam-se da consciência e se tornam força material.
O PCdoB superou muitos rubicões em sua trajetória e sempre foi movido a desafios. Todos envolveram luta prolongada. Nada de antemão faz supor que não se possa enfrentar também esse, de constituir uma militância estável e organizações partidárias mais definidas. Precisa-se alcançar maior clareza da necessidade; ter visão crítica e autocrítica já é um grande passo. Está lançado o desafio para os próximos anos: no plano organizativo, agir pela política de quadros e pela constituição de uma ativa e dinâmica vida organizada desde a base, com o apoio da direção política e de todo o esforço de direção. É o modo de formar largo contingente de comunistas revolucionários nas condições contemporâneas. Parafraseando João Amazonas, num sentido autenticamente político, pode-se dizer que o socialismo pelo qual se luta é uma tarefa que começa aqui e agora, mediante a construção de um forte partido comunista e a luta pela hegemonia; e a força dele são seus quadros e militantes conscientes, unidos e organizados desde a base na ação política concreta.
Documentos anexados ao texto:
Extrato 1º Encontro
Extrato 2º Encontro
Liames com a militância são essenciais
Publicado no Partido Vivo em 10/07/09

O presente artigo propõe retomar o debate desse tema. Ele é estratégico para nós, por isso não comporta simplificações, pelo que o artigo é relativamente longo. Conto com a paciência de todos. Para além da importância do tema em si mesmo, acresce que será possível fazê-lo de modo interativo, em tempo real. A nova página do 12º Congresso permitirá que se comente a matéria, e esses comentários serão automaticamente exibidos. É, portanto, um ato inaugural. Será muito importante a colaboração dos leitores para isso. E será bom também para a mobilização do 12º Congresso.

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Ritmo líquido se infiltrando

no adversário, grosso, de dentro,

impondo-lhe o que ele deseja,

mandando nele, apodrecendo-o.

Ritmo morno, de andar na areia,

de água doente de alagados,

entorpecendo e então atando

o mais irrequieto adversário”.

Ritmo quente, águas de aluvião,

Arrastando, tomando de assalto

Cidadelas e casamatas.

Vencendo, por persistência e determinação.

(Adaptado de João Cabral de Mello Neto)

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Dar-me asas, atando-me os pés, é o mesmo que condenar-me à prisão.

(Machado de Assis)

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Na guerra primeiro elabore os planos que assegurarão a vitória e só então conduza teu exercito à batalha, pois quem não inicia pela construção da estratégia, dependendo apenas da sorte e da força bruta, jamais terá a vitória assegurada.

(A Arte da Guerra)

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A mobilização do 12º Congresso recoloca um tema permanente da vida partidária: a questão da militância organizada. É nesses momentos que se retoma a estruturação de bases e outras organizações do partido; entretanto, sabe-se que em grande parte dos casos elas se esfumam posteriormente, nos mil e um condicionamentos da vida. Nas organizações políticas revolucionárias em nosso país, incluído o PCdoB, sempre foi muito difícil dar um caráter mais persistente ao trabalho de base, mesmo nas fases de ascenso do movimento social e sindical. Mas experiências muito importantes existiram e existem, onde o PCdoB alcançou, também devido a isso, um papel principal de dirigente político de lutas do povo e redutos eleitorais.

A singularidade atual da edificação do PCdoB é seu vigor político, fileiras em expansão, com concepções e práticas renovadas de partido. Isso possibilita superar o problema em maior grau, no rumo de uma militância mais estável e estruturada em variados graus e formas de organicidade definidas desde a base, como modo maduro da vida partidária.

Novo debate coletivo

Nos três últimos Congressos (1997, 2001 e 2005), bem como na 9ª Conferência (2004), no 1º e 2º Encontro Nacional sobre Questões de Partido (2004 e 2005), formulou-se uma linha de organização para interrelacionar, na atuação das organizações militantes, a direção política, a intervenção na luta social e a estruturação partidária. Formou-se no 1º Encontro um “decálogo” (Extrato 1º Encontro) e no 2º Encontro a prioridade às relações de trabalho como critério organizacional (Extrato 2º Encontro), ainda hoje válidos. O Estatuto aprovado em 2005 consolidou uma cultura política de ampla flexibilidade de formas e tipos de organizações, segundo o que melhor permita a participação ativa dos membros do partido na elaboração e ação política. De certo modo – positivo – o Estatuto está adiante da prática prevalecente.

O tema da militância mais extensa porém estável retornou ao debate nos Encontros Nacionais de Organização desde dezembro de 2007. O argumento central era o da necessidade de firmar liames mais desenvolvidos dos militantes entre si, entre as direções e a base, e entre a militância e o povo. Vale a pena revisitar o artigo, porque nele se demonstra consciência dos problemas, contextualizados na realidade do PCdoB (Liames com a militância são essenciais).

Todas essas abordagens vêm produzindo algum resultado. Motivaram campanhas de valorização da militância e, em 2007 concluiu-se, significativamente, a centralidade de firmar o papel de largo contingente de quadros intermediários e de base para impulsionar o esforço. Mas o debate alcança pouca repercussão, todavia, e há muitas lacunas e insuficiências no concernente a alcançar uma militância a um só tempo mais estável e ampla. Não obstante, o PCdoB está entre os partidos mais organizados do país, sob qualquer critério – malgrado as insuficiências e nossa própria insatisfação –, exceto o da extensão.

Ação militante abnegada há, sem o que não se teria alcançado os êxitos dos últimos anos. Mas é muito fluida a atuação das organizações desde a base, o que leva a uma pequena estrutura militante mais perene, uma ampla margem flutuante com participação sazonal ou pouco regular, um entorno disperso. Muitas vezes, o esforço predominante ainda é fazer funcionar adequadamente os próprios comitês municipais. Nas batalhas que dominam a cena política, as eleições, uma aparente contradição: um auge de mobilização militante, com um ativismo político dispersivo. Agrega-se a isso o que se pode chamar de “crise de crescimento”, aportando dezenas de milhares de novos membros: na última década, o PCdoB multiplicou por três o número de membros e avançou para dois mil municípios.

Tudo isso cria defasagens entre os propósitos da orientação política e a força para implementá-la junto aos trabalhadores e ao povo.

O questionamento de concepções teóricas e ideológicas sobre o tema é residual. Todos parecem compreender que militância é a forma de forjar convicções e compromissos na vida partidária coletiva, onde se assume um contrato de direitos e deveres motivados por disciplina livremente aceita, num processo de construção dialética da consciência. Mas há falta de clareza política da vantagem de laços militantes mais estáveis como um elo central da vida partidária.

O que se verifica é uma prática de duplo caráter. Uma é de pouca atualidade política: concepções anacrônicas, que se apegam a moldes de pensamento estratégico que prevaleceram no passado, como epígonos de presumido bolchevismo.

Organizativamente, leva a reuniões de pequenos círculos, sempre com os mesmos, e rebaixa o esforço propriamente organizativo, com base em apelos ideológicos que não alcançam nem mesmo parcela estreita de militantes. Baseia-se numa mentalidade que transforma costumes datados em normas e, estas, muitas vezes, em cláusulas pétreas. Tendem a identificar a noção de militância com sacrifícios, uma concepção estreita ou muito estrita de militância que esteriliza o terreno para uma participação mais ampla de membros do partido na vida coletiva.

Outra é, a rigor, despolitizada, porque desconsidera desafios de fundo. Pratica concepções frouxas, vale dizer, liberais no espírito militante, procrastinando esforços por estruturar a militância desde a base, abrindo mão deles diante das primeiras dificuldades; é uma mentalidade de “tropa solta”, que rebaixa a consciência e tende a tratar os militantes como apêndices. Leva a ocupar o terreno com ervas daninhas em lugar de uma militância organizada mais extensa, porque, onde atuam, tais concepções têm potencial desestruturante sobre o conjunto.

As duas práticas são esquemáticas e ideologizadas: para uma os meios são mais importantes que os fins políticos; noutra supostamente os fins prescindem dos meios. O resultado, por diferentes caminhos, são liames militantes frouxos e pouco persistentes, ou que alcançam parcela restrita da militância.

No contexto de uma estruturação como partido comunista de massas e da centralidade atual da luta institucional-eleitoral, aumenta a pressão pelo liberalismo nos compromissos. Corretamente, o PCdoB não esconde essas pressões, nem se omite quanto a medidas destinadas a enfrentá-las. Mas ambas são práticas políticas atrasadas, de um pensamento estratégico que leva a derivações organizativas desligadas das necessidades da própria ação política.

Compreende-se que o tema é tão perene na vida partidária quanto insuperado até hoje. É preciso tirar o debate do impasse em que vive. Superar visões esquemáticas, ideologizações mistificantes, mentalidades. Principalmente, superar a defasagem político-organizativa que isso representa para o projeto político do PCdoB na atualidade.

Condicionamentos

Por que é tão difícil organizar politicamente bases militantes? É importante que não se compreenda isso como um ideal pelo qual a vida tivesse que se regular, nem apenas como falta de ideais. É preciso ir além, considerando duas premissas básicas para superar tal defasagem. Uma é a de que as defasagens são sempre dinâmicas; supera-se uma, criam-se outras. A questão é se se está em progresso ou em involução. A escala atingida hoje pelo PCdoB permite enfrentar o desafio proposto com novas possibilidades. Verdadeiramente, a escala é absolutamente central para abordá-lo por novo ângulo, pois permite falar de alcançar organicidade que não seja à base de pequenos círculos gremiais, que não dariam conta das exigências políticas.

A outra premissa é que se persegue esse objetivo em meio a condicionamentos de ordem política, social e cultural, em contextos determinados. Não se pode desconsiderar o enorme peso deles na constituição de uma militância política transformadora. Hoje a “política” sofre permanente campanha de desmoralização, e os partidos são arrastados para uma suposta geléia geral, onde todos os “gatos seriam pardos”. A própria bandeira da ética e moralidade é utilizada para esvaziar o poder político real das instituições, em favor de poderes financeiros, corporativos e midiáticos, infensos a qualquer controle social democrático. Há eleições a cada dois anos, o que exige esforço hercúleo para vencer contra a força do dinheiro e do poder.

No caso do Brasil, elas se dão em votações nominais (a legenda é secundária), com financiamento inteiramente privado, donde os mandatos pessoais alcançados são quase instituições singulares que se autogovernam. Contrapor-se a isso tudo, com um partido de maior organicidade desde a base seria um poderoso antídoto, por isso mesmo difícil de alcançar. É de se perceber, por exemplo, que uma medida puramente político-institucional como a instituição de voto em lista e financiamento público seria grande alavanca para o fortalecimento de organizações como o PCdoB, permitindo amoldar mais e melhor sua estrutura organizativa.

O país, por outro lado, tem uma história política marcada por ondas mudancistas, forjando grandes frentes políticas e sociais heterogêneas, com acentos movimentistas, hoje marcadamente eleitorais. Isso, segundo óticas distintas, aparenta contradizer a necessidade de esforços persistentes por formar e ativar bases político-partidárias: para quê mesmo? Parece que a própria vida política, em seus fluxos ascendentes, se encarregaria de resolver a questão – o que é parte importante da verdade, mas desconsidera o trabalho “molecular” prolongado para se chegar a esses fluxos. Há, ainda, as dimensões do país, a indicar que só com um partido muito grande se pode colocar na ordem do dia, efetivamente, a questão de organizar bases que incidam realmente no processo político. Deveriam ser vastas bases, para superar a atomização.

Os condicionamentos são pesados igualmente na esfera da vida e lutas sociais. Vive-se hoje uma dispersão de causas de todo tipo, que mobiliza a consciência humanista, reformista e até anticapitalista de contingentes variados. Mas só lentamente elas vão se ligando a projetos políticos transformadores exequíveis e não meramente “possibilistas”, que unam amplas forças e as mobilizem para um novo projeto nacional de desenvolvimento. Entra aí o défice do fator consciência das classes fundamentais.

A orientação política de movimentismo fragmenta essa perspectiva. A esquerda, é certo, crescentemente vai falando para a ampla maioria do povo – coisa inédita, a partir de Lula – mas de modo inorgânico; o movimento social organizado – adubo do trabalho de base – atinge apenas um terço da população. Avulta hoje o papel das igrejas; o individualismo é estimulado à exaustão; as redes sociais de proteção são precárias. Florescem a auto-ajuda, as filosofias folclóricas e exóticas, a dessolidarização e dessociabilização nas periferias dos grandes centros urbanos, a violência gratuita, as instituições criminosas ocupando os vazios do poder público. Percebe-se o quanto isso é hostil à noção de militância política, o quanto é difícil constituir uma força revolucionária de contracorrente à dominação do capital e mercantilização da vida social.

Não obstante, o Brasil, chegado à sua encruzilhada histórica – afirmar-se ou ter destino incerto enquanto nação –, está diante de novas perspectivas. Se é certo que não se está em plena fase de ofensiva política, é certo igualmente que cresce a politização do povo, na experiência inédita vivida na América do Sul. Nova geração de trabalhadores, intelectuais, jovens e mulheres, que vão fazendo sua própria experiência política. Fica mais claro que o Brasil necessita de uma esquerda determinada, socialista, de caráter unificado e com protagonismo político, visando a unir as forças populares para um novo projeto nacional. A questão de constituir uma militância ampla e estável, de líderes comunistas dos trabalhadores e do povo, é parte desse movimento concreto. Há espaço político para o PCdoB, é preciso ocupá-lo.

Dar asas à política sem atar-lhe os pés

O PCdoB elaborou linhas de acumulação de forças que realçam que a questão da organização política como parte irrecusável da acumulação de forças, na perspectiva estratégica. A questão central para o debate proposto é que, para uma militância extensa e mais estável, no caso do PCdoB, será mais frutífera uma abordagem radicalmente político-organizativa. Em que sentido? No de que organizações partidárias de qualquer tipo se organizam para a consecução de objetivos políticos, sem o que se estará no terreno da ficção. E no sentido de que a boa política precisa chegar ao povo, pô-lo em movimento – aí é submetida ao teste da vida real, se está atrasada ou é artificial para o nível posto da luta e da correlação política de forças.

O sentido político da questão tem caráter estratégico, porque a acumulação de forças tem em vista alcançar hegemonia política, cultural e moral na sociedade. É um movimento prolongado, conscientizando e unindo os trabalhadores e o povo em torno de objetivos concretos, não apenas mas também nas lutas eleitorais. Neste 12º Congresso, com o Projeto de Programa Socialista e o de uma Política de Quadros Comunistas para a Contemporaneidade, torna-se mais tangível aquilo pelo quê luta o PCdoB, um caminho brasileiro ao socialismo no curso da luta por um terceiro ciclo histórico de afirmação da nação. Pressupõe o partido como destacado integrante de um bloco político de forças avançadas de caráter nacional, popular e democrático, combinando reformas estruturais e rupturas, numa processualidade que compreende também movimentos de transformações mais aceleradas advindas da luta política e eleitoral. A hegemonia é o centro da estratégia e define o que se exige da organização política –que seja um líquido capaz de penetrar cada poro da sociedade, tomando a forma concreta das exigências de cada situação, fazer-se presente em todas e cada uma das formas de vivências, resistências e lutas sociais, numa disputa política persistente, no Estado e na sociedade, no rumo de seu projeto socialista.

Também tem sentido tático, mais concreto e imediato. Organizando politicamente a militância se ganha força política, seja nas instituições, no movimento social, intelectual ou nas eleições. Conquistas em qualquer um desses terrenos são suadas, exigem liderança que só se conquista com esforços prolongados, custam mesmo muito esforço financeiro. No nível posto da luta política no país, não se altera facilmente a correlação de forças eleitoral ou no seio das grandes entidades de massa sem um período de tempo mais ou menos largo, com preparação e persistência, vasto trabalho de base, apoio social e fortes aliados.

Quanto ao sentido organizativo, ocorre que sem a participação de um corpo extenso de homens e mulheres conscientes, unidos em torno de uma orientação política, perde-se energia na luta, ou deixa-se de transformar o potencial em movimento real. Ou seja: se dá asas à ação política. E outra face da moeda é que com isso se pode ganhar características diferenciais entre a esquerda brasileira, as de um partido onde todos têm vez e voz, elaboram e decidem a orientação desde a base, um partido onde acima das lealdades e afinidades pessoais está o projeto político unitário. Enfim, um partido de militância e não de “correligionários”, ou apêndices de mandatários. Isso é inexequível sem uma estrutura organizativa capilarizada que possibilite, ao menos isso, incorporar a todos na ação política. Como dizem militantes nossos: “quando se está organizado a sorte ajuda”; “não se junta água com peneira”.

É necessário desideologizar, em boa medida, o tema da militância e do trabalho de base, deslocando-o precipuamente para a esfera da necessidade política e para o terreno de opções organizativas concretas, ou seja, caminhos, métodos, logísticas e planejamento. Ligar decididamente isso à consecução do papel estratégico do Partido. Compreender que, para alcançar hegemonia, se necessita de uma militância extensa e presente em todos os terrenos da vida social, política e cultural, no Estado e na sociedade em geral. E se necessita, igualmente, ter uma visão mais larga de militância, não restringindo seu caráter apenas ao ativismo político-social, como também – e de forma crescentemente importante – o de uma militância pela ideia de um novo projeto nacional. Pode-se compreender a diversidade de formas e meios de levar os membros do partido à condição de militantes, variando de acordo com as circunstâncias da atuação deles, penetrando as instituições mais influentes da sociedade. E é claro que a ideologia, base das convicções e motivações, estará presente, como amálgama dessa vontade coletiva.

Na abordagem radicalmente político-organizativa, uma visão avançada é conceber o desafio proposto como um vasto movimento para conferir organicidade, em variados graus e diversas formas, a uma corrente de opinião de massas com a política do PCdoB, estruturada como vasta rede politicamente ativa na sociedade, que chegue às forças avançadas e à maioria do povo. Essa é a perspectiva que emana do Programa em debate e da Política de Quadros contemporânea.

Em que pese o sentido eminentemente partidista da matéria, é preciso insistir que essa é uma tarefa democrática de ordem geral para a sociedade brasileira. Juntamente com uma reforma política democrática que fortaleça os partidos políticos, vai ser um impulso vigoroso por unir o povo brasileiro para um grande salto no fortalecimento da nação.

Direção política

Tal enfoque, em níveis mais concretos de determinação, torna necessária uma visão orgânica e sistêmica do conjunto do trabalho de direção, fazendo a devida mediação política entre as questões de concepção sobre a militância comunista e os resultados almejados, entre as exigências políticas e as possibilidades reais no nível posto da luta.

Faz falta em primeiro lugar um modo de direção política que induza a esses resultados. As próprias diretivas políticas da mobilização precisam pressupor – e indicar – uma pauta e agenda definidas para a vida de organizações de todo tipo. Mais claramente: as próprias diretivas políticas precisam demonstrar a necessidade de estruturação militante desde a base – ou elas são necessidades sentidas do processo político ou se tornam emblemas ocos. Se na ação política não faz diferença ter ou não organizações de base, elas não vão ser constituídas – seria idealismo. Se basta o ativismo político geral de pequena parcela de membros do partido nas grandes batalhas, não haverá organizações partidárias mais definidas e duradouras, prevalecerá a dispersão orgânica.

Hoje, no partido, isso se volta mais propriamente aos comitês, mal ou bem. De fato, é necessário, nos casos de baixos graus de estruturação; mas é insuficiente, porque isso deveria ser apenas um meio para fazer chegar à militância e bases essa pauta e agenda, passíveis de serem ajustadas à sua realidade.

Um exemplo útil são as campanhas eleitorais: elas representam hoje a principal batalha política concentrada pelo poder. Se a vida de base não intervêm nelas organizadamente, na verdade sinaliza-se serem desnecessárias. Já se falou, acima, da contradição que isso envolve – a mobilização que então se realiza parece um “defeito”, porquanto é dispersa. Mas há o outro lado da questão: é nelas que os liames ficam mais ativos, entre os militantes e entre eles e as direções, com pauta e agenda bem definidas. Outro exemplo foi a proposta de campanha pelas reformas estruturais democráticas (proposta pelo Comitê Central em março de 2007): promoveu-se seu lançamento em todo o país, mas pouco se organizou uma campanha propriamente dita, desde a base, capaz de levá-la ao debate do povo.

Mais uma vez, a chave parece ser: na luta política precisa-se estar vinculado aos trabalhadores e ao povo de forma sistemática, desenvolver as relações sociais locais em ligação com a luta política nacional, com mais campanhas mobilizadoras de todo tipo, com pautas e agendas dinâmicas. Isso é o que pode permitir a persistência das organizações partidárias.

Será muito relevante também forjar identidade bem definida do PCdoB na sociedade, seja a partir da atuação institucional-eleitoral, das lideranças de todo tipo, da presença nos movimentos sociais, na cultura, nas artes, na academia, com bandeiras ligadas ao novo projeto nacional, além de forte trabalho de comunicação e publicidade. Por isso também se insiste que, na agenda e pauta das organizações partidárias, precisam estar presentes campanhas próprias regulares com a identidade do partido. Alcançando falar para todos os trabalhadores e todo o povo, com identidade partidária bem difundida na sociedade, o trabalho de base será, de certo modo, a “sucursal” dessa identidade em cada local. Quem é “pessoal” do PCdoB? Não é o que aparece apenas em época de pedir votos; é o que faz parte da “comunidade”, parceiro na luta e na festa,  apoio nas horas mais difíceis para manter as conquistas alcançadas, que está se mobilizando para novas conquistas; é o que está batalhando por um novo projeto nacional no plano das ideias. Há razão, portanto, para dizer que esse é um problema puramente político e de direção política.

Direção organizativa – organicidade em movimento

O foco de direção organizativa decorre daí: construir permanentemente uma pauta e agenda pauta para a militância desde as bases, com um projeto político que a aglutine em cada situação dinamicamente, com debate político regular, apoio de quadros e controle de sua ação. Necessita-se de uma mudança de rumo da direção organizativa, com o apoio na direção política. Primeiro, para assegurar a governabilidade partidária por intermédio da política de quadros atualizada; segundo, para operar o partido por intermédio de estruturas auxiliares que visem a valorizar a organicidade desde a base.

A política de quadros atualizada possibilita chegar a uma infinidade de situações novas, particularmente no tocante a aglutinar um sem número de membros do partido mais diretamente ligados à luta de ideias, e com isso encontrar novas definições da condição militante nesse segmento. A proposição de coletivos, inscrita no Estatuto, ainda não é utilizada em todo seu potencial, mas é também uma forma de organicidade.

No que concerne ao tema de organizações de base, há duas chaves. A principal são os quadros intermediários e de base. A conclusão não é original, mas nova na escala: é necessário vasto contingente de quadros intermediários como modo de operar a vida interna – os pivôs de articulação da vida militante do PCdoB. E, igualmente, fixar o papel de quadros de base – afirmou-se, com razão, que eles são uma espécie de “elo perdido” na concepção e prática do PCdoB. Sem ambos, seria imaginar que o “rabo possa balançar o cão” e que estruturar a vida militante se daria por geração espontânea.

Trata-se, portanto, de opções organizativas determinadas. Ou seja, uma estrutura de quadros intermediários responsáveis diretamente por um conjunto de organizações partidárias, sob o comando dos quais são postos diversos quadros de base, num sistema de pivôs sucessivos, para aglutinar o contingente de militantes e filiados em cada região, pautando sua ação dinamicamente. Pode-se constituir fóruns desses quadros de base e intermediários, com debate político, formação, apoio, acompanhamento regular e sistematização de experiência; o mesmo quanto a fóruns de  secretários de organização de base e de comitês auxiliares no âmbito dos municípios ou em macro-regiões.

A segunda chave é compreender que alcançar organicidade desde a base não é um processo estático e fixo, ou segundo uma fórmula única. Está sujeita a leis de movimentos por ondas sucessivas, tendo em conta as características da ação política a cada situação. Deve-se deixar de lado uma visão estreita de organizações partidárias como pequenos círculos, reuniões pouco dinâmicas, sem pauta determinada; operar assim a vida partidária emperra-a. É uma  falácia o argumento segundo o qual campanhas desorganizam o partido –  na verdade, desorganizam uma visão estática.

Ambas as chaves denotam trabalho cotidiano e metódico para fazer as mediações necessárias. A militância deve ter tarefas para o tempo de paz – campanhas políticas regulares, comemorações partidárias, solidariedade internacionalista, arrecadação de fundos, distribuição de materiais, cursos, debates congressuais etc. – e para o tempo de guerra – eleições, greves e lutas reivindicatórias,  eleições dos movimentos sociais, mobilizações nacionais etc. Os comunistas são mais afeitos ao tempo de guerra. É mesmo de se discutir até que ponto se pode ir em tempos de “calmaria”. Mas, melhor que discutir é agir. O que faz falta é um trabalho verdadeiramente organizativo, com ciência e método, ao longo de alguns anos, para alcançar resultados mais consistentes em valorizar a militância, cultivá-la, estimulá-la por todos os meios, dar-lhe maior organicidade de ação política.

Rede, estilos, métodos

Nesse tipo de abordagem organizativa, fica melhor definido o trabalho de organização em sua especificidade própria e na resolutividade requerida. Organização é política, mas também um determinado fazer administrativo como suporte à ação política. Enfim, é um trabalho com especificidade adaptada a cada área, setor ou segmento da sociedade.

Fala-se hoje muito em redes, como tema organizativo, com razão. A lógica de redes pode ser combinada com a organização política, até melhor que a lógica puramente “verticalista” mais própria dos partidos. A organicidade pretendida se compatibiliza com isso. As redes permitem mobilizar com rapidez um contingente mais ou menos largo da sociedade. A questão, mais uma vez será: uma pauta e agenda política, e coordenação para puxar a rede pelos nós, que são precisamente os quadros intermediários e de base. Neste particular, ênfase deve ser posta na possibilidade de organizar a ação militante a partir de relações não presenciais. Se de fato se tem uma pauta política e agenda, a internet é uma ferramenta poderosa para mobilizar e manter informada a militância. Revoluções silenciosas estão sendo processadas nesse terreno. Particularmente, as redes são importantes em segmentos que lidam mais diretamente com informação e conhecimento, como os profissionais liberais, acadêmicos e professores, na área da cultura, arte e ciência em geral, na juventude em geral. Redes que podem se articular em torno das ideias programáticas do PCdoB, combinadas com eventos presenciais mais amplos nos momentos de definição de rumos.

Outro tema, este muito especial para os comunistas, é o de bases partidárias em setores e categorias, de trabalhadores em geral. As características organizativas, aqui, diferem positivamente, já que se busca aglutinar pessoas já organizadas pelo regime de produção e pela atividade sindical; e negativamente, dado o regime de falta de liberdade no chão das empresas e local de trabalho. Carecem, portanto, de esforço mais especializado e perseverante. Exatamente esse tipo de organização precisa ser mais definida e duradoura. Por que? Porque se relaciona com a base social definidora do caráter do PCdoB, o proletariado contemporâneo, que longe de estar em extinção, se ampliou e segue com o potencial de se constituir como a classe principal na luta contra o capital. É a ele que a política do partido precisa produzir maior aderência e representação e infundir maior consciência política. A linha atual de estruturação propõe priorizar, entre os critérios de organizar a militância, as relações de trabalho, nem que para isso se necessite reuni-los em local de moradia ou em plenárias reunindo categorias e setores diversos.

Também são temas organizativos concretos as questões de estilo e método de trabalho militante – e não são secundárias. As organizações partidárias de todo tipo precisam se instituir como “parte da paisagem” natural da vida social nos locais onde atuem, abrindo as suas portas para o debate dos filiados e apoiadores, agindo com a identidade do PCdoB, relacionando-se amplamente com as forças de todo tipo atuantes no mesmo meio. Onde isso ocorre – há experiências antigas e vitoriosas – constituem-se redutos políticos e eleitorais vitais para a luta de longo prazo. Onde isso se enfraqueceu, a vida mostra quanto tempo se demora a retomar posições. Onde se é um alienígena no meio em que se atua, nada progride.

Sobre métodos também há muito a fazer. As características do povo brasileiro são muito flexíveis e dinâmicas, avessas a muito formalismo ou mandonismo. É gente empreendedora, com uma mente ágil e de muita plasticidade. Mas o povo gosta de reuniões onde as principais lideranças estão presentes, atualizando o debate político, dando-lhes o exemplo moral. Assim devem ser as reuniões partidárias: empreendedoras e ágeis, com discussão e deliberações de ação realistas, motivadas; ativadas com a participação de lideranças partidárias; reuniões que muitas vezes são festas também. Reuniões longas, com muitas abstrações, sem clareza do por que estão sendo realizadas, tendem a se esgotar no próprio evento, mobilizarão sempre os mesmos, sem ampliar a organização.

Para tudo isso, o trabalho de organização em geral deve ser mais reforçado, como pilar destacado da estruturação militante. Precisa-se nessa frente de direção de gente madura, experiente e com autoridade, e apetrechá-la com recursos humanos e técnicos apropriados; indispensável também é haver uma estrutura de secretários em todos os escalões, até a base. Só assim se pode extrair consequências das justas e sadias preocupações da base com as insuficiências existentes, por um lado, e para fazer responder aos desafios do crescimento atual, sem travá-lo. É o caso de pensar em priorizar essa frente no próximo período de gestão.

Movimento coordenado em todas as frentes

Resumo concentrado da sinfonia: pauta política, agenda e quadros intermediários e de base para o apoio – essas as exigências de direção política e organizativa para a organicidade desde a base. Subsidiariamente, invoca-se: 1) não desconsiderar as diversas formas e meios para ligar militantes ao projeto partidário não apenas mediante ativismo político-social como também em torno de ideias, essencialmente as da luta por um novo projeto nacional; 2) características versáteis do papel e funcionamento dessas organizações, inclusive no sentido de utilizar ferramentas modernas de informação, coordenação e mobilização, como parte da paisagem do meio em que atuam, constituindo redes organizativas dinâmicas na coordenação do movimento; no mais das vezes, plenárias de militantes e filiados darão conta disso, ou reuniões de coletivos, com a condição de que sejam sistemáticas, bem focadas e tenham pivôs coordenadores para atuar no passo de se constituírem de forma mais madura as organizações; 3) formas de “movimentismo” na vida das bases não é um mal; ao contrário, em campanhas de todo tipo se pode ativar mais e melhor a militância desde a base, porque elas não são necessariamente perenes, mas constituídas em dinâmicas próprias às exigências políticas, que são cambiantes. Por isso, mais campanhas, mais movimento das bases, mais utilização da internet – essa a perspectiva para estabelecer liames mais fortes entre os militantes; 4)movimentos como o proposto serão impensáveis sem o concurso dos quadros mais prestigiados do partido, líderes comunistas de expressão pública, os líderes internos e de massa, os dirigentes; se eles não participam do esforço de firmar a militância de base, não a respeita e cultiva seu trabalho, não se dirige a ela regularmente, ou se se põem acima do partido e de sua vida coletiva, dificilmente se vencerá.

O que importa é essa direção geral, fazer convergir os esforços de todos os setores de direção para esses objetivos. Será realista, com isso, chegar a uma estrutura militante mais larga e em ação política organizada desde a base, capaz de polarizar regularmente uma margem mais ampla de filiados e incorporá-los à ação política. Enfim, amoldar mais a vida partidária, dar-lhe caráter mais maduro e menos amorfo.

Aí têm grande importância o trabalho de formação, de comunicação e da Carteira Militante. O mesmo pode ser dito das frentes de massa, numa via de duas mãos, estruturando para intervir na sociedade e intervir visando a estruturar mais o partido, sempre ligando os temas específicos ao projeto político geral do PCdoB. O exemplo de A Classe Operária é primoroso quanto a fornecer um tipo de trabalho regular e permanente para as bases na distribuição gratuita e sistemática. A internet tem sido poderosa ferramenta de unificação da orientação política em tempo real, com o acréscimo da exigência de fazer chegar seu conteúdo à militância de base. O trabalho de formação capacita os quadros intermediários e de base, bem como os militantes desde seu ingresso ao partido. A CNM expressa o compromisso de eleger e ser eleito na representação partidária.

A linha de estruturação e organização não tem pontos “cegos” quanto a isso. O que importa é desentranhar visões e atender às particularidades do processo político brasileiro. Se o movimento proposto ficar restrito a um discurso organizativo, tende a acentuar uma dicotomia com as demais áreas envolvidas que o levará ao insucesso. Pode-se esperar que, com o esforço sistêmico a partir das direções, sem dúvida ele vai motivar a recíproca da atitude dos militantes no esforço por auto-organizar-se e cumprir preceitos da vida partidária.  Tem sido uma experiência real: a militância cresce – e sinaliza exigências às direções – quando é tratada com o respeito devido, valorizada e desafiada.

Pensar grande, atuar de modo focado e concreto

Pode-se chegar a um PCdoB de várias centenas de milhares de membros no bojo de uma terceira vitória do povo nas eleições de 2010. Como se imagina conduzir um partido dessa magnitude? Como se imagina dar lugar a todos na luta? Concretamente hoje, por exemplo, pergunta-se: é agir de modo consequente preparar condições para a disputa eleitoral de prefeituras em 2012 em importantes capitais de Estados, sem agregar à construção das indispensáveis condições políticas e materiais o componente bases militantes? Como se sabe, numerosas capitais têm um PCdoB completamente aquém do possível em termos organizativos.

A condição para crescer é ter a política no comando, a organização materializando a força, a consciência soldando compromissos. A condição para crescer é saber crescer – sem se dividir, sem se dispersar, sem se desencaminhar. Sem organicidade desde a base não haverá lugar para todos no PCdoB com uma política una, e isso travará o seu próprio desenvolvimento, transparecendo a ideia de uma organização que tem “donos” imutáveis e práticas atrasadas.

É o caso de pensar política e organizativamente grande, e começar de modo focado e concreto, retomando nas novas condições essa luta por militância ampla e mais estável, com maior organicidade. Ela sempre acompanhou a estruturação do PCdoB. Não se vence tal batalha de um golpe só, ao mesmo tempo e em todo lugar. Objetivos podem ser traçados com realismo em cada município e estado. Um rumo promissor será conduzir uma extensa campanha política e ideológica, organizativa e prática, num movimento de todo o partido, do alto até a base, durante alguns anos: planificar um movimento político-organizativo de maior organicidade desde a base, estruturá-las e conferir-lhes papéis persistentes, valorizar a militância. É possível hoje pensar as coisas nesse rumo fora do horizonte do imediato, como também a médio e longo prazo.

O desafio proposto é a opção política mais eficaz ao projeto programático, por isso mesmo mais difícil de alcançar. É preciso mais eficácia na ação política – Lênin sempre insistia na eficácia e no espírito prático – e adaptar-se à realidade, porque a vida política do país vai impondo isso. Isso parte da premissa de que a matéria prima está dada: homens e mulheres que já se tornaram membros do PCdoB, ato elevado e consciente. Pode-se e deve-se partir dessa consciência dada, que os trouxe ao PCdoB, para organizá-la na ação política concreta. Que a ideologização não atribuam a eles as insuficiências do trabalho que se realiza no sentido de amoldar mais a vida partidária, conferir-lhe maior maturidade.

O PCdoB vai formando uma tradição própria e renovada de edificação de partido nos últimos 12 anos, cujas raízes remontam ao 9º Congresso: recusa a um molde único de organização, no caso o codificado pelo bolchevismo no âmbito da 3ª. Internacional. Tem a seu favor a compreensão de pôr a política no posto de comando da própria edificação, um modo politizado de lidar com a vida interna, algo mais de domínio da dialética entre as possibilidades e necessidades, entre o que é e o que devia ser, entre o curto e o médio prazo, entre vontade e condições objetivas. Isso é um patrimônio que se vai acumulando.

É preciso atentar para um problema frequente de qualquer movimento. Uma consciência elevada, assentada em premissas justas e realistas, impulsiona a superação de uma realidade dada. Esta, modificada pela ação, progressivamente vai exigindo novos enfoques – a consciência anterior fica defasada. O que se quer dizer? Que se deve atentar para mudanças de patamares, que superam as proposições anteriores. O PCdoB mudou de patamar estes anos, desafia-nos a novas aquisições de consciência, numa evolução dialética. Que o esquematismo não nos impeça de ver novas possibilidades na realidade e cambiar formulações. Pode-se vencer pelas ideias, pode-se dirigir pelas ideias; quando justas e maduras enquanto necessidade objetiva, apossam-se da consciência e se tornam força material.

O PCdoB superou muitos rubicões em sua trajetória e sempre foi movido a desafios. Todos envolveram luta prolongada. Nada de antemão faz supor que não se possa enfrentar também esse, de constituir uma militância estável e organizações partidárias mais definidas. Precisa-se alcançar maior clareza da necessidade; ter visão crítica e autocrítica já é um grande passo. Está lançado o desafio para os próximos anos: no plano organizativo, agir pela política de quadros e pela constituição de uma ativa e dinâmica vida organizada desde a base, com o apoio da direção política e de todo o esforço de direção. É o modo de formar largo contingente de comunistas revolucionários nas condições contemporâneas. Parafraseando João Amazonas, num sentido autenticamente político, pode-se dizer que o socialismo pelo qual se luta é uma tarefa que começa aqui e agora, mediante a construção de um forte partido comunista e a luta pela hegemonia; e a força dele são seus quadros e militantes conscientes, unidos e organizados desde a base na ação política concreta.

Publicado no Partido Vivo em 10/07/09

Governar pelos quadros: o desafio da construção partidária

No artigo anterior, tratei da importância de mobilizar a inteligência partidária, entre a qual os quadros mais diretamente atuantes na luta de ideias, para o debate congressual. Isso é parte de um esforço maior, de grande importância no 12º Congresso, que é o tema de uma política de quadros atualizada.
 

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