12 livros para entender a relação entre marxismo e a questão racial (por Silvio Luiz de Almeida)

Silvio Luiz de Almeida indica 12 livros fundamentais para entender a relação entre marxismo e a questão racial, tema do dossiê coordenado por ele na nova revista da Boitempo, a Margem Esquerda Continue lendo

A literatura brasileira muito além do futebol e do samba

Brasil é uma ilha cultural cuja literatura transcende seus estereótipos

Seus escritores e escritoras têm o desafio de refletir a imensa diversidade do país em suas páginas

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ANTONIO JIMÉNEZ BARCA* 

Em meados de julho, todo ano, a linda cidade de Paraty, no estado do Rio de Janeiro, abriga o festival literário mais importante do Brasil. Os casarões de mais de 300 anos da época do comércio do ouro e as ruas de traçado colonial, calçadas de pedras quase assassinas para os tornozelos dos transeuntes, se transformam em uma espécie de radiografia não de todo infiel do panorama do livro brasileiro. É o melhor lugar para tentar descobrir para onde vai a literatura brasileira —se é que vai para algum lugar. Também para saber se os romances e ensaios de hoje ou de depois de amanhã refletem ou refletirão o convulso e depressivo estado que atravessa o país: às portas dos Jogos Olímpicos, com uma presidenta, Dilma Rousseff, afastada de seu cargo por um processo ainda em andamento de impeachment e semi-exilada em seu próprio palácio residencial, e outro presidente em exercício, Michel Temer, à espera de tomar as rédeas do poder de forma definitiva em um mês. Quando a história entra pela porta, a literatura se joga pela janela?

Rodrigo Lacerda (Rio de Janeiro, 1969), editor, historiador e escritor, é um dos romancistas que passeiam por Paraty. É autor, entre outros, de um romance celebrado, Outra vida, no qual relata o desmoronamento de um casamento enquanto espera um ônibus que vai levá-los para fora de São Paulo. Lacerda afirma que o chacoalhada político e social do Brasil “é muito recente para que já apareça nos romances”. Mas acrescenta: “Apesar disso, hoje há um interesse pelos tempos da ditadura, e isso sim se pode aproximar do tema da crise que estamos vivendo, como se se sobrepusessem”. E acrescenta: “Nesta nova queda de autoestima que agora estamos sofrendo, os dois temas se unem na sensação de que estivemos perto de chegar lá, mas que o chão voltou a se abrir e caímos de novo no inferno. O trem passou. Temos que esperar outro. Não tem jeito”.

A enfermeira Bruna Siqueira lê um livro no Aterro do Flamengo, no Rio. LEONARDO WEN

A enfermeira Bruna Siqueira lê um livro no Aterro do Flamengo, no Rio./LEONARDO WEN

O escritor acrescenta então outra característica da atual literatura brasileira: “Há alguns anos, uma especialista elaborou um censo dos personagens de ficção e 90% eram homens, universitários, que moravam em grandes cidades (Rio de Janeiro e mais ainda São Paulo) e que tinham problemas típicos dessa classe social. Ou seja: escrevemos sobre nós mesmos”.

Isso é especialmente cruel em um país tão diverso social, racial, geográfica e até climaticamente como o Brasil: uma geografia cruzada de mundos e até de épocas diferentes que se justapõe e se retroalimenta em um território mágico. A vida de um professor da Universidade de São Paulo não tem absolutamente nada a ver com a de um trabalhador sem terra do estado do Maranhão, nem a deste com a de um índio de um dos mil rios amazônicos ou com a de um boiadeiro do Sul ou do Oeste do país.

Luiz Ruffato, de 55 anos, escritor e articulista na imprensa, autor, entre outros, de Eles eram muito cavalos, um romance experimental que descreve, em capítulos curtos e eletrizantes, a vida na interminável São Paulo, tem uma explicação triste: “A ficção atual brasileira reflete os problemas, a vida e as preocupações da classe social que teve acesso aos estudos no Brasil. Cada um escreve sobre sua aldeia, sua cidade, seu entorno, e com isso tenta ser universal. Mas no Brasil, no entanto, não há escritores vindos de outro mundo além do nosso e isso diz muito sobre a desigualdade que impera do país”.

O estudante Victor Caplin lê um livro nas pedras do Arpoador, na praia de Ipanema (Rio). LEONARDO WEN

O estudante Victor Caplin lê um livro nas pedras do Arpoador, na praia de Ipanema (Rio)./LEONARDO WEN

Alguma coisa se move, no entanto, em algumas favelas do Rio ou de São Paulo. Incipiente ainda, carente segundo alguns de autêntico fôlego literário, um grupo de escritores nascidos e criados ali começam a publicar e a viajar por aí mostrando sua obra. Um de seus expoentes é Reginaldo Ferreira da Silva, Ferrez, de 40 anos, morador do bairro periférico do Capão Redondo, em São Paulo. Seu último livro é o volume explosivo e combativo de contos Os ricos também morrem, no qual narra as histórias de seus vizinhos. Em uma entrevista a este jornal, explicou: “É um livro pensado para ser comentado na rua, para que riam quando comentam. Eu não tenho mais nada além das pessoas lendo minhas histórias e comentando comigo, rindo quando conto para elas. Não são histórias reais, mas o tom e o modo de falar são. São daqui”.

A música como modelo

90% dos personagens de romances são homens, urbanos e universitários, algo cruel em um país tão diverso e  desigual socialmente

Há também um elemento que pode intimidar os escritores brasileiros na hora de abordar um tema mais amplo que o de sua própria vida e o dos que rodeiam o escritor: a realidade brasileira costuma com frequência derrotar qualquer um que a enfrente a partir da ficção. Em O dono do morro, um livro sobre a vida do narcotraficante Nem da Rocinha, o jornalista britânico Misha Glenny conta a história, entre outras incríveis, de Chico-Bala, o macaco mascote do líder que passeava vestido de caubói e acabou sequestrado pela polít A estudante universitária Jessica Rabelo lê um livro na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Leonardo Wen

A estudante universitária Jessica Rabelo lê um livro na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro./LEONARDO WEN

Já a blogueira e escritora Julia Wähmann, de 35 anos, cita a votação do impeachment na Câmara como exemplo de algo inimaginável para um escritor de ficção. “A abordagem de conceber em um romance a votação do Congresso que afastou Dilma Rousseff do poder, com os políticos votando pela mãe, pela esposa, pela tia… não ia passar pela cabeça de ninguém”, explica. “Em meu primeiro livro escrevi uma história muito pouco brasileira, centrada na dança contemporânea. Mas, por outro lado, também é a história de uma brasileira que viaja.”

O escritor e professor de literatura Flávio Carneiro, de 54 anos, concorda com essa desvantagem diante da realidade extraordinária de todos os dias no Brasil, mas alerta para o reducionismo: “Desde os anos 80, há muitas literaturas brasileiras, incluindo uma literatura de entretenimento, herdeira de Machado de Assis, do folhetim, que eu defendo”. Carneiro é autor de uma série de romances policiais que se passam no Rio de Janeiro. “Até há alguns anos, no Brasil, o escritor Ruben Fonseca, autor de romances policiais, era considerado subliteratura. Agora é um clássico”, acrescenta.

Imagens da seção de literatura brasileira da Libreria Cultura. LEONARDO WEN

                              Imagens da seção de literatura brasileira da Libreria Cultura./LEONARDO WEN

Carneiro tem razão. É perigoso tentar reduzir a literatura de um país-continente, onde se produzem muitas novelas urbanas paulistas como as de Ruffato, mas que também produz joias estranhas como A queda do céu, escrito pelo antropólogo francês Bruce Albert sobre o que lhe contou seu amigo de anos, o xamã da tribo indígena yanomami Davi Kopenawa, um texto citado por algum escritor como um volume imprescindível para compreender a realidade brasileira.

No que todos os escritores concordam é com a pouca repercussão internacional da literatura brasileira. O primeiro prêmio Nobel em língua portuguesa (e único até agora) é do escritor português José Saramago. Não houve nenhum brasileiro. As traduções dos romances brasileiros são raras e difíceis de encontrar na Espanha, Estados Unidos ou França. Ou, pelo menos, muito mais difíceis de encontrar do que as de seus contemporâneos hispano-americanos. Todos têm consciência de que vivem em uma ilha linguística enorme, mas uma ilha, afinal. E todos criticam a bastante escassa e contraditória promoção cultural dos sucessivos governos brasileiros. Há quem aponte também, como a escritora Noemi Jaffe, que muitas vezes as editoras estrangeiras buscam um conjunto de estereótipos (futebol, samba, favela…) dos quais muitos escritores justamente tentam escapar.


Livros, leitores e analfabetos

-Habitantes do Brasil: 205 milhões.
-Índice de analfabetismo: o Brasil é o oitavo país do mundo com mais analfabetos (cerca de 14 milhões, segundo dados da Unesco de 2014). 38% dos analfabetos latino-americanos são brasileiros.
Número de títulos editados: 60.829 em 2014 e 52.427 em 2015 (uma redução de 13,81%).
Tiragem média: 4.500 cópias para uma tiragem média inicial a nível nacional.
Porcentagem de traduções de línguas estrangeiras: 4.781 títulos traduzidos; 47.646 nacionais (9,11% do total em 2015).
 -Número de editoras: Mais de 750 segundo o último estudo da Câmara Brasileira do Livro.
Número de livrarias: 3.095, uma por cada 64.954 habitantes em 2014 (a Unesco recomenda 1 pela cada 10.000). 55% estão no Sudeste, 19% no Sul, 16% no Nordeste, 6% no Centro-Oeste e 4% no Norte.
Número de bibliotecas públicas: 6.949 espalhadas nos 26 Estados e no Distrito Federal.
Títulos mais vendidos em 2015: ­Ficção: Cinquenta Tons de Cinza , de E. L. James (174.796 cópias). Não ficção: Jardim secreto, de Johanna Basford (719.626 cópias).

Todos esses autores olham com uma ponta de inveja para a proteção universal da música brasileira, essa contínua fonte popular de ritmo e harmonia que a cada geração vê brotar um ou vários gênios. Ricardo de Carvalho, o Chacal, velho poeta que ia à agora bela cidade de Paraty nos tempos em que por lá não havia “senão cachorros vagabundos e bêbados no porto”, recorda que boa parte da cultura brasileira, a que vem dos índios que estavam ali e a dos negros que chegaram nos navios de escravos “é uma cultura eminentemente oral, focada na música”. “Houve um funcionário português encarregado de civilizar os indígenas brasileiros dos primeiros tempos que escreveu que a metrópole teria de fazê-lo com a música, porque sem ela não conseguiria nada. ‘Sem tam-tam não dá’, dizia.”

Plano Municipal do Livro, Leitura, Literatura e Biblioteca em SP

Menino e Passarinho

A cidade de São Paulo está elaborando o seu Plano Municipal do Livro, Leitura, Literatura e Biblioteca (PMLLLB) para promover o acesso de todos, e o Fórum Mudar São Paulo participa desse Grupo de Trabalho (GT) e apresenta algumas propostas para debate. Acho a iniciativa de alto significado civilizatório para Sampa, e recomendo a leitura e participação.

Por uma política do livro e do incentivo à leitura para o município de São Paulo

Porque acreditamos:

  1. na possibilidade real democratização efetiva do livro e da leitura;
  1. na possibilidade de tornar o livro e a leitura parte da vida cotidiana dos moradores, crianças, jovens e adulto, de todos os bairros da capital, particularmente os mais carentes;
  1. no impacto positivo do livro e da leitura na vida dos cidadãos;
  1. que a disseminação de bibliotecas públicas vivas e dinâmicas e de livrarias de rua nas periferias eleva a qualidade de vida dos bairros e de seus cidadãos;
  1. que cabe ao poder público propiciar condições para que os bairros de nossas periferias superem a condição de bairros-dormitório e se convertam em centros de vivência coletiva com real qualidade de vida;
  1. que um povo que lê mais tem melhores condições de contribuir para com a solução dos problemas coletivos;
  1. que é necessária uma política pública municipal do livro e da leitura claramente definida, com metas estabelecidas para curto, médio, longo e longuíssimo prazos, que envolva as várias Secretarias do governo municipal;

Lutamos para que os bairros em que moram e vivem os trabalhadores, suas famílias e filhos, se tornem locais de cultura. O vazio cultural de nossas periferias, tratadas, inclusive pelo poder público, como bairros-dormitórios, ofende a quem produz a riqueza de nossa cidade. Mais livros, mais bibliotecas vivas e dinâmicas, mais livrarias de rua em nossas periferias, para que nossos jovens, e crianças e cidadãos em geral tenham, no local em que vivem, oferecidas as condições de realização de seus potencias.

Listamos a seguir um rol de ideias:

Ideias para a elaboração de uma política do livro para a cidade de São Paulo

Poder Público

  1. Articular programas das Secretarias de Educação e de Cultura relacionados ao livro e à leitura, de maneira a maximizar os recursos públicos e a ampliar o impacto desses programas que, compartilhados, terão seu alcance ampliado significativamente.
  1. Desenvolver, articulando Secretarias de Educação e de Cultura, programa de pesquisa e escolar em e frequentação de Bibliotecas Públicas Municipais, de maneira a  incentivar crianças e jovens a incorporar a visita à biblioteca pública a suas vidas cotidianas e de maneira a tornar a Biblioteca Pública Municipal referência cultural prestigiada no bairro.
  1. Dar transparência aos processos de aquisição de livros e de concursos a eles relacionados na esfera das duas Secretarias, democratizando esse processo a partir do diálogo com setores envolvidos e da publicidade inequívoca de editais e de resultados.
  1. Criar comissão ou órgão intersecretarial de modo a definir metas, estratégias, programas e projetos relacionados ao livro e à leitura para toda a cidade, de modo a articular as ações das diversas Secretarias no esforço de democratizar o acesso ao livro e de elevar os índices de leitura do paulistano.
  1. Definir claramente o uso de bibliotecas dos CEUs, de maneira a integrá-las efetivamente no processo pedagógico e à vida da comunidade.
  1. Melhorar as instalações, o acervo e os equipamentos, inclusive multimidiáticos, das bibliotecas dos CEUS e das Bibliotecas Pública Municipais.
  1. Estabelecer programas de vinculação biblioteca-comunidade que não se baseie apenas em eventos periódicos, mas em cotidiano de ativação da comunidade, de modo a formar uma comunidade-leitora perene.
  1. Reestruturar salas de leitura escolares convertidas em sala de aula, o que limita e mesmo impossibilita a pesquisa dos estudantes.
  1. Sem prejuízo para as salas de leitura e incorporando-as, instalar bibliotecas nas escolas públicas do município. Sala de leitura é sala de leitura, biblioteca é biblioteca. Uma escola com biblioteca viva, ativa, dinâmica agrega um valor incomensurável às escolas, com repercussão na autoestima de estudantes e professores. Escola só com sala de leitura convertida em sala de aula e sem biblioteca emite péssima mensagem para a os estudantes e para a comunidade em que a escola está inserida (se nem a escola tem biblioteca, por que a casa do estudante deveria acomodar uma estante de livros?).
  1. Promover eventos escolares relacionados ao livro tais como festivais, prêmios, maratonas de leitura, articulados com o processo de ensino-aprendizagem e com a comunidade.
  1. Articular ações de escolas municipais (esfera da Secretaria da Educação) com bibliotecas municipais próximas (esfera da Secretaria da Cultura).
  1. Ampliar rede de bibliotecas municipais: Instalação de bibliotecas municipais em áreas de parques e clubes desportivos da cidade; em conjuntos habitacionais de responsabilidade da prefeitura; em áreas de subprefeituras e em terrenos ociosos da prefeitura municipal.
  1. Contratação por concurso de bibliotecários e funcionários em número suficiente para as atuais bibliotecas e para aquelas a serem instaladas na cidade ou reinstauradas nas unidades escolares.
  1. Desenvolver programa de formação permanente dos funcionários de Bibliotecas Públicas Municipais e escolares, de maneira a torná-los aptos a atrair a comunidade, interagir solidariamente com ela e a criar e desenvolver com ela estratégias, ações, programas e projetos que elevem a frequentação das bibliotecas, o índice de leitura dos cidadãos, e a presença do livro e da leitura cotidiana nos domicílios.
  1. Melhorar o acervo das bibliotecas públicas, de maneira a atrair não apenas público escolar e infantil, mas também jovens e adultos interessados em obras de não-ficção e das diversas áreas da produção simbólica, entre as quais as ciências, as artes e a filosofia.
  1. Estimular o surgimento de bibliotecas comunitárias, desenvolvendo programa específico para esse fim, particularmente em áreas carentes ou deficitárias em infraestrutura urbana em que parcerias podem se estabelecidas com entidades que já desenvolvam ações locais ou que estejam interessadas em desenvolvê-las.
  1. Redefinir o projeto dos ônibus-biblioteca, frequentemente subutilizado e de maneira burocrática.
  1. Desenvolver programa de leitores domiciliares que atenda a idosos e a pessoas impendidas, por razões particulares entre as quais de saúde, de se deslocar de suas residências ou do local em que se encontrem acolhidas ou hospedadas.
  1. Criar programa regular de presença de escritores, poetas, ilustradores de obras, quadrinhistas, críticos, pesquisadores, educadores, filósofos, sociólogos etc.  para atividades com o público das  Bibliotecas Públicas Municipais de bairros, com ampla articulação com a comunidade, de maneira a fazer repercutir planejadamente e ao longo do tempo em escolas e domicílios os impactos dessa presença.

Produção e Mercado

  1. Incentivar empresas de desenvolvimento de alta tecnologia a produzir softwares que impliquem no barateamento do livro, impresso ou digital, e na sua mais ampla circulação.
  1. Estimular a indústria do livro, que envolve uma cadeia produtiva eminentemente limpa, com ênfase às pequenas e médias editoras e gráficas, de modo a ampliar o mercado de trabalho nesse setor em São Paulo.
  1. Incentivar a instalação regionalizada de empresas relacionadas ao livro, de maneira a promover o desenvolvimento mais equilibrado e desconcentrado da cidade, e de maneira a criar postos de trabalho próximos ao local de moradia dos trabalhadores, o que implica em melhor mobilidade urbana e em elevação da qualidade de vida de seus cidadãos.
  1. Estimular e apoiar iniciativas de formação de novos autores, ilustradores e profissionais técnicos do livro, de nível médio e superior, e de colocação no mercado de trabalho, seja no âmbito da produção editorial, seja no âmbito da produção gráfica.
  1. Estimular o surgimento de empresas e apoiar empresas de pequeno e médio porte da cadeia produtiva do livro, de maneira a contribuir para a redução do acentuado grau de monopólio do setor.
  1. Envolver a Secretaria Municipal de Desenvolvimento no esforço de promover a cadeia do livro, seja estimulando a instalação regionalizada de empresas de produção do livro (médias e pequenas editoras e gráficas), seja na proliferação de livrarias de rua em centros regionais e vias de grande circulação de bairros.
  1. Estimular e facilitar a instalação e proliferação de livrarias de rua, principalmente em centros regionais da cidade e em vias movimentadas de bairros. A ausência dessa modalidade de livraria condena a cidade a índices baixíssimos de livraria por habitante. Como se sabe, a dificuldade de acesso implica também em baixo índice de leitura. Uma maior área de venda de livros na cidade, além de democratizar o acesso, aumenta a escala de comercialização e contribui para a redução do preço do livro. Hoje, São Paulo é um deserto de livrarias de rua, o que afasta o cidadão de menor renda do livro e condena pequenas, médias e até mesmo grandes editoras a uma situação extremamente difícil, pois as mega-stores de shopping centers estabelecem condições draconianas para a comercialização do livro em suas dependências.
  1. Cessão de pequenas áreas em parques, clubes desportivos da cidade, centros culturais e casas de cultura para instalação de stands de livrarias, de maneira a despertar interesse e atender o público já frequentador desses espaços e a atrair para eles um público diferente, mais afeito à leitura e aos produtos culturais da cadeia do livro.
  1. Articular e estabelecer como parte do calendário cultural e turístico da cidade 5 feiras regionalizadas anuais de livros, respectivamente nas zonas Norte, Sul, Leste, Oeste e Centro, em datas não coincidentes, de maneira a reforçar o surgimento e consolidação de polos regionais de desenvolvimento.
  1. Estimular a produção de obras sobre temas (tais como imigração e migração, cultura caipira, ocupação do solo, qualidade de vida urbana etc.) e personalidades do mundo científico, cultural, social e comunitário que marcam a identidade da cidade, para composição de acervo público, a fim de estimular a pesquisa e a consciência dos cidadãos acerca da cidade em que vivem.

Fonte: Blog Mudar São Paulo — http://mudarsaopaulo.blogspot.com.br/

Lúcia Klück Stumpf e a Batalha do Avaí

Batalha do Avai - Quadro de 50 metros quadrados é um dos registros iconográficos mais importantes da história do Brasil e retrata a Guerra do Paraguai. Foi pintado entre 1872 e 1877 pelo paraibano Pedro Américo

Batalha do Avai – Quadro de 50 metros quadrados é um dos registros iconográficos mais importantes da história do Brasil e retrata a Guerra do Paraguai. Foi pintado entre 1872 e 1877 pelo paraibano Pedro Américo

Com muita alegria, a companheira Lúcia Stumpf, ex-presidenta da UNE, ativa cientista-pesquisadora, me brindou esta notícia: “Aquele livro do qual sou co-autora, sobre a tela Batalha do Avaí, foi premiado como melhor livro de Ciências Sociais e História 2014 pela Academia Brasileira de Letras. Dia 17/7 será a cerimônia de premiação na ABL.”
O livro trata da célebre pintura de Pedro Américo e é maravilhoso, seja no sentido da pesquisa, seja no formato editorial. A premiação é amplamente merecida.
Pinturas históricas quase sempre provocam discussões por seu conteúdo narrativo ou ideológico. No caso da monumental tela A Batalha do Avaí, do paraibano Pedro Américo (1843-1905), no acervo do Museu Nacional de Belas Artes, foram ambos os motivos que causaram reações negativas de quem encomendou a obra ou figurou no centro dela – respectivamente, o imperador Pedro II e o Duque de Caxias. Pintada em Florença entre os anos 1874 e 1877 a tela, do tamanho de um kitchenette (50 metros quadrados), é analisada pela historiadora Lilia Moritz Schwarcz e dois de seus orientandos (Lúcia Klück Stumpf e Carlos Lima Junior) no luxuoso livro A Batalha do Avaí, da Sextante Artes, que, para surpresa até da autora, chega à segunda edição um mês após seu lançamento.
Capa do Livro A Batalha do Avai, (Sextante Artes, 174 páginas, 150 reais) escrito pela historiadora Lilia Schwarcz em parceria com os pós-graduandos Lúcia Klück Stumpf e Carlos Lima Júnior

Capa do Livro A Batalha do Avai, (Sextante Artes, 174 páginas, 150 reais) escrito pela historiadora Lilia Schwarcz em parceria com os pós-graduandos Lúcia Klück Stumpf e Carlos Lima Júnior

O subtítulo do livro – A Beleza da Barbárie – destaca na capa a ambiguidade desse quadro histórico que deveria celebrar a Dezembrada, fase final da guerra da Tríplice Aliança (Brasil, Argentina e Uruguai) contra o Paraguai, em dezembro de 1868. O acadêmico Pedro Américo, que o imperador mandara estudar na Europa com uma bolsa, tenta agradar seu mecenas homônimo, à beira do ocaso, enaltecendo a grande guerra que consumiu todos os recursos do tesouro entre 1864 e 1870. De um lado, soldados fardados defendendo a “civilização”. De outro, os “bárbaros” paraguaios, retratados quase despidos, descalços e com patuás ao redor do pescoço. Redução a estereótipo era com Pedro Américo mesmo, pintor que, aliás, estudou Ciências Sociais na Sorbonne.

Porém, mesmo financiado pelo Império, ele não deixou de ouvir ecos da campanha contra a Coroa que fortaleceu o Exército e conduziu o Brasil à República dos militares. Vale lembrar que o pintor, na própria Batalha do Avaí, pinta a si mesmo como um soldado com expressão de horror e uma cabeça ao lado esquerdo do quadro em tudo semelhante à decepada de Tiradentes Esquartejado, tela realizada em 1893, quatro anos depois da proclamação da República. Um vira-casaca? Lilia Schwarcz compara Pedro Américo ao neoclássico Jacques-Louis David (1748-1825), que apoiou a Revolução Francesa, pintou seus líderes e depois se bandeou para o time do vitorioso Napoleão.

Parabéns aos autores – Lilia Schwarcz à frente, e o forte abraço à Lúcia, pelo merecido destaque. Ela vai longe!

 

Fonte: http://divirta-se.uai.com.br/