Leonard Cohen: música, sobriedade e discrição. Por Tatiana Dias

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Poeta e compositor canadense morreu na segunda-feira (7) aos 82 anos

O compositor e poeta canadense Leonard Cohen morreu na segunda-feira (7) em Montreal, onde vivia, aos 82 anos. A notícia foi divulgada quatro dias depois, na página oficial do músico no Facebook. A causa da morte não foi revelada.

Autor de clássicos como “Halleluhaj” e “Suzanne”, Cohen foi um dos expoentes da cena folk da década de 1960, ao lado de Bob Dylan e Joni Mitchell. Mas seu legado foi muito além disso. Seu trabalho influenciou gerações de músicos e compositores.

Nos meses que antecederam sua morte, Cohen já vinha tratando publicamente do assunto. Em entrevista à revista “New Yorker” em outubro ele afirmou:

“Eu estou pronto para morrer. Eu espero que não seja muito desconfortável. Para mim, é isso.”

Leonard Cohen

Em entrevista à New Yorker, em outubro

Seu último disco, “You want it darker”, foi lançado em outubro. Cohen já estava de cama quando o material foi gravado, com a saúde bastante debilitada. O trabalho é considerado por muitos um anúncio de sua morte:

 

A vida de Leonard Cohen

Leonard Cohen nasceu em setembro de 1934 na cidade de Westmout, em Quebec, no Canadá. Sua família é judia. Aprendeu violão e tocava em uma banda folk na adolescência. Começou a escrever poesia influenciado pelo espanhol Frederico Garcia Lorca. No início da vida adulta, mudou-se para a ilha Idra, na Grécia, e, de lá, publicou três livros de poesias.

“Beautiful Losers”, de 1966, é seu livro mais famoso. Na época, sobre a obra, o poeta beat Allen Ginsberg declarou: “Bob Dylan explodiu a cabeça de todo mundo. Exceto a de Leonard”, comparando os dois maiores influenciadores daquela geração.

Em 1966, Cohen foi à Nova York conhecer a cena folk que se estruturava na cidade. Aos 32 anos, começou a dar seus primeiros passos como compositor: sua música “Suzanne” foi gravada pela cantora Judy Collins.

Se aproximou do artista Andy Warhol, dos músicos do Velvet Underground e, mais especificamente, da vocalista Nico, apontada como musa inspiradora de seu álbum de estreia, “Songs of Leonard Cohen”, de 1967.

Ao longo de sua carreira, Cohen lançou 14 discos – um número relativamente pequeno, se comparado a outros astros com cinco décadas de carreira.

As mulheres de sua vida e a espiritualidade foram marcantes em sua obra. Suas canções mais conhecidas se popularizaram nas vozes de outros artistas – Johnny Cash, Joe Cocker e Jeff Buckley, por exemplo, que fez da música “Hallelujah” um hit na década de 1990.

“As músicas não dignificam a atividade humana. A atividade humana dignifica as músicas”

Leonard Cohen

Em entrevista em 1992

Ao longo de sua vida, o músico manteve uma postura sóbria e discreta. Nunca foi um artista popular ou com apelo comercial, mas influenciou músicos e compositores.

Em 1995, ele se converteu ao budismo e se aposentou da música. Permaneceu recluso até 2004, quando descobriu que uma ex-empresária havia roubado grande parte de sua fortuna. Com mais de 70 anos, retomou sua carreira, com várias turnês mundiais e quatro discos de estúdio.

O amor e a espiritualidade

Em sua obra, Cohen transitou entre dois temas principais – o amor e a religião. “Halellujah”, sua música mais conhecida, tem várias referências bíblicas, como a história de Sansão e Dalila. “Suzanne” foi inspirada em uma paixão platônica, mas também fala de Jesus. Seu último disco foi classificado pelo jornal cristão “The Christian Today”  como o “melhor álbum cristão feito por um não-cristão”.

“Eu acho todas as histórias da Bíblia bonitas, da Criação ao Apocalipse”, declarou o músico. Em uma entrevista recente, ele afirmou que o panorama bíblico é familiar a ele – além disso, são referências universais, compreensíveis para todas as pessoas.

Mas Cohen não reivindicava o status de músico religioso – pelo contrário. “Eu não tenho nenhuma estratégia espiritual”, ele declarou, comparando-se a qualquer pessoa que tateia em busca de um significado. Para eles, suas músicas transcendiam a maneira como se imagina Deus e a teologia. “É realmente sobre amor e afirmar a existência do amor.”

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As mulheres da vida de Cohen foram marcantes em sua obra. Uma de suas melhores canções, “So long, Marianne”, de seu primeiro disco, foi inspirada por Marianne, companheira do músico que morreu em 2015. Ela também inspirou outra grande canção, “Bird on the wire”, de 1969.

“Chelsea Hotel #2”, de 1974, descreve uma noite intensa de amor com a cantora Janis Joplin (que realmente aconteceu). Em “I’m your man”, de 1988, Cohen tenta convencer a amada a ficar com ele, com versos como “se você quiser um amante/eu farei tudo que você me pedir”.

O que dizem da sua obra

O primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, publicou um comunicado sobre a morte do compositor. Para Trudeau, Cohen “conseguiu atingir o mais alto grau de realização artística” tanto quanto poeta quanto como cantor e compositor.

“Ele será sempre lembrado por seu vocal áspero, seu humor auto-depreciativo e pelas letras assombrosas que fizeram de suas músicas as favoritas de muitas gerações”

Justin Trudeau

Primeiro-ministro do Canadá

Muitos músicos e compositores contemporâneos declararam luto e admiração pela obra de Cohen. O compositor Nick Cave o classificou como o “o maior compositor de todos”. A morte foi repercutida por artistas de todas as matizes da música pop – Justin Timberlake, Alanis Morissette, Lilly Allen e o rapper Q-tip.

A escritora J.K. Rowling, autora de Harry Potter, lembrou um trecho da música “Anthem”, lançada por Cohen em 1992:

“Existe uma fenda em tudo. É assim que a luz entra”

“Anthem”, do disco “The future”, de 1982

Bob Dylan – O Nobel da literatura #1

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Bob Dylan – Things Have Changed

A worried man with a worried mind
No one in front of me and nothing behind
There’s a woman on my lap and she’s drinking champagne
Got white skin, got assassin’s eyes
I’m looking up into the sapphire tempered skies
I’m well dressed, waiting on the last train
Standin’ on the gallows with my head in the noose
Any minute now I’m expectin’ all hell to break loose

People are crazy and times are strange
I’m locked in tight, I’m out of range
I used to care but – things have changed

This place ain’t doin’ me any good
I’m in the wrong town, I should’ve been in Hollywood
Just for a second there I thought I saw something move
Gonna take dancin’ lessons, do the jitterbug rag
Ain’t no shortcuts, gonna dress in drag
Only a fool in here would think he got anythin’ to prove
Lotta water under the bridge, lotta other stuff too
Don’t get up gentlemen, I’m only passing through

People are crazy and times are strange
I’m locked in tight, I’m out of range
I used to care but – things have changed

I’ve been walkin’ forty miles of bad road
If the Bible is right the world will explode
I’m tryin’ to get as far away from myself as I can

Some things are too hot to touch
The human mind can only stand so much
You can’t win with a losing hand
Feel like falling in love with the first woman I meet
Puttin’ her in a wheelbarrow and wheelin’ her down the street

People are crazy and times are strange
I’m locked in tight, I’m out of range
I used to care but – things have changed

I hurt easy, I just don’t show it
You can hurt someone and not even know it
The next sixty seconds could be like an eternity
Gonna get lowdown, gonna fly high

All the truth in the world adds up to one big lie
I’m in love with a woman that don’t even appeal to me
Mr. Jinx and miss Lucy they jumped in a lake
I’m not that eager to make a mistake

People are crazy and times are strange
I’m locked in tight, I’m out of range
I used to care but – things have changed

 

Os Tempos Estão Mudando
Ninguém em minha frente e nada atrás
Há um mulher em meu colo e ela está bebendo champagne
Tem pele branca, tem olhos de assassinos
Eu estou olhando para céus cor de safira
Estou bem vestido, esperando o último trem
Estou na forca com minha cabeça na corda
A qualquer minuto estou esperando “as portas do inferno se abrirem”

As pessoas estão loucas e os tempos estão estranhos
Estou bem fechado, estou fora de alcance
Eu costumava me importar, mas – as coisas mudaram

Este lugar não está me ajudando em nada
Estou na cidade errada, eu deveria estar em Hollywood
Por um segundo lá pensei ter visto alguma coisa se mexer
Vou fazer aulas de dança e aprender o jitterbug
Não há atalhos, vou me vestir como dragqueen
Só um tolo pensaria que tem algo a provar
Muita água debaixo da ponte, e muitas outras coisas também
Não se levantem cavalheiros, só estou de passagem

As pessoas estão loucas e os tempos estão estranhos
Estou bem fechado, estou fora de alcance
Eu costumava me importar, mas – as coisas mudaram

Estive andando em 40 milhas de uma estrada ruim
Se a bíblia estiver certa, o mundo vai explodir
Tenho tentado me distanciar de mim mesmo ao máximo
Algumas coisas são quentes demais para se tocar
A mente humana só consegue suportar até um limite
Não se pode ganhar com uma mão (de cartas) ruim
Sinto vontade de me apaixonar pela primeira mulher que eu encontrar
Colocá-la em um carrinho de mão e empurrá-la rua abaixo

As pessoas estão loucas e os tempos estão estranhos
Estou bem fechado, estou fora de alcance
Eu costumava me importar, mas – as coisas mudaram

Me machuco fácil, apenas não mostro
Você pode machucar alguém e nem saber
Os próximos 60 segundos podem ser como uma eternidade
Vou descer bem baixo, vou voar alto
Toda verdade no mundo se soma a uma grande mentira
Estou apaixonado por uma mulher que nem acho atraente
Sr. Jinx e Sra. Lucy, se jogaram num lago
Não estou tão ávido de cometer um erro

As pessoas estão loucas e os tempos estão estranhos
Estou bem fechado, estou fora de alcance
Eu costumava me importar, mas – as coisas mudaram

O legado de Woodstock continua vivo, via Carta Maior

Há 47 anos ocorreu o festival que acabou por ficar na História como um marco para todos aqueles que quiseram mudar o mundo.

reprodução

A música foi a arma que revestiu o lema deste icônico evento. Uma utopia que, no entanto, deixou raízes e rasgou os horizontes daqueles que no presente não desistem de lutar por um futuro diferente.

“Paz e Amor”, eis o lema de Woodstock e que naqueles dias marcados pela instabilidade do tempo que alternou entre a chuva e o sol, levou até à propriedade de Max B. Yasgur 500 mil pessoas, na sua maioria jovens, sedentos de música, cansados do consumismo e do individualismo que acabavam por ser um espartilho à liberdade de todos os que não se reviam nos alicerces de uma sociedade onde o espaço para a generosidade e a partilha era cada vez menor.

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