Marxismo e Questão Nacional: uma visão latino-americana (por Ronaldo Carmona)

O artigo a seguir argumenta, inicialmente, sobre a crise da globalização e a crescente afirmação de saídas nacionais no contexto da crise do capitalismo. Aponta, como o mal estar, especialmente dos trabalhadores, com a globalização vai resultando em consequências políticas de vulto na conjuntura atual. A seguir, pontua visões presentes nos fundadores do marxismo – o próprio Marx e Lenin –, a respeito da valorização das singularidades nacionais no curso da luta revolucionária. Argumenta que as experiências exitosas de construção do socialismo tem a questão nacional em seu vértice. Por fim, resgata o cerne da polêmica do peruano Mariategui com a direção sul-americana da III Internacional; observa traços da experiência dos comunistas no Brasil e pontua tendências históricas e hodiernas da revolução cubana, que exemplificam traços da manifestação da questão nacional na tradição marxista latino-americana.

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12 livros para entender a relação entre marxismo e a questão racial (por Silvio Luiz de Almeida)

Silvio Luiz de Almeida indica 12 livros fundamentais para entender a relação entre marxismo e a questão racial, tema do dossiê coordenado por ele na nova revista da Boitempo, a Margem Esquerda Continue lendo

Marxismo: A constituição do proletariado em classe no Manifesto do Partido Comunista (por Armando Boito Jr.)

Neste artigo, publicado originalmente na revista Crítica Marxista, o professor Armando Boito busca resgatar a concepção dos fundadores do socialismo científico sobre a formação do proletariado enquanto classe. Um caminho que exige, segundo o autor, o rompimento com visões economicistas e deterministas da história. Escreve ele: “O processo de constituição do proletariado em classe é apresentado no Manifesto como um processo irregular, cumulativo mas reversível e, também, marcado por rupturas e saltos de qualidade. É apresentado, também, como um processo bifronte. Continue lendo

Julia Lemos: O marxismo

Foto Júlia “A propriedade privada tornou-nos tão estúpidos e parciais que um objeto só é    nosso quando o temos, quando existe para nós como capital ou quando por nós é  diretamente possuído, comido, bebido, transportado no corpo, habitado etc., ou  melhor, quando é utilizado. […] A supressão da propriedade privada constitui, desse  modo, a emancipação total de todos os sentidos e qualidades humanas. Mas só é  esta emancipação porque os referidos sentidos e propriedades se tornaram  humanos, tanto do ponto de vista subjetivo como objetivo. (…)  A mais bela música  nada significa para o ouvido completamente não musical […] O sentido encarcerado  sob a grosseira necessidade prática possui unicamente um significado limitado”. K.  Marx.

 Prometi aos leitores falar um pouco de Júlia Lemos e sua Tese de Doutorado.  Eis aí, por ela mesma:

Tive a sorte de ter pais que me ensinaram a ser gauche na vida: formaram minha  compreensão de existência num sentido humanitário, são uma cotidiana  inspiração à luta por um mundo melhor e me apresentaram o pensamento de Marx. Devo ao meu pai, Euler Ivo, em particular, o amor aos estudos. Ele sempre exaltou, nas palavras de Castro Alves, “o livro – esse audaz guerreiro que conquista o mundo inteiro sem nunca ter Waterloo… Eólo de pensamentos, que abrira a gruta dos ventos, donde a igualdade voou”. E devo à minha mãe Isaura, em particular, o estímulo a seguir os meus sonhos, sem deixar de ser humanista e mulher combativa.

No decorrer da minha trilha de gauche na vida, o que me instigou a mergulhar numa pesquisa sobre Marx foi uma espécie de contradição que identifiquei na imputação de economicismo ou redução do político justamente naquele que primeiro balizou sua teoria dentro de uma prática e posicionamento propriamente políticos, que mais instigou polarizações políticas e que inspirou as revoluções ditas proletárias.  Num primeiro momento, durante meu trabalho de mestrado intitulado “A dinâmica dos fatores estruturais em Marx: uma crítica às interpretações reducionistas econômicas”, busquei demonstrar um não economicismo indicando as articulações entre os fatores dados pelo próprio Marx “maduro” como participantes da infraestrutura econômica. Tentei localizar a articulação que ele atribuiu entre superestrutura com a infraestrutura num ponto nodal simultaneamente político e econômico: a autonomização da propriedade privada. Num segundo momento, lendo as primeiras obras de Marx, percebi que tal articulação seria melhor compreendida caso fosse investigada não só suas obras de maturidade, mas sobretudo em suas obras de juventude. Tal foi o meu empreendimento na pesquisa para o doutorado.

Na verdade, na própria diferenciação entre um Marx jovem e maduro – sugeridas primeiramente por Althusser, mas validadas, mesmo que em diferentes sentidos, por outros leitores de Marx – encontra-se a problemática do lócus do político em Marx. Se os primeiros vôos solo do filósofo podem ser considerados as obras de rompimento com Hegel, seu maior inspirador teórico, é notável que se tratam de obras que realizam críticas emergidas de discordâncias com conclusões políticas de Hegel. É neste sentido que considerei que a chave para uma primeira compreensão do político em Marx passava pela investigação da análise dele sobre o estabelecimento do Estado moderno e a perspectiva de uma dicotomia público/privado.  Se fosse mesmo verdade que o Marx das obras de maturidade é redutor do político ao econômico, em contraposição às suas obras de juventude, eu queria investigar como essa realocação do político se deu. Mas, o que me parecia, é que a problemática de abordagens presentes nas ditas obras de maturidade remetiam ao problema do político em suas obras de juventude. Assim, considerei que compreender o lócus do político em Marx passava, portanto, pela investigação de seu percurso teórico mais amplo, incluindo a averiguação das complexas influências de Hegel durante esse percurso, especialmente no que tange à passagem do Marx republicano ao Marx comunista.

Já em uma primeira leitura das ditas obras de juventude, achei possível verificar que uma compreensão dos textos considerados numa lógica dialética possibilitaria repensar muito do lócus do político até então analisado em Marx. No sentido da lógica dialética hegeliana, a crítica de Marx à cisão Estado/ sociedade civil poderia ser avaliada como uma crítica no sentido não propriamente da cisão em si, mas do seu caráter contraditório, de ser concomitantemente não cisão. Nesta abordagem, a crítica de Marx seria com fins não à negação simples  da cisão entre interesse público e interesse privado, mas à sua subsunção. Se entendermos que para Marx negar a cisão público/privado implica na subsunção positiva desta distinção, podemos ler que o intuito de Marx na negação da razão pública como mero Estado político não implica em uma negação da política, mas numa compreensão de integração de interesse público e privado em que não faz sentido falar de economicismo ou de negação da democracia, mas mais exatamente na realização de um projeto em termos rousseaunianos, no qual a identidade entre interesse público e privada se estabelece não como sacrifício e sim como realização efetiva da liberdade. A crítica dos contemporâneos a Marx como inspirador de um Uno autoritário, ou de um colamento impositivo entre público e privado deixaria de fazer sentido nos termos de uma leitura de Marx na dialética lógica, visto que se trata não de negar a cisão público/privado no sentido simples, da lógica clássica.

O título da minha Tese de Doutorado é “Caminhos da Liberdade no Jovem Marx – da emancipação política à emancipação social”. Nela, empreendi uma análise da gênese do projeto emancipatório marxiano a fim desenvolver os vínculos entre o Marx republicano e o comunista e indicar uma imagem dele diferente da imagem que prevaleceu após a derrocada do socialismo real, a qual supõe uma incompatibilidade entre marxismo e democracia. Como metodologia, optei pela análise dos seus escritos em sequência biográfica, num deliberado esforço de demonstrar que o seu percurso de defesa do republicanismo à defesa do comunismo está completamente imbricado com a pragmática das lutas políticas na Alemanha e na Europa, e que as suas variações seguem uma mesma linha condutora central: a busca de realização da liberdade humana na ultrapassagem da alienação teórica e prática. O que defendi, em linhas gerais, é que o projeto marxiano de desalienação dos homens em relação à racionalidade de suas relações sociais costura o seu projeto de luta pela revolução política em prol do sufrágio universal e o seu projeto de revolução social em prol da emancipação do homem do trabalho alienado.

Na passagem do Marx republicano ao Marx comunista, manteve-se como pano de fundo uma busca da realização dos homens como sujeitos determinantes da racionalidade social, pano de fundo que implementa não um rompimento radical em relação à filosofia Hegel e sim numa tentativa de subsunção deste. Deste modo, Marx teria sugerido o comunismo não como uma negação inexorável da democracia política, mas como uma subsunção possível da democracia abstrata numa democracia real, da liberdade abstrata numa liberdade real, em termos de um Aufhebung hegeliano, ainda que numa dialética objetiva. Marx buscou desenvolver uma racionalidade desalienada, seja na revolução política que ultrapassaria a monarquia constitucional pelo sufrágio universal, seja na revolução social que  ultrapassaria a alienação dos homens no
trabalho e na propriedade privada.

Lembramos que em Hegel a liberdade só se realiza numa desalienação absoluta da razão e que a razão como liberdade é aquela que integra os seus momentos anteriores num “voo de águia” que se sobrepõe sobre os momentos alienados e abraça a contradição ao mesmo tempo em que nega que as racionalidades parciais sejam efetiva liberdade. A costura da transição entre o Marx republicano e o Marx comunista só pôde ser compreendida levando em conta o seu envolvimento com Hegel, mas enquanto em Hegel a razão é Geist, é espírito que se dá a si e se torna consciente mediado pelo homem, sendo o homem assim mera mediação no percurso de autoconsciência da ideia em si, em Marx os homens é que são sujeitos e trata-se de uma realização da liberdade humana. Deste modo, a realização da liberdade em Marx refere-se à mais completa desalienação dos homens de qualquer esfera encerrada e atomizada em si mesma, opondo-se à redução do homem ao formalismo do Estado, ao economicismo do trabalho, ao idealismo da filosofia. O movimento de Marx é de superação da redução da liberdade a qualquer uma dessas categorias encerradas em si mesmas, de modo a afirmar o humanismo numa integração da liberdade da razão e da liberdade do fazer e sugerir o comunismo como um movimento concreto que supera os diversos modos através dos quais até então se produz e se reproduz uma autonomização das relações sociais dos homens a qual os submete ao lugar de objetos. Em Marx, o movimento em que o humanismo se desvencilha de sua redução a um humanismo meramente formal pela categoria do Estado é o mesmo que desvencilha o homem da redução do ser ao ter, do utilitarismo fundado no domínio da propriedade privada.

A compreensão de uma hierarquia nas formas de alienação não o levara a mudar de horizonte, mas a redefinir o caminho de desalienação da razão pública que até então era compreendido como mera emancipação política. A alienação política é identificada por Marx numa alienação dos homens no trabalho na medida em que percebe que: a ordem política e social se apresenta como um mundo já dado aos indivíduos não simplesmente pelo fato de não haver democracia, mas pelo fato de as relações sociais como um todo terem surgido como um tecido social destacado dos agentes e que isso ocorreu a partir da generalização do trabalho alienado no bojo do processo de desenvolvimento da divisão do trabalho. A transformação de todos os homens em sujeitos de direitos iguais, ao se dar num mesmo movimento de desenvolvimento do trabalho assalariado, é também o surgimento das relações sociais numa forma autonomizada, a qual surge aos homens como poder alheio e estranho. Neste contexto, o aparato da forma política é uma unidade de poder alienada da exploração econômica e que, justamente por isso, garante tal exploração. O Estado é a forma política que surge fechada em seu formalismo no mesmo momento em que as relações sociais de produção e reprodução do trabalho alienado surgem automizadas em relação aos homens. Marx identifica que a alienação da razão pública no monarca ou nos proprietários privados não pode ser resolvida com uma mera democracia política, na medida em que o poder do capital, e o poder do dinheiro sobre a política, não é meramente formal e sim fundado nas concretas relações de trabalho, no modo como os homens produzem e reproduzem a vida. Mas, ao identificar que a alienação política não se desfaz com mera democracia política, a essência do projeto – tornar os homens sujeitos efetivos de suas relações sociais – permanece. O fato de a reversão mais efetiva da alienação ter sido localizada no fato de os homens se alienarem no trabalho e produzirem assim um sistema de poder da propriedade privada não indica um rompimento com o projeto de fazer dos homens sujeitos da ordem pública numa forma democrática, mas antes indica apenas a chave essencial para tanto. A revogação da propriedade privada surgiu para Marx como condição essencial para a realização efetiva da liberdade dos homens justamente porque ela se revelou como obstáculo nodal da determinação da racionalidade pública pelo público concreto, da autodeterminação do povo pelo povo. Apenas subsumindo o domínio da propriedade privada, subsumindo a redução dos homens a mero produtores econômicos, subssumindo a redução do amplo ser ao mero utilitarismo do ter é que se subssume o poder dos proprietários privados sobre a razão pública, de modo que o pedido da democracia – constituir instituições públicas que representem legitimamente e verdadeiramente o interesse do povo – possa ser realizado.

Destacamos que, com a indicação de um fundamento mais essencial da alienação dos homens na alienação do trabalho, Marx em nenhum momento deixa de dar o desenvolvimento do Estado como modo essencial de desalienação dos homens. Isso fica evidente não só no fato de atribuir um utopismo aos socialistas que buscam ultrapassar a opressão social sem tomar o Estado, como ainda no fato de indicar em vários momentos que a alienação da forma política não é mero predicado da autonomização das relações sociais dada no mundo da produção, mas é agente indispensável para que tais relações se reproduzam sobre os homens como um poder estranho e opressor. Assim, é nos termos de uma dialética embebecida de Hegel que é possível compreender o que Marx quer dizer com “dissolver o Estado político”. Antes de ser a negação da democracia, da autodeterminação do povo pelo povo, tal expressão é usada como negação da separação das instituições públicas das determinações do povo. Não se trata, assim, da negação da participação do povo na determinação da forma política e nem da existência institucional da política, mas justamente da dissolução da categoria política fechada em si mesma. Dado que a constituição liberal do Estado mais livre teria sido, simultaneamente, a constituição da mais completa alienação do homem da política, é pelo fato de buscar a ordem pública como mais amplamente determinada pelos homens que Marx busca dissolver essa absoluta autonomia da forma pública em relação ao público efetivo.  Daí porque ele Marx fala em negação do político ao mesmo tempo em que fala em desenvolvimento do político: dissolver o político é nega-lo de sua forma alienada e tornar a vida pública interesse efetivo dos homens, de modo a dissolver a separação entre vida civil e vida política.

Marx não indica que o comunismo como o destino natural dos homens, mas como a única forma de liberdade dos homens a partir do capitalismo. O comunismo seria um humanismo a partir do inumanismo dado. Não há uma linha de desenvolvimento de uma essência humana que naturalmente se desenvolve até culminar no comunismo. Nesse sentido, a história desenvolvida é simultaneamente aberta e fechada: não existe um a priori sustentando a sequência de determinações, mas, a partir de uma determinada realidade, ainda que várias outras realidades sejam possíveis, apenas uma reversão específica engendra uma realidade de maior liberdade. E a partir da realidade dada, estando a autonomização das relações sociais fundadas no capitalismo pela alienação do trabalho, a reversão da alienação dos homens no capitalismo só pode se realizar pelo movimento que busca subsumir positivamente a propriedade privada. Na contramão de um comunismo grosseiro, Marx adverte: subsumir positivamente a propriedade privada se trata não de uma negação unilateral da propriedade privada, mas do desenvolvimento de um modo de vida no qual a produção de vida humana não seja reduzida à mera produção de riqueza material, de uma produção de vida humana que se realize como produção de riqueza de sentidos. O verdadeiro humanismo e, portanto, a verdadeira liberdade, é a vida dos homens não encerrada nos limites das suas diversas categorias (produção econômica em si, forma política em si, desenvolvimento das ideias em si) e
sim uma vida plural, não encerrada na sobreposição atomizada de nenhum de seus momentos. Para Marx, a riqueza de sentidos de vida é que forja de fato uma liberdade humanista, uma distinção da vida humana em relação à vida animal.

Por fim, destaco um trecho de Marx no qual considero que ele explicita mais claramente o significado do que entende como emancipação humana pela supressão positiva da propriedade privada

“A propriedade privada tornou-nos tão estúpidos e parciais que um objeto só é nosso quando o temos, quando existe para nós como capital ou quando por nós é diretamente possuído, comido, bebido, transportado no corpo, habitado etc., ou melhor, quando é utilizado. […] A supressão da propriedade privada constitui, desse modo, a emancipação total de todos os sentidos e qualidades humanas. Mas só é esta emancipação porque os referidos sentidos e propriedades se tornaram humanos, tanto do ponto de vista subjetivo como objetivo. (…)  A mais bela música nada significa para o ouvido completamente não musical […] O sentido encarcerado sob a grosseira necessidade prática possui unicamente um significado limitado”.

Karl Marx, Manuscritos Econômico-Filosóficos, 1844.

Julia Lemos.

 

Caminhos da liberdade no jovem Marx: Da emancipação política à emancipação social

KARL MARXRetomei contato com Júlia Lemos, estimada amiga, mais recentemente. Na verdade, a conheci criança, filha de uma incrível família comunista hoje em Goiás. A irmã é vereadora na capital do estado; a mãe, deputada; outra irmã é Maíra, notável cantora. Todas belas… e feras no que se propuseram a fazer.

Foto Júlia

Júlia está completando este mês a defesa de doutorado. Foi incrível o desafio a que ela se propôs: retomar o jovem Marx em ligação com o Marx maduro, mostrando a linha de continuidade entre o seu republicanismo democrático e seu revolucionarismo classista, ou seja, comunista, continuidade não isenta de tensões e giros.

Nessa linha de pesquisa derraparam muitas esperanças da esquerda marxista ao longo dos últimos 90 anos (desde a MEGA e a publicação da obra do “jovem Marx”). Lembro-me do quanto isso me atormentou ao longo da década de 70 e 80… sobretudo para me haver com Althusser. De fato, é tema espinhoso e de notória importância para a luta de ideias atual.

Parabenizo Júlia. Pelo que li da introdução e conclusões, ela faz uma abordagem profunda, concisa quanto ao foco e corajosa porque frontal. Parece que ela retomou a diretiva de Lukács, que reclamava para o tema uma vigorosa monografia exaustiva, após ele próprio ter dado o passo inicial e tendo se proposto a um silêncio obsequioso perante a crítica de que foi vítima – no caso a palavra é real e a mais indicada.

De fato, minha formação é a de quem considera o positivismo um cancro no marxismo “oficial”. Malgrado suas realizações, no embate de ideias e político com o liberalismo – e com a doutrina social da Igreja, a terceira grande corrente do tempo – deixou a desejar devido a essa limitação, numa incompreensão da relação entre ciência e filosofia, uma visão reducionista do materialismo dialético, o decaimento no mecanicismo determinista. Não por acaso, uma categoria central nas reflexões de Júlia seja aufhebung, categoria profundamente dialética que indica subsunções, ou seja, incorporação e subordinação de categorias em múltiplas determinações, alcançando níveis superiores de totalidade.

Disse a Júlia que Gramsci, entre outros, me ajudou a compreender dialeticamente tais limitações pela esfera da teoria política marxista. Sua obra teria muito a dizer sobre o tema do republicanismo em confronto com o liberalismo numa perspectiva revolucionária e classista. Mas sei quanto é difícil abrir leques numa tese dessa proporção.

Enfrentar tal questão é parte do embate pela superação da crise do marxismo, ou seja, demonstrar a coerência interna da evolução do pensamento de Marx. Porque só assim se poderá travar a luta hegemônica com o liberalismo. Nisso, a tese de Júlia é profundamente comprometida. É nisso que ela se concentra.

Vocês logo mais poderão conhecer a tese. Um resumo livre meu vai pelo caminho de postar este “retrato” em preto e branco da Introdução do trabalho e indicar que suas conclusões navegam por mares promissores, com linhas de desenvolvimento do tema, mas inferem uma imagem de Marx e da obra marxiana diferente da que predominou nos discursos políticos jornalísticos que exaltam a democracia liberal após a derrocada da URSS e do campo socialista.

Diz ela:

“o projeto de emancipação humana em Marx fundou-se numa oposição à razão pública como razão pública meramente formal, numa oposição ao Estado como razão pública apartada, alienada, estranhada e sobreposta à vontade do povo. Apenas subsumindo o domínio da propriedade privada, subsumindo o poder social da posse material e subsumindo o poder do dinheiro sobre a política, é que o pedido da democracia – constituir instituições públicas que representem legitimamente e verdadeiramente o interesse do povo – poderia ser realizado.

É também em termos de uma dialética que é possível compreender o que Marx quer dizer com “dissolver o Estado político”. Antes de ser a negação da autodeterminação do povo pelo povo, tal expressão é usada como negação da separação de tais instituições públicas das determinações do povo. Não se trata, assim, da negação da participação do povo na determinação da forma política e nem da existência institucional da política, mas justamente da dissolução da categoria política fechada em si mesma, dado que passou a compreender que tal fechamento é antes uma alienação dos homens em relação à política que uma realidade na qual os homens são sujeitos efetivos da política. O comunismo, portanto, não é o destino natural dos homens, mas é a única forma de liberdade dos homens a partir do capitalismo. O comunismo é indicado na Ideologia Alemã como um humanismo a partir do inumanismo dado. Não há uma linha de desenvolvimento de uma essência humana que naturalmente se desenvolve até culminar no comunismo. Nesse sentido, a história desenvolvida na IA é simultaneamente aberta e fechada: uma determinação é sempre e apenas a reversão de uma outra determinação, mas não existe um a priori sustentando a sequência de determinações. E, a partir de uma determinada realidade, ainda que várias outras realidades sejam possíveis, apenas uma reversão específica engendra uma realidade de maior liberdade. Em outras palavras:

[…] o comunismo não é para nós um estado (Zustand) que deve ser implantado, um ideal ao qual a realidade [haverá] de se sujeitar. Nós chamamos de comunismo o movimento real que suspende e supera (aufhebung) o estado de coisas atual. As condições deste movimento se depreendem da premissa atualmente vigente. (MARX; ENGELS, 2007b, p. 59, grifo do autor).”

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Gente jovem com esse ímpeto só pode alegrar aqueles que lutam pelo conhecimento crítico como arma da luta de ideias pela transformação do mundo. Pedi a ela esta pequena apresentação-entrevista, contando sua trajetória e motivação sobre o tema. Ela seguirá na próxima postagem deste Blog.