Caminho Uruguaio ao Socialismo: O pensamento de Rodney Arismendi e a unidade da esquerda (1955 – 1971) (por Mateus Fiorentini)

A Frente Ampla, como expressão da unidade da esquerda uruguaia, tem sido uma importante referência para inúmeros processos que buscam uma construção unitária deste campo político na América Latina.

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Marxismo: A constituição do proletariado em classe no Manifesto do Partido Comunista (por Armando Boito Jr.)

Neste artigo, publicado originalmente na revista Crítica Marxista, o professor Armando Boito busca resgatar a concepção dos fundadores do socialismo científico sobre a formação do proletariado enquanto classe. Um caminho que exige, segundo o autor, o rompimento com visões economicistas e deterministas da história. Escreve ele: “O processo de constituição do proletariado em classe é apresentado no Manifesto como um processo irregular, cumulativo mas reversível e, também, marcado por rupturas e saltos de qualidade. É apresentado, também, como um processo bifronte. Continue lendo

Brilho nos olhos por ser PCdoB

CONFERÊNCIA DO PCdoB MARANHÃO

Na constelação política do país e naquela do PCdoB em todo o país, um ponto luminoso se sobressai. É a experiência que vive o Maranhão e seu povo, sob um governo democrático, popular, de ampla frente anti-oligárquica, em cujo seio ponteia o PCdoB. Essa foi daquelas vitórias políticas que se inscrevem na história do país, como testemunho de todo um ciclo político progressista vivido nos últimos anos no Brasil.

olhos+walter

Enfim, o povo maranhense decidiu que chegara a hora do vento mudancista para fazer no Estado uma plataforma modernizadora, moralizadora e de elevação do padrão de vida da maioria do povo.

E decidiu, para nosso orgulho, que seria a hora e a vez de um bravo combatente, de uma histórica corrente política, empalmarem esse destino. Flávio Dino, líder nacional já reconhecido, pelo PCdoB, foram capazes de unir as forças necessárias para avançar, exercendo com maestria os atributos de liderança política, moral e cultural, para somar e não dividir, para incluir e não demarcar, para propor e não para se impor a ninguém.

Maestria e sensibilidade para captar o sonho e emular a esperança dessas forças, representando o sentimento majoritário da sociedade, enfim prevalecente nas urnas – e até agora, nos índices de popularidade do novo governo.

A direção nacional não pode deixar de saudar Flavio Dino como um dos maiores representantes políticos nacionais do PCdoB. Ao fazê-lo, tenham certeza, homenageia não apenas o governador, mas sim o militante, o dirigente Flávio Dino e todo o partido no Maranhão.

Hoje no MA já não somos o “velho” partido e o “novo” partido. Somos um só. Homenageio a abertura e generosidade da velha geração comunista aqui presente, que soube acolher as novas forças que vieram nos últimos 9 anos. Homenageio também a generosidade dos novos, que não vieram para substituir ninguém, mas para se amalgamar com os antigos, ensinando e aprendendo ao mesmo tempo.


Essa obra deu certo, foi vitoriosa!

Agora realizamos esta Conferência, oportuna e necessária, porque vencemos uma etapa e outra se apresenta, com outros e maiores desafios. Não só os desafios de governar esta sociedade complexa e carente no Maranhão, estado com muitas riquezas, mas também de realizar o projeto estratégico que apresentamos ao povo maranhense – o Maranhão de todos nós, com justiça social. Um norte assim generoso precisa de uma estratégia bem definida que nos mobilize a todos.

São desafios novos para os comunistas, em que eles aproveitam a experiência da esquerda brasileira. Nós comunistas somos persistentes. Aprendemos a ser bons de luta e bons de governo. Mas nunca fomos tão inovadoramente exigidos quanto agora, para governar um Estado da federação. Trata-se de desafio político e administrativo, mas que envolve a sabedoria política para firmar e perseguir estratégias claras e ampliar, sempre, a participação e apoio popular.

O documento em debate apresenta os pontos fundamentais destes desafios. Estão muito bem apresentados e serão coroados com esta Conferência.

De minha parte, falo das forças de sustentação necessárias para o êxito estratégico desse movimento. Precisamos saber renovar o arcabouço da esquerda brasileira para essa missão.

Qualquer estratégia tem como centro a hegemonia. Se há um rumo formulado, a questão é: de que tipo, por quais caminhos? Também nisso devem se diferenciar os comunistas.

Nosso bom documento em debate afirma a hegemonia como liderança política, de massas e cultural na sociedade. Capaz de abarcar vastas forças, tendo por centro o projeto definido; que as coesione, de modo político e republicano, compartilhando responsabilidades.

Há essas vastas forças na sociedade maranhense, de cunho democrático, progressista e patriótico. Já foram unidas nas eleições; precisam permanecer unidas para cumprir o desígnio que lhe foi dado pelo povo.

Mas, no seio de processos desse tipo, se carece da força indutora. Esse o desafio posto para o PCdoB e sua construção, neste momento vigoroso de sua história no Estado.

É absolutamente necessário ligar umbilicalmente a tarefa de governar à da participação popular, envolvendo, sobretudo, os movimentos sociais organizados, mas não só. Apenas com a força popular pode sustentar as mudanças proclamadas pelo novo governo. Esse é um dos pilares da hegemonia, condição absolutamente necessária.

Mais ainda, não desvincular essas duas questões da poderosa luta de ideias, mãe de todas as batalhas. Porque não há movimento avançado sem ideias avançadas, traduzidas num projeto político e numa estratégia bem definida. É certo que elas estão bem formuladas aqui no Maranhão. Mas a luta do Maranhão é parte de uma luta maior – o Maranhão de todos nós com justiça social é parte integrante do novo projeto nacional de desenvolvimento perseguido pelas forças avançadas de nosso país, sob a atual liderança da combativa presidenta Dilma Rousseff, e é matéria central do Programa do PCdoB. Por outro lado, a pressão do praticismo cotidiano, o ativismo cego, sempre atua pelo rebaixamento da reflexão sobre os caminhos trilhados.

Aí residem as três questões apontadas no documento. São igualmente as questões nevrálgicas para a construção partidária. O partido são os trilhos em que se assentam a combinação da luta de ideias, com a luta institucional e a luta social de massas.

Falo então nm partido para construir a hegemonia de um bloco político social avançado, que nucleie forças mais amplas de caráter democrático e progressista.

Um partido que seja o centro gravitacional dessa hegemonia.

Hegemonia é força e consenso – consenso de rumos para maior aglutinação de força, e força para forjar unidade avançada, pelo método da persuasão e soma e não pelo exclusivismo, que tem a habilidade de isolar os alvos centrais adversários, neutralizando aqueles cujas contradições, momentaneamente, são secundárias com o projeto.

Um partido que não perca a capacidade de refletir sobre a experiência, analisar os fatos e não se perder nas aparências ou em êxitos efêmeros. Que saiba permanentemente relacionar o particular ao universal, a especificidade maranhense à realidade nacional. Quanto mais a alma não for pequena, mais valerá a pena fazer do Maranhão de Todos Nós uma luta nacional.

Um partido que de fato incorpore e subordine toda e qualquer frente de ação ao projeto maior, as coesione programaticamente, que saiba combater as formas de cretinismo parlamentar, institucional ou mesmo corporativo dos movimentos sociais. Pragmatismo e horizontes estreitos, pessoais ou coletivos, num momento destes, são dissolventes do verdadeiro espírito de instituir a hegemonia do PCdoB.

Um partido que seja a inteligência coletiva, acumulada em quadros experimentados, comprometidos e mobilizados para formular caminhos. Portanto, de direção coletiva, capaz de mobilizar toda a estrutura de militantes, filiados e amigos, seja no âmbito administrativo, técnico, de massa, parlamentar, intelectual. Uma direção capaz de por todas essas forças em sintonia, orquestrada, para o projeto político.

Um partido norteado por essa estrutura de quadros que alcance ser uma formação de massa de militantes e filiados, cumprindo seus direitos e deveres partidários, devidamente organizados e mobilizados para o projeto político.

Um partido de portas abertas para os lutadores do povo e lideranças da sociedade, mas onde se tem regras, para manter e aprimorar o caráter de uma força realmente organizada desde a base e valorizadora da vida partidária.

Um partido, enfim, organizado para ser eficaz, e para ser uma escola de formação de novos quadros de todos os tipos. Que tenha um trabalho de comunicação própria com o povo e suas extensas fileiras.

O segredo denominador comum de todo esse movimento são as justas relações entre partido e governo, e a relação entre ambos e a direção nacional. Como se sabe, trata-se de uma responsabilidade de magnitude nacional, ponta de lança de todo um movimento de afirmação da identidade do PCdoB, a partir do êxito estratégico na gestão do governo do Maranhão.

Partido e governo são autônomos, cada qual com sua missão e tarefas. O importante é sustentar o governo, mas sem se confundir com o governo, capaz de ser a antena dos sentimentos e anseios na sociedade e fazer a mediação disso com o projeto de governo. Portanto, uma organização política com meios próprios para sua ação e independência, que não se dilua de modo amorfo na frente política ampla que sustenta o governo. Cujos fóruns funcionam regularmente. Onde todos seus membros se ponham à frente e ao lado dos interesses gerais do partido, nunca acima dele.

É cheio de perspectiva este momento do PCdoB no Maranhão. Devemos estar à altura para aproveitá-lo inteiramente. Sem desconsiderar que hoje vivemos no país a mais adversa conjuntura política destes 13 anos, tendo se instituído no país uma correlação de força de inclinação conservadora, que ninguém pode deixar de levar em conta.

Face a isso, como todos sabem, o PCdoB tem lado e tem campo político definido. Desassombradamente. Até por isso, a IDENTIDADE do PCdoB, tema de nossa 10ª Conferência, ou seja, a definição do lugar político próprio do PCdoB no cenário nacional, tem objetivamente um poderoso holofote nacional aceso no Maranhão.

Tenho certeza de que podemos alcançar os objetivos do documento. Tenho certeza de que todos darão o melhor de si para isso.

Por isso, o que mais desejo ao PCdoB no Maranhão é que, ao cabo destes próximos anos, quando perguntarem a um de nós “quem é você” (o que na política brasileira querem dizer “você é alguém”?), possamos responder: “Sim, sou membro do PCdoB!”. COM BRILHO NOS OLHOS, possamos dizer “Sou militante do PCdoB, sou dirigente municipal do PCdoB, com muita honra e orgulho!”.

Parabéns, êxitos, à vitória do povo maranhense, ao fortalecimento do PCdoB no Maranhão.

Lucio Magri: O Alfaiate de Ulm

alfaiate de ulm

Este é o melhor livro que conheci em 2013-2014. Escrito por um homem íntegro, lúcido pensador revolucionário, cético consigo mesmo e tolerante com os demais, de uma honestidade intelectual como poucos. O Alfaiate de Ulm é uma possível história do PC italiano, o maior partido comunista do Ocidente, herdeiro de Gramsci, e que representou a esperança do povo comunista da Itália, uma comunidade de alto sentido de identidade, pertencimento, esperança e força política.

O número de insights e reflexões pertinentes fornecidas por Magri é fenomenal. Dá o que pensar todo o tempo, o tempo todo. Nem o próprio Autor teve a indelicadeza de julgar que estava certo em tudo que pensou e promoveu durante as décadas da história abarcada pelo livro – essa a elegância e penetrância do ensaio.

Mas é certo que ele abordou as questões essenciais, relacionando o panorama internacional, as metamorfoses do capitalismo, as agruras da evolução socialista na URSS (e a crise ulterior) e as evoluções políticas em seu país, na melhor tradição dialética de análise concreta e multilateral da situação concreta, isento de politicismo conjunturalista que se basta com a abordagem da superestrutura.

É pungente acompanhar a saga do PCI pelos olhos de Lúcio Magri, mas sempre fica a certeza de que ele o fez com rigor e paixão, a partir de um ponto de vista comunista, revolucionário e, mais ainda, sem se desvincular das manifestações sociais que foram tão pródigas na Europa nos anos 70-80. Sem romantismo, porém, ele disseca a crise que levou à Bolognina, o epílogo daquela rica experiência, quando se liquidou o partido. Magri não é isento, nem isenta seus parceiros, os erros de ambos. De todo modo, é honesto intelectualmente, e comprometido revolucionariamente.

O livro solicita uma resenha crítica mais aprofundada, que teria que abarcar ao menos o por quê um caminho nacional para o socialismo se perdeu em meio a ilusões ou taticismos descolados de estratégia transformadora; por quê nos grandes traumas que se interpuseram no movimento comunista nos anos 50-60 não se conseguiu distinguir ideologicamente dois caminhos opostos, mesmo que um deles com roupagem esquerdizante e outro modernizante; por quê não se conseguiu discernir nova evolução do sistema capitalista naqueles anos, que alavancaram a Europa nos “trinta anos gloriosos”… Débito geral do marxismo, diria, ou crise de um modelo que marcou a experiência revolucionária e de construção do socialismo naqueles marcos de tempo.

É claro que o tempo histórico clarificou muitas das questões que mobilizou a mente de Magri. Mas as questões permanecem desafiadoras para todos os marxistas e, nisso, o livro dá uma impagável contribuição. Sobretudo quanto à fibra e convicção ideológica que precisam ter, os comunistas, na luta titânica antissistema. Sem isso, não se vai a lugar algum.

Sem dizer de outro aspecto: a leitura prazeirosa, rica e viva da época; e o drama de saber que ele precisava terminar o livro para poder pôr fim à própria vida, promessa feita à sua companheira atingida por doença fatal.

Acompanhei a trajetória de Magri desde os tempos dos anos 1970. Ela me era instigante, mas só agora o compreendo bem. Estava no Congresso dos comunistas na Itália quando, durante o Informe do secretário-geral, chegou a informação de que Magri tinha, enfim, posto fim à vida. Foi aplaudido longamente, em transe. Só pude esperar o livro para fazer de fato um luto – muito fecundo com a leitura do livro.

Li também a resenha, cuja leitura recomendo, de Perry Anderson, homenageando o Autor. Menos isenta que a do próprio Magri – melhor o livro que a resenha – mas também alimenta o mesmo debate. Boa leitura.

O alfaiate de Ulm é um livro fundamental.

Lucio Magri por Perry Anderson