Escolas ocupadas: “Estudantes e comunidades nunca mais serão os mesmos”, creem educadores

por Gisele Brito, da RBA

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Nas ocupações, alunos valorizam escolas contra um discurso de ataque à coisa pública

LIÇÕES QUE FICAM

‘Estudantes e comunidades nunca mais serão os mesmos’

Legado político e pedagógico das ocupações das escolas de São Paulo já podem ser projetados, acreditam educadores

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Visitando uma escola ocupada

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* Luiz Henrique Dias 

Nesta quarta-feira (02) eu visite uma ocupação de estudantes.

Não tirei fotos e nem vou divulgar o nome da escola para não atrapalhar a organização da ocupação e para não colocar em risco a segurança dos estudantes, uma vez que as fotos fornecer dados acerca de quem são e de quantos são.

Fui até lá a convite de um dos integrantes do movimento e pude, durante quase duas horas, conversar com estudantes, participar de alguns debates sobre temas importantes e jantar com eles, que fizeram em mutirão uma deliciosa comida, utilizando alimentos de doações da comunidade.

Fiquei impressionado com a organização e com o compromisso de luta daqueles jovens.

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Conversa com Renan Alencar, eleito presidente da UJS

No conversa.com Renan Alencar: “Fui eleito para a presidência nacional da UJS, para o biênio 2014-2016. Junto aos companheiros e companheiras eleitos comigo pra a direção nacional, em conjunto com nossos camaradas das direções estaduais, municipais e dos coletivos e frentes da UJS, espero poder cumprir com afinco nosso mandato, de luta por um Brasil justo, soberano, democrático e desenvolvido. Tenho certeza que não será fácil, mas é um desafio a altura da aguerrida militância da UJS. Daqui a cinco anos, espero estar graduado em engenharia e poder contribuir com o meu país.” 

Renan Alencar

Renan Alencar

Renan, vamos começar pelo fim. Você foi eleito Presidente Nacional da UJS, um orgulho para você e para nós. O que significou para você?

Para mim foi uma grande honra. Ter sido conferido a mim a confiança para presidir uma organização como a União da Juventude Socialista, uma organização que completa 30 anos de história a serviço do povo brasileiro. Foi simplesmente o maior Congresso da história da UJS, com meio milhão de jovens mobilizados, mais de 200 mil novos filiados e 3 mil reunidos em Brasília. Tivemos a oportunidade de receber a presidenta da República Dilma Rousseff. Na ocasião, apresentamos a necessidade da quarta vitória de um Projeto Popular e Democrático, através da re-eleição da Presidenta Dilma. É necessário renovar a esperança e avançar nas mudanças. Nessas eleições 40 milhões dos eleitores terão 35 anos ou menos e 11 milhões exercerão pela primeira vez o seu direito ao voto. Esses jovens que irão às urnas, certamente terão um peso decisivo nas eleições desse ano. Diretamente pelo contingente eleitoral que eles representam, seja pela proeminência que estes jovens possuem em seus locais de estudo, onde moram, onde trabalham e nas redes sociais, o que se costuma chamar de formadores de opinião. Esses são os mesmos jovens, que tiveram acesso à universidade, ao emprego formal e ao mercado de consumo nos últimos 12 anos. Eles também estiveram nas ruas em junho de 2013, para protestar contra os altos preços e pela má qualidade do transporte coletivo, nas grandes cidades brasileiras. Além de rechaçarem a forma truculenta e torpe com que a Polícia Militar trata a juventude, seja em protestos sociais onde a bala é de borracha, seja na periferia onde a bala é letal. Foi nítida também, a repulsa sobre a forma como os grandes meios de comunicação trataram os protestos. Precisamos disputar a narrativa e o legado que junho de 2013 deixou no seio da juventude e da sociedade brasileira.

Como foi sua iniciação política? Seus pais tiveram influência nisso? Como foi o encontro com a UJS – amor à primeira vista?

Sempre gostei de política desde jovem, era secundarista quando Lula foi eleito em 2002. Lembro muito bem da grande expectativa e comoção social que isso trouxe à tona, isso era tema de debate da minha roda de amigos na escola. Ainda no Ensino Médio tive contato com Maximo Gorki, Castro Alves, li um livro sobre a Revolução Cubana e sobre a Revolução Russa, gostava bastante do Che, do Fidel e do Chávez. Entrei na Universidade em 2004 e lá tive contato com a UJS. Em 2005 houve uma mobilização que a UJS realizou rumo ao 15º Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes, que ocorreu na Venezuela. Fui para o Festival e voltei maravilhado, tanto com o processo que pude conhecer naquele país, como, principalmente, com a galera que havia conhecido. Vi que eram jovens como eu, que gostavam bastante de política, mas que não eram quadradões. Pensei: “Aqui é meu lugar!” Entrei para o movimento estudantil, fui do Centro Acadêmico, da UEE, da UNE a qual eu tive a chance de representar ao longo de quatro anos na Organização Latino Americana e Caribenha dos Estudantes, quando morei quatro anos em Cuba. Conheci 28 países da América Latina e do Mundo, foi uma experiência sensacional. No último período, fui diretor de organização e vice-presidente nacional da UJS.

Muito jovem ainda, mas bem formado e muito compromissado. O que o define como pessoa?

Tenho a oportunidade de militar numa grande escola de socialismo da juventude brasileira.  A UJS sempre procura combinar leitura política clara e assertiva, com ação concreta de mobilização social. A síntese do que sou é fruto de minha origem social, de minha vivência social e de minha formação acadêmica. Das tarefas que tive a oportunidade de desempenhar ao longo de minha militância na UJS. Definir-se por si próprio, nem sempre é algo simples.

Que você acha da juventude hoje? Rolezinhos, black blocs, anseios, anarquismo, espelhamento nos tempos anteriores mas olhando para o futuro. Um filósofo disse que isso é a ideologia do shopping, fiquei chocado.

A juventude sempre foi um período fundamental da vida de qualquer indivíduo. É nessa fase da vida que são feitas as principais escolhas: a carreira profissional, formação do caráter político, de relacionamentos. O jovem também é questionador e é por isso que as principais sublevações sociais sempre contaram com a participação e o protagonismo juvenil. O jovem tem a capacidade de se indignar com as atrocidades cometidas pelo sistema capitalista. Em nosso tempo, a juventude possui características que não são menores. Milhões de jovens ingressaram na escola, no ensino técnico, na universidade, no mercado de trabalho e no mercado consumidor. Foram às ruas em junho de 2013 e conquistaram vitórias concretas em todo o Brasil, como a redução das tarifas, melhorias concretas para a saúde com o Mais Médicos, para a Educação como foi a conquista dos royalties do Pré-sal. Vivemos um tempo de crescimento de oportunidades e de aprofundamento da democracia. Enfim, a juventude do nosso tempo está muito mais empoderada. Isso explica em parte fenômenos como o rolezinho, manifestações ocorrendo por todo o Brasil, o aumento do interesse do jovem pela política.

De todo modo, há um evidente sentimento anti-partidário e uma despolitização das visões de extensas camadas jovens, certo? Eles farão suas próprias experiências políticas, e a UJS importa muito para dar um rumo politizado em prol dos interesses fundamentais dos brasileiros. Que lhe parece?

O que às vezes é verbalizado como negação da política, nada mais é do que um sentimento de um não reconhecimento da política, como ela é majoritariamente feita hoje no Brasil. Por isso, necessitamos disputar a opinião e o sentimento desses jovens, que foi às ruas. Pois no geral, assim como nós, eles sonham em transformar o Brasil em um país melhor.

Os jovens hoje são muito meritocráticos – aquela de vencer pelo próprio esforço – mas ao mesmo tempo precisam e sabem que precisam igualdade de oportunidades. Como você vê esse embate?

O grande problema da lógica meritocrática no sistema capitalista, é que na imensa maioria das vezes, cobra-se de desiguais o mesmo desempenho. Sem que ambos tenham tido igualdade de oportunidades. Por exemplo, querem exigir de um jovem da periferia, que precisa trabalhar durante o dia e faz o ensino médio à noite numa escola pública, o mesmo rendimento num exame de ingresso a universidade, que um jovem de classe média ou média alta, que estuda pela manhã, pratica esporte à tarde e faz aula de idiomas e reforço pela noite. O Brasil precisa oferecer ainda mais oportunidades para a nossa juventude. Sem oportunidades, perde a juventude e perde o país. Precisamos garimpar os futuros cientistas, campeões olímpicos, empreendedores, professores. Além de cercear o acesso a direitos ou bem fundamentais, o capitalismo cultiva amplamente valores de individualismo, mesquinhez, egoísmo. Mas existe no Brasil, uma organização política que não se conforma e que luta contra tudo isso, o nome dela é UJS.

Governo Dilma, sinceramente…

É um governo de esquerda, democrático, de coalizão incluindo setores de centro, que ajudam a dar estabilidade e garantem a governabilidade, mas ao mesmo tempo impõem certos limites ao governo. É um governo de continuidade das políticas iniciadas pelo Presidente Lula. Políticas sociais, no estímulo a inclusão social pelo consumo através do fortalecimento do Bolsa Família, do Brasil sem Miséria, da geração de empregos e valorização do salário mínimo. Mas também pelo apreço pelas obras do Plano de Aceleração do Crescimento 2 (PAC 2), as 10 maiores obras do PAC 2, são de caráter infra estrutural, como hidroelétricas, refinarias, petroquímicas, termoelétricas, ferrovias, portos e aeroportos. A Dilma foi durante um tempo conhecida como a mãe do PAC. Além disso, Dilma tem apresentado convicções firmes quando se refere a temas como a Reforma Política, a apuração dos crimes cometidos durante a Ditadura Militar e o enfrentamento ao monopólio da grande mídia. No início do seu governo tomou medidas importantes de proteção à indústria nacional e de redução da taxa Selic ao patamar de um dígito. Nessa última, sofremos um revés na segunda metade do seu governo, voltando a figurar acima de 10%. É necessário ainda ampliar a taxa de investimento público para superar a lógica que nos trouxe até aqui. Posicionar o Estado como indutor do desenvolvimento nacional. Além de exportar minério de ferro, poderíamos também exportar maquinário pesado, industrializar e desenvolver o país. Aprofundar a democracia e romper com paradigmas não resolvidos durante as transições democráticas em nosso país é um desafio para esse governo e para os setores democráticos.

Quais suas preferências intelectuais, musicais, de lazer? Qual o time do coração?

Sou torcedor do Mengão, gosto de um sambinha, forró e de música brasileira, aprendi a diversificar meu gosto musical visitando alguns países da América Latina e do Mundo, sou eclético, mas minha play list é curta. Adoro as ciências exatas, sou de ir sempre ao cinema com minha namorada Carina, gosto de praticar esportes, faço jiu-jitsu sempre que posso. Já fui mais de balada, hoje em dia sou mais caseiro. Gosto bastante de cozinhar (acho que é relaxante). Na minha adolescência, convivi com a realidade de minha mãe e minha tia voltarem a estudar na universidade, uma história e a outra geografia. No início eu procurei ajudá-las a retomar o ritmo. Nessa empreitada, convivi um pouco com Darcy, Piaget, Sergio Buarque, Furtado, alguns livros de filosofia, sociologia, história. Além disso, sempre tive em casa os romancistas brasileiros, como José Alencar, Lima Barreto, Joaquim Manuel de Macedo, Monteiro Lobato, Aluísio de Azevedo, Graciliano Ramos, Milton Hatoum. Gosto de Galeano, Garcia Marquez, Saramago e Vargas Llosa. Se eu tivesse que indicar um autor para quem é adolescente ler, indicaria José de Alencar. É muito melhor do que esses romances de lobisomem e vampiro que vendem hoje em dia. É leve e boa para tomar gosto pela leitura.

Onde você imagina estar nos próximos cinco anos? E quanto à vida pessoal, profissional e política futura, o que a aguarda?

Fui eleito para a presidência nacional da UJS, para o biênio 2014-2016. Junto aos companheiros e companheiras eleitos comigo pra a direção nacional, em conjunto com nossos camaradas das direções estaduais, municipais e dos coletivos e frentes da UJS, espero poder cumprir com afinco nosso mandato, de luta por um Brasil justo, soberano, democrático e desenvolvido. Tenho certeza que não será fácil, mas é um desafio a altura da aguerrida militância da UJS. Daqui a cinco anos, espero estar graduado em engenharia e poder contribuir com o meu país, desempenhando alguma tarefa em numa empresa estatal do setor energético, como a PETROBRAS. Esse é um setor estratégico em nosso país, precisamos de homens e mulheres engajadas, posicionados em posicionados em postos de comando nessas empresas e em sindicatos dessas categorias.

visite: http://ujs.org.br/

A juventude quer ser vista e ouvida na cena pública


Conversa.com Ângela Guimarães, jovem e ativa comunista de nosso tempo, é o que ofereço aos leitores neste fim de semana.

 

A. Guimarães

 

 

 

 

 

Ângela, quem é você?

Eis uma pergunta dificílima… Poderia dizer que sou uma pessoa de hábitos simples, alegre, hiperativa, brigadora e movida a desafios. Sou natural de Salvador-Bahia, apaixonada pelo Nordeste e pelo Brasil, mas também pela América Latina e continente africano devido à nossa ancestralidade. Tenho um milhão de amigas e amigos, sou apaixonada por eles e valorizo muito a amizade na minha vida.

Tenho sorte de ter nascido numa família de gente honesta, alegre, simples e solidária. Meu pai sempre foi de esquerda e aprendi a ser comunista em casa e do lado da minha família materna temos muitas mulheres de fibra – minha avó, mãe, tias e primas – que romperam as amarras do racismo e do sexismo para abrir espaço para o lugar social e político que ocupo hoje. Tudo isso se consolidou e ampliou com a minha entrada no PCdoB.

És muito jovem, não é mesmo? Como foi sua iniciação política?

Agradeço pelo muito jovem, mas a bem da verdade é que já estou na casa dos trinta (risos). Na primeira eleição da retomada democrática no Brasil, em 1989, participei da campanha a presid
ente entre as crianças do meu bairro. Ali foi um importante despertar, estimulada pelos adultos da comunidade. Em seguida participei de grupos de jovens ligados à Igreja católica, mas sem vinculação direta com as pastorais, ao lado da luta comunitária em defesa de mais espaços e oportunidades de lazer e cultura para a juventude do bairro. Como o Estado não se fazia presente, nós, adolescentes e jovens, montávamos grupos de dança e teatro, promovíamos as festas populares, dentre outras ações.

Na escola durante o ensino médio ajudei a reorganizar o grêmio, era o meu ultimo ano na escola. Já na universidade é que de forma orgânica me vinculei à militância estudantil e consequentemente ao PCdoB e à UJS, no ano 2000, em que entrei na Universidade Federal da Bahia no curso de Ciências Sociais. Participei duas vezes do CA, fui presidenta em 2004, participei das jornadas da Revolta do Buzú em 2003, lutas pela Reforma Universitária em 2003/2005, fiz parte de duas gestões do Comitê estadual do PCdoB da Bahia e uma vez do CM de Salvador, além de integrar as direções da UJS municipal da qual fui presidenta (2008-2010), estadual (2004-2010) e nacional (2006-2010 e 2012-2014).

Concomitantemente, também participei das lutas do movimento negro como filiada e dirigente da Unegro baiana e nacional, em especial a luta pelas cotas raciais no ensino superior e contra o extermínio da juventude negra.
Então, hoje estou mergulhada na política institucional, mas minha real origem é do movimento cultural e também religioso e comunitário – ainda antes da grande escola que foi o movimento estudantil universitário.

Em que condições sociais você se fez uma militante política? Sofreu preconceitos?

A militância além do compromisso ideológico com os rumos estratégicos do país e do mundo, é também uma grande paixão para mim, então desde muito tempo em minha vida, viver é militar, defender bandeiras, causas, organizar a luta, participar de passeatas, passar em salas de aula, promover a transformação social. Então mesmo diante das dificuldades da vida como conciliação entre trabalho, estudos e militância durante a universidade, em seguida as contradições com a vida familiar e os projetos pessoais, sempre fui aprendendo um jeito de fazer essa conciliação.

Preconceitos, acreditem, sofremos todos os dias…. A invisibilidade das mulheres negras em espaços de poder e no conjunto da sociedade é enlouquecedora, a desconfiança de muitos pelo fato de jovens como eu ocuparem espaços estratégicos, às vezes também por ser nordestina, enfim são muitas as faces do racismo, sexismosexismo e xenofobia que enfrentamos diariamente, desde o começo da militância no CA – quantas histórias… – até agora vivendo o dia a dia na Esplanada dos Ministérios. Não é fácil, mas não desisti!

UJS: o que significou nessa trajetória?

A UJS é a grande escola do socialismo, um lugar de grandes aprendizados diários e cotidianos, um lugar de empoderamento de gente tão jovem em que não há limites para sonhar, aplica-se a esta organização revolucionária juvenil e socialista a famosa frase “sem saber que era impossível, foi lá e fez!”. Nela, vi minha indignação individual se somar a várias outras, se transformar em ação política e produzir mudanças na sociedade. Na UJS aprendi e aprendo praticamente tudo a respeito das lutas políticas e ideológicas do país e do mundo e confirmo a ousadia e disposição revolucionária da juventude para mudar o nosso país.

Além disso, devo a ela grande parte das amizades/irmandades que tenho hoje espalhadas em todo o Brasil e mundo e também a convicção revolucionária que orienta as minhas ações cotidianas. Diria que a UJS me fez uma militante mas sobretudo um ser humano melhor.

Uma de minhas satisfações muito pessoais foi ter você como integrante do Comitê Central eleito no 13° Congresso. Que significou isso para você?

Agradeço muito a deferência e o carinho. Foi uma grata surpresa a indicação, pois não esperava integrar o CC tão nova… Para mim foi e está sendo um enorme aprendizado e grande oportunidade política fazer parte de tão privilegiado espaço da direção, poder contribuir com as reflexões e decisões que orientam as ações partidárias em diversos âmbitos, jogar papel no crescimento do nosso partido, na sua influência entre setores formadores de opinião e entre amplas parcelas da massa. Enfim estou mergulhada de cabeça nos desafios políticos e organizativos partidários!

Você está em papel destacado na CONJUVE…

Por orientação e definição partidária componho desde 2011 a equipe do Governo Dilma na tarefa de Secretária-Adjunta Nacional de Juventude e a cada dois anos assumo a presidência do Conjuve que é o espaço de controle social das políticas de juventude e também um importante espaço de articulação dos segmentos juvenis, movimentos, Organizações, ONGs, fóruns, etc.

Em relação ao Conjuve o desafio maior é consolidá-lo como um espaço representativo que repercuta as principais demandas da juventude brasileira e fortalecer sua incidência/influência no conjunto do governo para que consigamos de fato dar prioridade à juventude na agenda política nacional. Fazemos isso com um variado número de atividades pelas cidades, com campanhas em torno de temas como o estatuto da juventude, a luta contra o genocídio da juventude negra, contra a redução da idade penal, dentre outros. Com estas ações desde 2005, ano de criação do Conjuve temos conseguido muitas vitórias.

E também na luta contra a discriminação racial…

Em relação à luta antirracismo acredito que estamos num importante momento de emergência deste tema para o conjunto da sociedade brasileira. Comemoramos dez anos de uma política nacional de promoção da igualdade racial e importantes resultados podem ser contabilizados como a aprovação da lei que reserva cotas para negros nas universidades públicas, a implementação da lei 10639/03 que institui obrigatoriedade do ensino da história e cultura afro-brasileira e africana, a instituição de uma política nacional de saúde da população negra, o reconhecimento e titulação das terras de comunidades quilombolas, os editais específicos à arte e cultura negra, o Plano Juventude Viva que busca prevenir e evitar mortes de jovens negros, a recente aprovação das cotas para negros/as nos concursos públicos, dentre outros. Entretanto, mesmo com este leque expressivo de políticas publicas o racismo continua a ser um entrave ao pleno desenvolvimento do Brasil.

Este ano tem sido bastante ilustrativo deste fenômeno com os recentes casos de racismo no futebol – Arouca, juiz Márcio Chagas, etc – e com o recente caso da trabalhadora Claudia Ferreira da Silva brutalmente assassinada a tiros pela PM do Rio de Janeiro e depois arrastada por mais de 300m, numa imagem que remonta aos piores anos do Apartheid sul africano bem como ao nosso longo e famigerado período escravista. Este cenário nos exige a efetivação de medidas ainda mais estruturantes para o enfrentamento ao racismo e creio que passou da hora de envolvermos toda a sociedade num debate sobre a necessidade emergencial de outra política de segurança publica nas cidades, estados e país. Acrescentaria ao programa do PCdoB esta como mais uma das reformas estruturantes e democráticas – a Reforma da segurança Pública – pela qual a sociedade clama quando se revolta diante do fato acima citado ante a brutalidade com que a PM, mas não só ela, trata cotidianamente a população mais pobre, sobretudo negra e de periferia, mas também diante dos abusos cometidos em repressão a manifestações populares, outra ação histórica das forças de segurança.

O que você acha da juventude hoje? Rolezinhos, black blocs, anseios, anarquismo. Espelhamento nos tempos anteriores mas olhando para o futuro? Fiz essa mesma pergunta aos jovens aqui no blog.

O que estamos vendo agora, nas ruas, na mídia, no Governo e em todo o lugar nada mais é do que a chegada à cena publica de um segmento cuja demanda nunca foi completamente atendida pelo Estado, ou melhor só foi parcialmente atendida na ultima década a partir dos governos progressistas e democráticos de Lula e Dilma.

Começamos a primeira década do ano 2000 afirmando que estávamos – e estamos – vivendo o chamado “bônus demográfico”, ou seja, é o momento que contamos com a maior quantidade de jovens no conjunto da nossa população, somos cerca de 27% da população do pais. Frente a este fato demandamos ação organizada do Estado por meio de políticas públicas que viessem a considerar a juventude como sujeito estratégico no processo de desenvolvimento nacional. Com a eleição de Lula vimos um conjunto de nossas demandas começarem a ser atendidas com a expansão e interiorização das universidades públicas e escolas técnicas, as bolsas parciais e integrais do Prouni, o acesso e circulação da produção cultural juvenil com os pontos de cultura, o fortalecimento do acesso a práticas esportivas, a elevação da qualificação e formação profissional da juventude dentre outras medidas que impactaram positivamente na vida de milhões de jovens brasileiras/os. Mas tudo isso não foi suficiente, por isso a continuidade das lutas coletivas da juventude pela ampliação da presença do Estado na garantia de direitos básicos como saúde, educação e mobilidade urbana, assim como espaços culturais, esportivos e de lazer.

Observo com entusiasmo essa grande mobilização juvenil e também como oportunidade de disputarmos as suas consciências para um projeto de nação soberana, desenvolvida, democrática e justa, pois para nós comunistas a juventude sempre foi vanguarda, mola propulsora de importantes avanços e transformações em todo o mundo.

Mas as manifestações revelam também um sentimento crítico negador da política, ou ao menos dos partidos políticos…

Todas estas novas manifestações juvenis são legítimas e tiveram este imenso caldeirão cultural por base, é uma juventude que está querendo ser vista e ouvida na cena pública e que também está experimentando e buscando caminhos de se constituir enquanto sujeitos na sociedade. Não podemos negar entretanto, que também por serem sujeitos em formação, sofrem influências das mais variadas inclusive de segmentos/grupos que absolutizam a violência, de outros saudosos do nosso passado antidemocrático, dos que são “contra tudo e todos”, enfim trata-se de uma juventude em disputa que embora tenha mais acesso à informação é também uma geração com um elevado grau de desconhecimento do nosso processo de formação histórica e das lutas travados pelas bravas e bravos brasileiros para que hoje nós possamos estar nas ruas, nas redes e na rampa a conquistar os avanços econômicos, sociais e democráticos que vivemos.

Então, precisamos todos, de agora em diante, ter um olhar especial a este público considerando suas demandas e abrindo espaços para a sua participação. Não estamos lidando com o mesmo perfil de jovens de uma década, uma década e meia atrás. O perfil da juventude brasileira mudou bastante nestes anos de avanços econômicos, sociais e democráticos, forjou-se um sujeito que acredita nas ruas como palco da conquista de direitos, tem acesso a maior escolarização, a melhores bens de consumo, que produz e circula suas próprias informações, muito mais que receptor ele/ela é hoje também produtor de conteúdo e informação e aqui o acesso a novas tecnologias desempenha papel fundamental, enfim, é outro jovem assim como também é outro povo, no qual aquele modelo de povo desinformado, alheio à realidade, submisso, não se encaixa mais.

Os jovens hoje são muito meritocráticos – aquela de vencer pelo próprio esforço – mas ao mesmo tempo precisam e sabem que precisam igualdade de oportunidades. Como você vê esse embate?

A ideologia da meritocracia foi habilmente disseminada em todo a sociedade brasileira ao longo de muitos séculos, sem que houvesse competição com outros valores e outras cosmovisões, assim, a juventude e o povo acabaram por tomá-la como verdade absoluta.

Para superá-la precisamos fazer uma vigorosa disputa de valores na nossa sociedade, explorando os mais variados meios, inclusive as redes sociais, território de embates políticos e ideológicos. Mas acredito que nem tudo está perdido, pois há temas com os quais começamos a década perdendo o debate e hoje viramos o jogo, a exemplo do debate acerca das cotas raciais. Iniciamos os anos 2000 com várias contradições inclusive entre a esquerda e grande desconhecimento e preconceito entre a maioria da população, hoje contamos com vigoroso apoio popular a esta importante medida. Compramos o debate com a sociedade e vencemos, mesmo em condições desiguais.

Projetando o futuro, eu arriscaria dizer que num cenário de crise internacional do capitalismo aliado a um certo esgotamento do modelo de gestão deste ciclo político (baixa correlação de forças e falta de decisão política do partido majoritário na aliança na realização das reformas que acelerem nossas transformações) que cabe a nós comunistas a ousadia de traduzir o nosso programa partidário por um novo projeto nacional de desenvolvimento em bandeiras que possam ser assimiladas pelo conjunto do povo e forças progressistas, retirar o país deste debate rebaixado no nível econômico e propagandear o socialismo, como esta utopia e projeto de sociedade por meio do qual a juventude e o povo serão protagonistas, prioritários. Creio que ao darmos este passo importante contribuiremos para aproveitar essa vigorosa energia juvenil em reflexões e ações que impulsionem transformações profundas no nosso país.

Quais suas preferências intelectuais, musicais, de lazer? Qual o time do coração?

Em termos culturais sou muito eclética, curto desde a geração dos 1960’s e 1970’s até coisas mais atuais. Vou bem de Chico, Gil, Vandré, Paulinho da Viola, Milton e Djavan passando por Clube da Esquina e chegando até os Racionais MCs, Criolo e Emicida, Céu, Marisa Monte, sem esquecer dos baianos Lazzo, Margarete e o samba de muita gente boa de Martinho, Leci, Diogo Nogueira e outros.

Leitura, vou de tudo um pouco deste literatura brasileira e latino-americana, clássicos da política, história e sociologia muita coisa ligada ao trabalho que atualmente desenvolvo. Tenho lido mais poesia ultimamente, sobretudo Cadernos negros e autoras contemporâneas como Rita Santana e Cristiane Sobral, que adoro junto a Elisa Lucinda e Isabel Allende.

Futebol é uma graaaaaandeeee paixão! Sou São-paulina desde a infância, é o time da minha família, sou dessas que escala o time, briga com o técnico, vai a estádio, acompanha a tabela, tira sarro dos adversários, sofre e comemora junto com o time do coração. Durante onze anos ininterruptos cultivei um ritual de assistir o São Paulo FC todas as vezes que ele ia jogar na Bahia, o acompanhava desde a sua chegada no aeroporto, hotel, estádio e viagem de retorno.

Sou torcedora da seleção brasileira e tenho certeza que Governo e povo farão a #CopaDasCopas, a #CopaSemRacismo e que seremos #Hexa, Felipão nosso grande comandante no futebol não irá nos decepcionar!

Onde você imagina estar nos próximos cinco anos? Quanto à vida pessoal, profissional e política futura, o que a aguarda?

Posso estar em qualquer canto do Brasil e do mundo (risos)! Tenho mesmo essa disposição, entretanto pretendo para o próximo período combinar minha tarefa política com a retomada dos estudos acadêmicos, pretendo cursar um mestrado a partir de 2015. Além disso, imagino que serão anos definidores para os rumos do país, em que precisaremos colocar o debate ideológico, a luta de idéias no centro da nossa tática e assim trazer milhões de novos filiados ao PCdoB e ao campo progressista bem como consolidar as conquistas sociais e implementar muitas outras a exemplo das urgentes reformas politica e dos meios de comunicação.

Além disso, imagino que poderei continuar contribuindo firmemente com o desenvolvimento do Brasil em diversos tipos de tarefas tanto em âmbito institucional quanto dos movimentos sociais. Estou aberta a novos desafios!

 

Não nos encerremos em nós mesmos

Conversa.com com Rita Coitinho, uma socióloga comprometida com o socialismo e um projeto de nação. Vocês vão gostar. Colorada, Avaiana e Comunista, imaginem só. E tão bonita…

 

Rita Coitinho, doutoranda no Programa de Pós Graduação em Geografia na Universidade Federal de Santa Catarina

 

Bem, os leitores não a conhecem. Vamos começar pelo meio: como foi isso de você chegar ao PCdoB? Que tipo de militância teve antes e depois, em que atuou, etc.

Olá camarada, obrigada pelo convite, é uma honra participar com essa pequena entrevista no seu blog e achei muito simpática a ideia de chamar a militância do partido para “conversar” por meio desse espaço. Cada um e cada uma de nós tem uma história diferente que, de alguma maneira, nos trouxe para a luta e para o partido, vai ser bacana conhecer essas histórias por aqui.

Então vamos lá: estou no PCdoB há nove anos, antes disso tive outras histórias militantes. Comecei, como muitos e muitas jovens do nosso partido, no movimento estudantil secundarista. Eu estava na 8ª série e lá na minha escola, o Colégio de Aplicação da Universidade Federal de Santa Catarina, o pessoal do grêmio estudantil começou um agito por questões ligadas à carga horária da escola e eu me integrei àquela luta, isso foi em 1996. No ano seguinte eu participei de uma chapa para a nova gestão do grêmio (o GECA) e fiquei sendo a presidenta da entidade, dali até terminar o ensino médio. Eu não era ligada a nenhum partido, mas nos congressos da UFES (União Florianopolitana dos Estudantes Secundaristas) tive os primeiros contatos com o pessoal das várias correntes do movimento estudantil da época e como a minha escola ficava dentro do campus eu logo me integrei aos embates do movimento estudantil universitário. Era o governo FHC e o ministro Paulo Renato era o sujeito mais detestado por todos nós. Nossa luta era pela manutenção da gratuidade no ensino federal e pela qualidade, passamos por várias greves e eu participava dos comandos de greve estudantis.

Eu militava também muito junto ao pessoal do MST e da Consulta Popular. Participei ativamente da organização do Plebiscito Nacional sobre a Dívida Externa e também fui da coordenação estadual do Plebiscito Popular sobre a ALCA. Participei de algumas ações e fiz alguns cursos de formação com esse pessoal e até ajudei a organizar um, voltado para jovens do campo e da cidade.

Mas eu queria mesmo era ser comunista, devorava os clássicos do marxismo e quando entrei na universidade (estudei Ciências Sociais) eu acabei me integrando a um coletivo de comunistas que era o mais ativo (e barulhento) lá da UFSC. Na época o nome daquele grupo era Corrente Comunista Luiz Carlos Prestes (eles andaram mudando o nome e eu não tenho muita certeza de como se chama agora, então deixa assim), um coletivo que se organizou em torno da figura do Velho na época em que ele rompeu com o grupo do Freire. Teve um pessoal que reorganizou o PCB, mas o Prestes não quis participar disso. Aí formou-se esse pequeno grupo, que fala em reconstruir o partido comunista pela base. Fiquei organizada com eles por uns 5 anos, tendo sido do DCE da UFSC por 3 gestões e também secretária geral da União Catarinense dos Estudantes. É um coletivo pequeno, mas com eles aprendi várias coisas sobre valores dos comunistas, sobre o pensamento do Prestes, o que ele defendia para o Brasil e também sobre marxismo. E por estudar essas coisas todas, ao sair da universidade e virar trabalhadora, reparei que é preciso mais do que vontade e estudo para transformar o Brasil. Daí eu vim para o PCdoB.

Por que PCdoB?

Porque o PCdoB é o único partido de caráter de classe e com identidade comunista verdadeiramente enraizado em todo o território nacional; porque soube resistir à pressão ideológica posterior ao relatório Khruschov e, depois, à queda do muro de Berlim, mantendo-se firme em seus princípios e realizando uma leitura consistente da realidade brasileira e do momento histórico. Ser comunista é mais do que reafirmar princípios. É buscar os meios e a tática acertada de acordo com a realidade histórica. O partido soube fazer a leitura do momento histórico e acertou em apostar na eleição de Lula e Dilma, pois sabe que a transição para o socialismo em uma sociedade como a nossa será um processo longo, que exige transformações profundas e que não são tão rápidas como nós desejamos. As outras organizações “de esquerda” reafirmam muitos princípios, mas não são capazes de influenciar no movimento real, porque fazem uma leitura superficial e equivocada da realidade brasileira.

Você parece muito atraída pelo estudo. Isso lhe é muito característico?

Sim, eu considero que o estudo é uma tarefa militante. Cada camarada tem sua maneira de contribuir com o partido, mas todos nós devemos estudar para qualificar nossa intervenção na realidade. No meu caso específico, tenho a impressão de que pelas minhas características e inserção profissional eu tenho mais condições de contribuir estudando e difundindo, repartindo as coisas que vou aprendendo.

Você fez mestrado e doutorado? E qual foi e é o tema?

Fiz mestrado em Sociologia, na Universidade de Brasília, entre 2005 e 2007. Minha dissertação, na área Sociedade e Transformação, foi um estudo sobre as mudanças no perfil do assalariamento no Brasil e uma tentativa de criar um modelo explicativo do que seria a classe trabalhadora brasileira. Eu era muito jovem quando fiz esse estudo e hoje refuto a maior parte do que escrevi lá, em especial esse negócio de modelo. Mas fiz algumas descobertas e reflexões interessantes que ainda preciso transformar em artigo para socializar.

O doutorado eu ainda estou cursando, esperei alguns anos desde o término do mestrado para começar, pois meus filhos precisavam crescer um pouco. Sou doutoranda no Programa de Pós Graduação em Geografia na Universidade Federal de Santa Catarina. Meu orientador é um camarada do nosso partido e um grande intelectual marxista, eu espero poder aproveitar ao máximo esse tempo com ele. Minha pesquisa será sobre o processo de integração latinoamericana, mas ainda está muito no começo para poder falar sobre ela.

Como socióloga, como você vê esse enorme contingente beneficiado pela mobilidade social ascendente dos últimos dez anos? A chamada camada C…

Bom, primeiro eu preciso demarcar o campo: não aceito essa nomenclatura de classes baseada no alfabeto. Essa classificação, amparada no critério renda, não evidencia a posição dos grupos sociais na divisão do trabalho. E é a relação social que se estabelece o mais importante, embora sejamos todos muito sensíveis à renda.

Veja, eu posso ter um pequeno empresário e um servidor público com a mesma faixa de rendimentos. Posso ter uma vendedora de cachorro quente e uma operária com a mesma faixa de renda e assim por diante até o infinito. Podemos e devemos sim considerar e trabalhar com as faixas de renda em nossos estudos, mas é preciso que a análise considere sempre o critério da relação de trabalho e o discuta criticamente. Eu gosto muito do exemplo do alto executivo. A rigor o sujeito é assalariado… mas qual interesse de classe defende esse indivíduo? Por outro lado, o servidor público organizado em seu sindicato, está mais ou menos ligado à classe trabalhadora do que o pequeno empresário que sonha em ser um grande e rico burguês? É uma boa provocação, não?

Dito isso, vamos a essa questão da mobilidade social ascendente. É inegável que um grande contingente saiu de uma situação de pobreza extrema e desemprego (ou desalento) e passou a “participar” da sociedade, passou a consumir bens e serviços. Isso, por si só, para a luta pelo socialismo, é um fator extraordinário. Temos mais trabalhadoras e trabalhadores para conquistar para a luta, para organizar. Porque o sujeito que está em desalento, desesperado, não está disponível (há raras exceções, claro) para a luta política, está preocupado em não morrer de fome, seja por qual meio for. É o que o Marx chamava de lumpesinato, certo?

Reconhecida a conquista, é nosso dever problematizá-la. Quantos desse contingente se tornaram trabalhadores e trabalhadoras formais (com carteira assinada, férias e décimo terceiro salário)? Quantos e quantas desse contingente continuarão “ascendendo” socialmente? Porque se por um lado o Brasil, nos últimos 12 anos, retirou da pobreza esse enorme contingente, por outro lado os ricos estão ainda mais ricos. E o Brasil continua sendo um dos países mais desiguais do mundo.

Os jovens hoje são muito meritocráticos – aquela de vencer pelo próprio esforço – mas ao mesmo tempo precisam e sabem que precisam igualdade de oportunidades. Isso no mundo da academia e da ciência deve ser ainda mais marcante. Como você vê esse embate, como foi essa dialética para você?

Bom, sou fruto dessa geração “meritocrática”, que acho que tem coisas boas e coisas ruins. Por um lado acho importante – diria até que é um salto civilizacional – que as pessoas tenham que demonstrar conhecimento para galgar degraus ou adentrar a uma carreira. Por outro lado há questões que não estão bem resolvidas, é a sobrevivência daquilo que o Sérgio Buarque de Hollanda identificou como uma herança do patrimonialismo nas instituições (públicas e privadas) do Brasil.

Gosto da ideia do concurso, porque ali as oportunidades são distribuídas pelo mérito e não há a possibilidade da interferência da subjetividade, pelo menos não no processo seletivo.

O lado perverso da meritocracia é o que não considera que o “esforço” de cada um e cada uma não parte da mesma base. Uma coisa é o “mérito” para um jovem de classe média, que tem todas as condições e só precisa ser “esforçado” para poder virar juiz por concurso público. Outra coisa é o “mérito” para um jovem da periferia, que precisa trabalhar e estudar desde muito cedo, às vezes vive uma vida cercada por violências. Para funcionar o discurso do “mérito” é preciso que as pessoas partam das mesmas condições. E isso não existe no capitalismo.

Preconceitos de gênero pelo caminho?

No Brasil, sendo mulher, quem nunca passou por isso?

E que lhe parece a sociologia brasileira nestes tempos?

A sociologia brasileira, ressalvadas algumas honrosas exceções, abandonou os grandes temas. Eu tinha um professor de teoria antropológica que se referia ao departamento de sociologia e política como a “casa de Stuart Mill”. Poderia ser também a casa de Fukuyama, porque para a maioria a história chegou ao fim.

Os programas de pós graduação estão inundados de teses sobre “representações” de tal ou tal coisa e há uma verdadeira perseguição ao marxismo, que já começa quando o sujeito entra na graduação. Sabes que quando eu fazia mestrado eu escutei, diversas vezes, que era uma pena que eu fosse tão jovem e estivesse apegada a essas teorias ultrapassadas? Falavam do marxismo… Esse é um dos motivos pelos quais no doutorado eu “pulei” para a geografia humana – que também tem a ver com o meu objeto de pesquisa, é claro.

A política a mobiliza?

Claro! Não é suficiente interpretar o mundo, é preciso transformá-lo, não é?

Governo Dilma, sinceramente.

Eu vejo o governo Dilma como uma trincheira. Não é exatamente ali que a gente quer estar, gostaria de avançar, ganhar a guerra. Mas, nas condições atuais, é preciso ressalvar a trincheira, sob pena de o inimigo nos derrotar.

Então é isso: tivemos imensos avanços sociais nos dois primeiros mandatos do Lula, resistimos às crises internacionais, criamos milhares de empregos, expandimos o acesso ao ensino superior, contribuímos amplamente para a construção de um mundo mais multipolar e garantimos avanços importantes na integração do nosso continente, além de termos sido peça fundamental no enfraquecimento da influência do imperialismo na nossa região.

No governo Dilma, devido às imensas dificuldades que temos (já tínhamos, só se aprofundou o problema) no Congresso Nacional, somos reféns das chantagens da base aliada, sem a qual o governo não se sustenta. Então vivemos essa encruzilhada. É preciso avançar, mas com essa base não vamos longe. Mas não podemos prescindir dela.

A saída que eu vejo para os próximos 4 anos de governo Dilma (vamos vencer essa eleição!), é a organização do povo, o Brasil não pode mais continuar refém dessa maioria do Congresso – veja o caso do Marco Civil. Essa gente que é contra o Marco Civil faz política de traição nacional! E somos obrigados a suportá-los… Mas seria diferente se tivéssemos milhões nas ruas, sob as bandeiras do avanço, das mudanças. O nosso partido tem papel central nisso.

E fale de si, como pessoa. Paixão ou razão, galo ou cruzeiro, intelecto ou intuição? Ou de tudo um pouco? O que melhor a caracteriza, digamos assim, como pessoa?

Eu sou colorada, avaiana e comunista.

Onde você crê estar daqui a cinco anos?

Boa pergunta!

E quanto à vida pessoal, profissional e política futura, o que a aguarda?

Bom, eu tenho um filho, então criá-lo bem, acompanhar seus estudos e sua vida é minha prioridade. Em meio a isso quero fazer uma boa tese de doutorado e contribuir como puder com o partido, quero deixar um mundo melhor para os mus filhos. Para mim qualquer tarefa é tarefa. Gosto de estar no partido e com o partido, porque no coletivo não nos encerramos em nós mesmos, como diz o verso do Neruda. E porque lutar é a única coisa que faz nossa curta vida valer a pena.

Grande Rita Coitinho, muito obrigado, o pessoal vai adorar conhecê-la. Sucesso!