A luta e a arte de mulheres palestinas (por Júlia Dolce e Victor Labaki)

Conheça os projetos culturais e sociais coordenados por palestinas na Cisjordânia ocupada

No Ocidente, o estereótipo de mulheres árabes, principalmente as muçulmanas, quase sempre está atrelado a submissão e passividade. A noção de superioridade das nações ocidentais se fundamenta muitas vezes em uma suposta ideia de que vivemos em uma sociedade mais avançada em relação aos direitos e à igualdade social. Continue lendo

Bashar-Al-Assad, presidente da Siria

Bashar El Assad, entrevista à AFP

Recomendo a leitura de importante entrevista realizada com o presidente Bashar El-Assad, da Síria, pela Agência France Press. Foi reportada por Global Research, em 21 de janeiro. Como nada foi noticiado na mídia brasileira, a reporto aqui aos leitores porque expressa o outro lado das questões tormentosas que se verificam naquele país, sob as injeções das potências mundiais. O endereço é: http://redecastorphoto.blogspot.com.br/

Segue a íntegra da entrevista, feita por Sammy Ketz da AFP, traduzida da versão em inglês pelo pessoal da Vila Vudu.

Bashar-Al-Assad, presidente da Siria

Bashar-Al-Assad, presidente da Siria

AFP: Sr. Presidente, o que o senhor espera da Conferência Genebra-2?

Presidente Assad: O elemento mais básico, ao qual nos referimos continuamente, é que a Conferência de Genebra produza resultados claros no que diz respeito à luta contra o terrorismo na Síria. Em particular, é preciso pressionar os países que estão exportando terrorismo – enviando terroristas, dinheiro e armas a organizações terroristas –, especialmente Arábia Saudita e Turquia. E, claro, os países ocidentais que fornecem cobertura política para essas organizações terroristas. Esta é a decisão mais importante ou o mais importante resultado que a Conferência de Genebra poderia produzir. Qualquer solução política que seja alcançada e não preveja o combate contra o terrorismo, não terá valor algum. Não pode haver qualquer ação política, enquanto o terrorismo estiver em todos os lugares, não só na Síria, mas em países vizinhos também. Do lado político, Genebra-2 pode contribuir para construir um processo de diálogo entre os sírios. Tem que haver um processo sírio dentro Síria. E Genebra poderia apoiar isso. De nada servirá, se tentar pôr-se como substituto desse processo.

AFP: Depois de quase três anos de guerra devastadora e do grande desafio de reconstrução do país, é provável que o senhor não venha a ser candidato à presidência?

Presidente Assad: Isso depende de duas coisas. Depende de aspirações pessoais, de uma decisão pessoal minha, por um lado; e depende também da opinião pública síria, por outro. Pessoalmente, penso nisso e não vejo motivo algum pelo qual não devesse pensar. E vale o mesmo para a opinião pública síria. Mas ainda temos quatro meses antes do início do processo eleitoral. Se nesse momento houver sinal de desejo público a favor de minha candidatura, eu, pessoalmente, não hesitarei nem por um momento em concorrer à eleição. Pode-se dizer, em resumo, que há chances significativas de eu me candidatar à eleição.

AFP: Nestes últimos anos, o senhor alguma vez pensou sobre perder a batalha? Já pensou em um cenário alternativo para o senhor e sua família?

Presidente Assad: Em qualquer batalha, sempre se pode ou ganhar ou perder. Mas quando você luta para defender seu país, é óbvio que a única opção é vencer. Se a Síria perder esta batalha, significará que o terrorismo se disseminará, que o caos se disseminará, para todo o Oriente Médio. Esta batalha não está confinada à Síria. Não é, como a propaganda ocidental a pinta, uma revolta popular contra um regime que reprime seu povo, uma revolução que estaria clamando por democracia e liberdade. Agora, muita gente já está vendo que essas mentiras são o que são, mentiras. Nenhuma revolução popular duraria três anos para, no final, fracassar. E tampouco alguma revolução nacional poderia seguir agenda estrangeira.

Se o senhor está perguntando por cenários que eu tenha considerado, sim, naturalmente, há vários cenários possíveis, 1º, 2º, 3º… 10º, mas todos estão focados em defender a Síria, não em fugir da luta. Fugir não é opção a considerar nestas circunstâncias. Estou e tenho de permanecer na vanguarda dos que defendem a Síria. Tem sido assim, desde o primeiro dia.

AFP: O senhor acredita que esteja vencendo essa guerra?

Presidente Assad: Essa guerra não é minha, para que eu a ganhe. É guerra nossa, dos sírios. Acho que esta guerra tem, por assim dizer, duas fases. A primeira fase, que tomou a forma de projetos elaborados no início, visou a derrubar o estado sírio em questão de semanas ou meses. Agora, três anos depois, podemos dizer com segurança que esse projeto fracassou. Nesse sentido, o povo venceu. Havia países que não queriam só derrubar o estado: também queriam dividir o país em vários “miniestados”. Esse projeto também falhou; consequentemente, é mais uma a vitória para o povo sírio. Agora estamos noutra fase da batalha, que é a luta contra o terrorismo, que nós estamos vivendo diariamente. Como o senhor sabe, esta fase ainda não acabou. Assim sendo, não posso falar sobre ter ganhado, antes de eliminar os terroristas. O que podemos dizer é que estamos progredindo e avançando. Isso não significa que a vitória esteja próxima. Esse tipo de guerra é complicado, difícil e exige tempo, muito tempo. Mas, como eu disse, e repito, estamos avançando. Mas ainda não vencemos o terrorismo.

AFP: De volta a Genebra-2, o senhor apoia uma decisão da conferência no sentido de todos os combatentes estrangeiros deixarem a Síria, incluindo o Hezbollah?

Presidente Assad: É evidente que o trabalho de defender a Síria é responsabilidade do povo sírio, das instituições da Síria e em particular do exército sírio. Assim, não há razão para que combatentes não sírios envolverem-se aqui; e, aqui, antes, nunca houve estrangeiros atacando civis. O Hezbollah não se inclui nessa lista, não ataca civis e está exclusivamente na fronteira sírio-libanesa. Quando se fala de combatentes estrangeiros que tenham de sair da Síria, a decisão teria de vir como parte de um pacote maior, que incluiria que todos os grupos armados – inclusive sírios – entregassem suas armas ao estado sírio. Assim, consequentemente, se poderia pensar em estabilidade. Mas, sem isso, eu não diria que nosso objetivo é que todos os combatentes não sírios deixem a Síria. O enfoque não é esse.

AFP: Além da troca de prisioneiros e um cessar-fogo em Aleppo, que iniciativas o senhor disposto a apresentar em Genebra-2?

Presidente Assad: A iniciativa síria já foi apresentada há exatamente um ano, em janeiro do ano passado. É uma iniciativa completa, que abrange tanto os aspectos políticos e de segurança como outras dimensões que levariam a estabilidade. Todos esses detalhes fazem parte da iniciativa que a Síria já apresentou há um ano. Mas qualquer iniciativa, seja essa ou qualquer outra, tem de ser o resultado de um diálogo entre os sírios. A essência de tudo o que seja proposto, seja a própria crise, o combate ao terrorismo ou alguma futura visão política e um sistema político para a Síria, é que tem de ser aprovado pelos sírios. Nossa iniciativa foi baseada em um processo para facilitar esse diálogo. Não foi processo que visasse a manifestar o ponto de vista do governo. Sempre foi nossa opinião que qualquer iniciativa tem de ser coletiva e produzida por todos os atores políticos na Síria e pelo povo sírio em geral.

AFP: A oposição que vai participar em Genebra-2 está dividida em muitas facções em confronto em campo e muitos dizem que não representam ninguém. Se não se chegar a um acordo, o que acontecerá em campo?

Presidente Assad: Esta é a mesma pergunta que nós também estamos fazendo, como governo: quando eu negociar, com quem estarei negociando? Não se espera que haja muitos lados em Genebra-2. Ainda nem se sabe quem irá, mas haverá vários partidos, inclusive o governo sírio. É claro para todos que alguns dos grupos que talvez estejam presentes à conferência sequer existiam há pouco tempo. Na verdade, são grupos que foram criados durante a crise, por agências de inteligência estrangeiras, no Qatar, na Arábia Saudita, na França, nos EUA ou em outros países. Então, quando nos sentamos com esses grupos, na verdade estamos negociando com esses países. Então… Que lógica há em a França ser parte a ser ouvida para solucionar o conflito sírio? Ou o Qatar, ou os EUA, ou a Arábia Saudita ou a Turquia? Não faz sentido.

O que se vê é que, quando negociamos com esses partidos, estamos na verdade a negociar com os países que estão por trás deles, os mesmos que apóiam o terrorismo na Síria. Há outras forças de oposição na Síria que têm uma agenda nacional – e que são as partes com as quais faz sentido negociarmos.

Sobre a questão de uma visão para o futuro da Síria, estamos abertos para estes partidos sírios interessados em participar no governo do estado sírio, no governo e em outras instituições. Mas, como já disse antes: tudo o que for acordado com qualquer partido, seja em Genebra ou na Síria, tem de ser aprovado pelos próprios sírios, mediante um referendo.

AFP: Neste contexto, os acordos de cessar-fogo iniciados em Moadimiya e Barzeh podem ser alternativa a Genebra-2?

Presidente Assad: A verdade é que essas iniciativas podem ser até mais importantes que Genebra, porque a maioria dos terroristas que agem em solo não têm nenhuma agenda política. Alguns deles tornaram-se ladrões armados profissionais, e outros, como você sabe, são organizações takfiri que lutam por um emirado islâmico extremista e coisas desse tipo. Genebra não significa coisa alguma, para esses grupos. Por esta razão, a ação direta e os modelos que foram alcançados em Moadamiyeh, em Barzeh e em outros lugares na Síria têm-se provado muito eficazes. Mas isso é parte do processo político, que tem a ver com o futuro político da Síria. Estas reconciliações ajudaram a estabilidade, o que ajuda a pavimentar o caminho para o diálogo político que mencionei anteriormente.

AFP: O senhor está preparado para ter um primeiro-ministro da oposição em um governo futuro?

Presidente Assad: Isso depende do que essa oposição represente. Quando se representa a maioria, digamos, no Parlamento, naturalmente essa maioria deve levar ao governo. Mas nomear um primeiro-ministro da oposição sem que a oposição tenha qualquer maioria, não faz qualquer sentido político, em nenhum país do mundo. No seu país, por exemplo, ou na Grã- Bretanha ou em outro lugar, você jamais terá primeiro-ministro de minoria parlamentar. Isso tudo vai depender das próximas eleições, de que falamos na iniciativa síria. Elas é que podem mostrar o tamanho real do apoio que têm as várias forças da oposição. Quanto à participação da oposição, como princípio, sim, é claro que apoiamos, é claro que é uma coisa boa.

AFP: O senhor está preparado para ter, por exemplo, Ahmed Jarba ou Moaz Khatib, como seu primeiro-ministro?

Presidente Assad: Estamos voltando à pergunta anterior. Quem garante que alguma dessas pessoas representa o povo sírio ou maioria significativa do povo sírio ou, mesmo, uma pequena parte do povo sírio? E se representarem só eles mesmos ou os estados que os criaram e sustentam? Já respondi essa pergunta. Cada um desses grupos só representa o país que os criou. A participação de cada um desses indivíduos significaria participação desses vários estados no governo sírio. Não faz sentido. Este é o primeiro ponto.

Em segundo lugar, suponhamos que aceitemos a participação deles no governo da Síria. O senhor acredita que teriam coragem de vir viver na Síria, para trabalhar no governo? É claro que não. Ano passado, diziam que controlavam 70% da Síria. Mas jamais tiveram coragem, sequer, de pôr os pés nas áreas que diziam controlar. Vieram até a fronteira, posaram para uma foto e, em seguida, já fugiram dali. Como poderiam ser ministros no governo? Por que um estrangeiro teria de ser ministro sírio? Essas ideias são irrealistas. No máximo, são uma boa piada.

AFP: Sr. Presidente, o senhor disse que isso depende dos resultados das eleições. Mas como organizar eleições, se parte do território da Síria está nas mãos de insurgentes?

Presidente Assad: Durante esta crise, depois de essa agitação começar na Síria, já tivemos duas eleições: primeiro, as eleições municipais; depois, eleições parlamentares. Claro, nem tudo se pode fazer como se houvesse circunstâncias normais, mas as estradas entre as regiões da Síria estão abertas, e as pessoas podem deslocar-se livremente entre diferentes regiões. Aqueles que vivem em áreas de difícil acesso podem deslocar-se para áreas vizinhas para votar. Haverá dificuldades, mas não é um processo impossível.

AFP: O senhor vê alguma diferença entre os combatentes da oposição política e os jihadistas, agora que estão lutando juntos?

Presidente Assad: Se o senhor me perguntasse no início da crise, ou nas fases anteriores, minha resposta seria uma. Hoje, minha resposta é diferente: já não há dois grupos, contra o estado sírio.

Nós todos sabemos que durante os últimos meses, os grupos terroristas extremistas que lutam na Síria já dizimaram as últimas posições restantes das forças que o ocidente ainda pinta como se fossem moderadas, do Exército Sírio Livre. Não existe mais Exército Sírio Livre. Agora só há extremistas, divididos em várias facções. Os combatentes que o ocidente chama de ‘moderados’, esses, na maioria, já se fundiram àquelas forças extremistas, seja por medo ou voluntariamente, estimulados por incentivos financeiros. Em resumo, independentemente dos rótulos que se leiam na mídia ocidental, nós agora estamos em luta contra um grupo terrorista extremista composto de várias facções.

AFP: Seria possível, para o exército e a oposição, lutarem lado a lado com jihadistas [contra outros jihadistas]?

Presidente Assad: Nós cooperamos com qualquer partido que se queira juntar ao exército na luta contra os terroristas. E já aconteceu antes. Há muitos militantes que deixaram essas organizações e se juntaram ao exército. É possível. Mas são casos individuais. Não implica que se faça uma aliança entre jihadistas ‘moderados’ e o exército, contra terroristas. Essa representação é falsa. É uma fantasia que o ocidente tem usado, para tentar justificar o apoio que tem dado aos terroristas na Síria. O ocidente apoia o terrorismo sob o pretexto de que estaria apoiando algum terrorismo ‘moderado’ contra outro terrorismo extremista. É ilógico. Não faz sentido algum. É falso.

AFP: O estado acusa os rebeldes de usar civis como escudos humanos em áreas sob seu controle. Mas quando o exército ataca bolsões de jihadistas, pode também matar inocentes, não?

Presidente Assad: O exército não ataca bairros onde haja moradores. Só atacamos bairros onde só há terroristas. O que acontece é que os terroristas entram em áreas residenciais e forçam a saída dos moradores. Por que você acha que há tantos refugiados? A maioria dos milhões de sírios refugiados fora da Síria ou longe de suas áreas residenciais deixaram as casas porque os bairros foram invadidos por terroristas. Se há civis entre esses grupos armados, por que atacariam seus próprios bairros? O exército está lutando contra terroristas armados, e em alguns casos, os terroristas usaram civis como escudos humanos. As mortes de civis são, infelizmente, efeito de qualquer guerra. Não existe guerra limpa, sem mortes entre civis. Essa é a natureza infeliz de guerra. Por isso temos de pôr fim à guerra.

AFP: Sr. Presidente, algumas organizações internacionais têm acusado o governo e a oposição de cometer abusos. Após o fim da guerra, o senhor aceitaria que se investiguem esses abusos?

Presidente Assad: O que muitas dessas organizações dizem não tem lógica alguma. Não estaríamos até hoje no governo da Síria, se estivéssemos matando nosso próprio povo, e depois de três anos de guerra, e em luta contra dezenas de países interessados em derrubar o governo da Síria. Se o estado sírio estivesse matando seu povo, os sírios já o teriam derrubado há muito tempo. Continuamos onde estamos, porque temos, sim, o apoio do povo sírio. O que essas organizações dizem mostra a ignorância delas sobre a real situação na Síria, ou é prova de que obedecem a agendas políticas dos estados que mantêm essas organizações. Não pode haver dúvida – e há centenas de provas – de que os terroristas cometem massacres e matam civis. Até hoje, por mais que tenham procurado, essas organizações que o senhor cita não encontraram sequer uma prova de que o governo sírio tenha cometido massacre contra civis, seja onde for.

AFP: Sr. Presidente, sabemos de jornalistas estrangeiros que foram sequestrados por grupos terroristas. Há jornalistas estrangeiros nas prisões do Estado

Presidente Assad: Melhor o senhor perguntar às agências especializadas relevantes, sobre este assunto. Com certeza lhe responderão.

AFP: Será que é possível, algum dia, uma reconciliação entre a Síria por um lado, e Arábia Saudita, Qatar e Turquia, por outro?

Presidente Assad: A política muda constantemente, mas essa mudança depende de dois fatores: princípios e interesses. Nós não compartilhamos princípios com os estados que você menciona; esses estados apoiam o terrorismo e têm contribuído para o derramamento de sangue na Síria. Quanto aos interesses, precisamos nos perguntar: será que o povo sírio concordará com ter interesses comuns com esses países, depois de tudo o que aconteceu e de tanto sangue sírio derramado? Não quero responder em nome do povo sírio. Se as pessoas acreditam que compartilham interesses com estes estados, e se esses estados abandonarem a política de apoiar o terrorismo, é plausível que o povo sírio venha a concordar com restaurar as relações. Eu não posso individualmente, nem como Presidente, responder em nome de todo o povo da Síria, hoje. É decisão que o povo tomará.

AFP: Sr. Presidente, o senhor foi convidado para cerimônias do 14 de Julho (Dia da Bastilha, na França), no Palácio do Eliseu, em Paris. A posição da França hoje surpreende o senhor? O senhor acha que França pode ter algum tipo de papel na Síria, algum dia?

Presidente Assad: Não, não me surpreende, porque aquele convite aconteceu durante um período, 2008-2011, quando tentavam seduzir a Síria e a política síria. A França foi acusada por isso, pelos Estados Unidos, quando Sarkozy se tornou presidente. Houve um acordo entre a França e a administração Bush sobre isso, já que a França é tida como velha amiga dos árabes e da Síria e, como tal, pareceu mais adequada para desempenhar o papel. Naquele tempo, tentavam usar a Síria contra o Irã e o Hezbollah, e puxar a Síria para longe de qualquer apoio que pudesse dar a organizações da Resistência na região. Esta política francesa falhou, porque o seu objetivo “oculto” estava por demais evidente. Em seguida, a chamada Primavera Árabe começou, e a França voltou-se contra a Síria, depois de não ter conseguido fazer o que os EUA a mandaram fazer. Esta é a razão daquela posição francesa naquele momento. E entende-se também por que mudou em 2011.

Quanto a algum papel da França no futuro, falemos francamente. Desde 2001 e os ataques terroristas em Nova York, já nem se pode falar de nenhum europeu, em matéria de decisão política (e isso, sem olhar para a década dos 1990). Em todo o ocidente, só há uma política, e é a política dos EUA, sempre implementada por alguns países europeus. E tem sido exatamente assim em todas as questões da nossa região, na última década. Hoje, vemos a mesma coisa: ou a política europeia é formulada com as bênçãos dos EUA, ou a política americana é adotada pelos europeus como se fossem políticas suas.

Assim sendo, não acredito que a Europa, e especialmente a França, que costumava liderar a política europeia no passado, consiga chegar a ter qualquer papel importante no futuro da Síria, ou nos países vizinhos.

Há outra razão também: as autoridades políticas ocidentais perderam completamente a credibilidade. Já nem se pode falar de “dois pesos e duas medidas”, porque os padrões agora são triplos e quádruplos. Eles têm todos e quaisquer padrões, para cada situação política. Eles perderam a credibilidade, porque já venderam todos os seus princípios em troca de interesses. Daí que, hoje, já é impossível cogitar de construir alguma política consistente com os europeus. Dizem uma coisa hoje e, amanhã, estarão fazendo exatamente o oposto do que disseram e fizeram hoje. Por isso, não me parece que a França terá qualquer papel no futuro imediato, a menos que mude completamente suas políticas, a política do núcleo do governo e volte a ser o estado politicamente independente que já foi.

AFP: Quanto tempo o senhor estima que seja necessário para a Síria livrar-se completamente de seus arsenais de armas químicas?

Presidente Assad: Depende do que a Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ) fará, do equipamento que nos dê, para fazer o processo. Até agora, o processo de fabricação deste material tem sido bastante lento. Por outro lado, como você sabe, o desmonte e a neutralização dos materiais químicos não estão sendo feitos na Síria, nem pelo Estado sírio. Vários países em diferentes partes do mundo aceitaram realizar esse processo; alguns concordaram com lidar com os materiais menos perigosos; outros se recusaram. O prazo, portanto, depende desses dois fatores – da OPAQ e dos países que aceitam neutralizar os materiais em seus territórios. Não cabe à Síria definir prazos. A Síria fez sua parte, na preparação e coleta de dados, e demos pleno acesso aos inspetores que verificaram esses dados e inspecionaram os agentes químicos. O resto, como eu disse, é com os demais envolvidos.

AFP: Sr. Presidente, o que mudou na sua vida pessoal, diária, na vida de sua família? Os seus filhos entendem o que está acontecendo? O senhor conversa com eles sobre isso?

Presidente Assad: Algumas coisas não mudaram. Saio todos os dias para trabalhar, como de costume, e moramos na mesma casa, como antes; e as crianças vão à escola, isso não mudou. Por outro lado, há coisas que afetaram todos os lares sírios, inclusive o meu: a tristeza vive conosco, todos os dias – porque todos sabemos das vítimas feridas e mortas, da dor das famílias. E eu, pessoalmente, sei também da infraestrutura destruída, das dificuldades da economia. Todas as famílias sírias foram afetadas, inclusive a minha. Não há dúvida de que as crianças são afetadas mais profundamente que os adultos, nestas circunstâncias. Esta geração provavelmente vai crescer mais depressa e amadurecer muito mais rápido, como efeito da crise. Há perguntas que as crianças fazem, por causa do que está acontecendo, que normalmente os pais não ouvem com tanta frequência. Por que há pessoas tão más? Por que há vítimas? Não é fácil de explicar essas coisas para as crianças, mas são perguntas cotidianas persistentes e um tema de discussão em todas as casas, inclusive na minha.

AFP: Ao longo desses anos, qual a situação mais difícil que o senhor enfrentou?

Presidente Assad: Não é necessariamente uma situação, em particular, mas um conjunto de coisas. Sempre houve coisas difíceis de enfrentar, e continuam difíceis. A primeira, creio eu, é o terrorismo, o grau de selvageria e desumanidade que os terroristas atingiram nos lembra do que acontecia na Idade Média na Europa, há mais de 500 anos. Em tempos mais recentes, modernos, nos lembra os massacres perpetrados pelos otomanos contra os armênios, quando foram mortos 1,5 milhão de armênios e meio milhão siríacos ortodoxos na Síria e em território turco.

Outra coisa sempre difícil de entender é a superficialidade dos funcionários ocidentais, na incapacidade de entender o que aconteceu na região e, depois, na incapacidade para propor uma visão, sequer para o presente, muito menos para o futuro. Sempre demoram demais a perceber as coisas, os processos, às vezes só compreendem uma situação passada, quando já passou e já há outra, nova realidade, completamente diferente.

Outra coisa difícil de entender é a extensão da influência dos petrodólares, na mudança de papéis, na arena internacional. Por exemplo: como explicar que o Qatar tenha-se transformado, de estado marginal, em estado poderosíssimo, ao mesmo tempo em que a França converteu-se em estado comandado de fora, por procuração, para implementar políticas que interessam ao Qatar? É também o que se vê acontecer agora, entre França e Arábia Saudita. Como é possível que petrodólares levem a França, dentre outras potências ocidentais, mas sobretudo a França, a vender seus princípios, os princípios da Revolução Francesa, em troca de alguns bilhões de dólares? Aí está. São algumas das coisas, dentre outras, sempre difíceis, para mim, de compreender e aceitar.

AFP: O julgamento dos acusados pelo assassinato do ex-Primeiro-Ministro libanês, Rafic Hariri, começou. O senhor acha que será julgamento justo?

Presidente Assad: Nove anos se passaram, desde o início do processo. Atendeu-se à justiça? A acusação foi, do começo ao fim, feita por razões políticas. Até recentemente, não se viu nenhuma prova tangível apresentada contra as partes envolvidas no caso. A verdadeira pergunta deveria ser: por que demorou tanto? Por que agora? Este tribunal foi criado há nove anos. Houve recentemente alguma descoberta importante? Por que, de repente, começa o julgamento? Minha opinião é que tudo, aí, está muito fortemente politizado, e o julgamento visa a pressionar o Hezbollah no Líbano, assim como, no início, tudo foi feito para pressionar a Síria e envolvê-la no assassinato de al-Hariri.

AFP: O senhor disse que a guerra vai acabar quando o terrorismo for erradicado. Mas os sírios e todo mundo querem saber quando esta guerra acabará? Alguns meses? Um ano? Nos próximos anos?

Presidente Assad: Esperamos que a conferência de Genebra seja capaz de dar uma resposta a parte dessa sua pergunta, pressionando aqueles países, na direção da paz. Nada disso tem a ver com a Síria, porque, se tivesse, aqueles mesmos estados teriam sido pressionados desde o início, o que poderia ter impedido que o terrorismo entrasse na Síria. Do nosso lado, se Genebra-2 conseguir impedir que o terrorismo continue a ser financiado, alimentado e armado, o fim da guerra pode não tardar mais que alguns meses.

AFP: Há notícias de que agências ocidentais de inteligência ocidentais querem reabrir canais de comunicação com Damasco, para pedir ao seu governo ajuda na luta contra o terrorismo. O senhor está disposto a colaborar?

Presidente Assad: Houve reuniões entre agências sírias e várias agências de inteligência de vários países. Nossa resposta tem sido que a cooperação de segurança não pode ser separada da cooperação política, e não pode haver cooperação política enquanto aqueles mesmos estados continuarem a manter políticas anti-sírias. Em poucas palavras, e bem clara, nossa resposta foi e é essa.

AFP: O senhor disse, antes, que o estado sírio cometeu erros. Na sua opinião, que erros poderiam ter sido evitados?

Presidente Assad: O que eu disse foi que erros sempre acontecem, em qualquer situação. Não falei de erros específicos, nem poderia ter falado, porque só se pode fazer avaliações e detectar erros depois de a crise estar superada, quando afinal é possível avaliar toda a experiência. Avaliar erros enquanto estamos em plena crise teria significado limitado.

AFP: Sr. Presidente, sem Rússia, China e a ajuda do Irã, o senhor teria conseguido resistir às guerras declaradas contra seu governo?

Presidente Assad: Isso não é pergunta sobre fato: é pergunta sobre uma hipótese. Não posso responder, porque não se sabe como seria o mundo, sem essa ajuda, como o senhor disse. A realidade tem mostrado que o apoio russo, chinês e iraniano tem sido importante e tem contribuído para que a Síria mantenha-se firme. Sem esse apoio, é provável que as coisas tivessem sido muito mais difíceis. Como? Não sei. É difícil traçar um quadro hipotético, no atual momento.

AFP: Depois de tudo o que aconteceu, o senhor imagina que outro presidente encarregue-se da reconstrução da Síria?

Presidente Assad: Se for o desejo do povo sírio, não tenho problema algum com isso. Não tenho nenhum apego ao poder. Se o povo sírio decidir que não serei eu, será outro. Não tenho nenhum problema pessoal com esta questão.

AFP: Muito obrigado, Sr. Presidente.

 

O quadro sírio ficou mais complexo, e o Ocidente não capta isso

Leitura recomendada, para entender melhor a complexidade do quadro sírio. Por LAURA GREENHALGH – O Estado de S.Paulo

Empenhado em destravar os canais de diálogo para a Conferência Genebra II, convocada pela ONU para este mês com o propósito de buscar o processo de paz na Síria, o diplomata francês Anis Nacrour mais do que nunca acredita na profissão que abraçou. “A diplomacia é a única alternativa à guerra. E a guerra já comprovou ser alternativa inadequada na Síria”, afirmou em entrevista ao Estado. Há dois anos, o diplomata foi nomeado pela União Europeia (UE) encarregado de negócios na Síria. De passagem por São Paulo, Nacrour concedeu a entrevista que se segue, em que recomenda a participação diplomática brasileira na próxima rodada de negociações sobre a Síria. Mas ressalta: que seja através do Ibas, grupo de países formado por Índia, Brasil e África do Sul. “Seria mais eficiente do que com os Brics.”

A Síria parece uma crise sem fim. O sr, tem essa percepção?

Hoje os atores da região estão meio desesperados. Diplomaticamente estou empenhado na montagem de Genebra II, que vai discutir o processo de paz na Síria. Devemos garantir a representação do regime Assad e ampla participação dos países vizinhos. Mas há longas discussões sobre a participação do Irã e da Arábia Saudita, prova de que há muito a ser feito no plano diplomático.

Está otimista em relação a Genebra II?

Por natureza, o diplomata deve ser um otimista. Ele sabe que a diplomacia é a única alternativa à guerra. Tivemos agora o milésimo dia da crise síria, com mortes na casa de 120 mil. Há cidades arrasadas, como Alepo e Homs – e isso não significa uma perda só para o país, mas para o mundo. Perda em termos patrimoniais e humanos. Como repor o patrimônio cultural devastado? E o que dizer dos milhões de sírios que tiveram de deixar suas casas e estão vagando pelo país ou refugiados em terras estrangeiras? Há 500 mil só na Turquia, 700 mil na Jordânia e perto de 1 milhão no Líbano.

O senhor descarta de vez a solução militar para a Síria?

Não há solução que não seja a diplomática, de natureza política. A militar, já cogitada, comprovou-se inadequada. Basta rever a crise das armas químicas usadas contra a população, algo que chegou a demandar intervenção dura. Teria sido um erro.

Que obstáculos travam a solução diplomática, na sua opinião?

Trata-se de uma guerra civil. Sírios brigando contra sírios, no seu país. Isso é complicado. E há complicações de fora, por exemplo, o movimento “alqaedista”, muito forte, o movimento salafista, ultraconservador, e um “brigadismo” internacional difuso. Calcula-se em torno de 1.800 combatentes vindos da Europa para lutar na Síria, gente que se mudou para lá. Tem jihadista russo, chinês, até uma chilena já encontrei. A Síria virou uma espécie de ímã para essa gente. De certa forma é algo que lembra as brigadas internacionais da Guerra Civil espanhola, só que agora é gente interessada no retorno do islamismo, da sharia.

A crise síria tem componentes muito particulares?

Sem dúvida. O tipo de tensão que vemos hoje no país é bem diferente da revolta inicial, popular e pacifista, que estava na origem dos acontecimentos – que pedia reformas, combate à corrupção, liberdade de expressão. Lá trás era algo conectado com as primaveras árabes, parte de um mimetismo social que levou à derrubada de Ben Ali na Tunísia, Mubarak no Egito. Hoje, o quadro sírio ficou mais complexo. E o Ocidente não capta isso.

Como assim?

Talvez por romantismo, o Ocidente vislumbrou nesses movimentos o fim de alguma coisa que jamais se produziu no mundo árabe. A Tunísia teve apenas dois presidentes após sua independência. Em 50 anos, o Egito teve três. E o Ocidente, que se habituou a tratar com todos eles, nem sabia como reagir à iminência da queda desses homens. O mundo árabe é não é uno – e sim diverso. O Ocidente imaginou que a queda de Assad seria rápida, como na Tunísia e no Egito. O aparelho de análise ocidental se move por simplificação.

Qual é o estado de saúde das instituições sírias hoje?

Respondo com dois episódios. Um belo dia, eu fazia a rota Beirute-Damasco, trajeto de duas horas de carro. A uns 25 quilômetros de Damasco, havia policiais com câmeras, controlando a velocidade dos carros. Isso no meio de uma guerra civil! Quem iria se preocupar com limite de velocidade? Mas os guardinhas eram pagos para desenvolver tais funções e assim o faziam. Outra passagem: o governo sírio acaba de contratar jardineiros para manter os gramados de Damasco. Apesar da guerra, tenta-se manter a normalidade da vida. Por isso rejeito a ideia de que as instituições na Síria naufragaram. Há dois anos pensava-se assim pela defecção de militares, ministros, diplomatas. Muita gente partiu da Síria, mas também é preciso reconhecer que o regime age muito rápido para tapar as lacunas.

Que papel diplomático o Brasil pode jogar na crise síria?

Um papel importante, a meu ver, não como membro dos Brics, mas do Ibas, grupo de países formado por Índia, Brasil e África do Sul. Índia, país com forte desenvolvimento, grande comunidade muçulmana e um islamismo não militante. O Brasil, país que assimilou contingentes do mundo árabe e os integrou à sociedade. E África do Sul, que superou o apartheid e, sobretudo agora, com a morte de Mandela, quer se firmar como modelo de democracia. Veja como cada um tem uma experiência que pode ser útil. Houve uma redistribuição de cartas no jogo diplomático internacional em relação à Síria, abrindo à participação de países que vêm do mundo em desenvolvimento e conquistaram presença internacional.

Um mundo perigoso e imprevisível

As últimas décadas foram de uma poderosa ofensiva contra-revolucionária no mundo, com a hegemonia neoliberal. Malgrado a crise econômico-financeira capitalista que atinge os países centrais do sistema capitalista, e a aceleração dos fatos que marcam uma transição na situação mundial, essa ofensiva persiste abertamente. E tem um forte componente militarista, de guerras e atentados contra povos e nações, além da ofensiva contra os direitos dos trabalhadores, dos povos e nações que lutam por seu desenvolvimento soberano e democrático.

Não bastasse a guerra terrível contra o Iraque e a persistência da guerra mais prolongada travada pelos EUA, a do Afeganistão, os fatos atuais no mundo são terríveis. A Líbia foi dizimada em nome da “liberdade”, onde morreram 50 mil líbios. Hoje a ofensiva se volta contra a Síria. Os EUA e sua nova doutrina militar prepara as guerras do futuro. Querem isolar o Irã, pelo que promovem a guerra civil na Líbia para depor Assad. O mapa do caminho indica dominar o Estreito de Hormuz, pelo qual passam os maiores carregamentos de petróleo do mundo, um golpe contra Irã. Israel deixou entrever atacar as instalações nucleares daquele pais ainda este ano! A nova doutrina deixa claro: algum tipo de cerco à China, nas novas guerras em diversas modalidades que deve marcar o futuro do mundo. A “Primavera árabe” acaba por fortalecer uma variante do islamismo moderado, acabando com o secularismo que marcou a experiência de Egito (aliado norte-americano), Síria e o próprio Iraque. Isso fortalece a Turquia como potência regional, a 12ª Divisão da OTAN. Na Índia, os EUA promoveram um acordo estratégico com respeito às mesmas questões nucleares que constituem o “argumento” para atacar o Irã, o que se constitui em mais uma matéria geopolítica, diplomática e militar voltada à China.

Enfim, essa a contrarrevolução que persiste e as guerras que se anunciam. As contratendências estão ativas, marcadas pelos esforços de desenvolvimento autônomo da China, Índia e outros países em desenvolvimento, fortalecendo sua capacidade nacional de defender os próprios interesses em todos os terrenos. As contradições trabalho-capital se acirram, sobretudo na Europa, e os próximos anos marcarão desenvolvimentos importantes nessa esfera. Mas a correlação de forças real do mundo é essa, o que exige análises concretas de realidades concretas.

De todo modo, os próximos vinte anos serão bem interessantes em termos de lutas para modificar a ordem mundial.

Deixo aos que acompanham o Blog um vídeo com alocução de Domenico Losurdo, importante marxista e leninista italiano, pensador crítico da realidade mundial, tratando dos acontecimentos na Líbia e chamando a atenção para a indústria da guerra em seu papel ainda dominante, bem como para a imposição da ordem jurídica inteiramente arbitrária que impera sob a batuta do capitalismo-imperialismo.