Não é uma campanha despolitizada

jandira-feghaliA Folha de São Paulo hoje, sábado a uma semana das urnas, analisa os resultados do Datafolha sobre a eleição na capital de São Paulo, cruzando dados para captar a definição de voto dos indecisos, o quanto o voto em determinado candidato é consolidado ou não e, mais, para quem migrariam os votos não consolidados.

haddadEm São Paulo, 39% ainda são indecisos, sem contar os votos indicados mas não consolidados: 51% dos entrevistados que declararam voto em Marta afirmaram que ainda podem mudar de ideia; são 37% os que titubearam sobre Doria, 38% sobre Haddad, 39% sobre Russomanno e 45%, Erundina. Ou seja, a eleição está em aberto, a uma semana das urnas.

Marta tem uma barreira que é a desconfiança sobre sua migração partidária, o eleitor quer entender melhor isso; Russomano, pela sua inconsistência, declarações desencontradas e furadas e falta de sustentação.

Por outro lado, uma recente qualitativa de bom gabarito em importante capital brasileira, indica que porcentagem substancial da sociedade brasileira tem posição contra o golpe, algo em torno de 35-40% dos eleitores. Nada a ver com Dilma ou com o PT, mais propriamente contra o trauma político do golpe na democracia. Estão incomodados com a radicalidade do confronto entre a turma do golpe e do Fora Temer, e desiludidos ou abalados pela situação do PT que se tornou alvo seletivo dos golpistas. A maioria quer ver se isso se confirma e onde vai dar, há muitas coisas em aberto. Mais importante: testadas, os grupos pesquisados reconheciam em boa medida os campos políticos entre os candidatos da disputa municipal.

Uma conclusão é que é um engano dizer que esta campanha é despolitizada. Há um componente político subjacente à opção do eleitor, para além de propostas para a cidade.

O eleitor, as pessoas – talvez, quase certamente –, não queiram ter um debate público sobre sua posição a respeito da cena nacional, mas não deixam de ter opinião que subjaz à apreciação que fazem dos candidatos, seus apoiadores e suas propostas. E as levam em conta ao definir o voto.

Convenhamos que a situação dos eleitores é, compreensivelmente, de muitas incertezas quanto aos acontecimentos e perspectivas. Não quer ser ludibriado, nem quer se enganar ao votar e se arrepender no futuro. Não se pode culpá-lo, está bem difícil definir o voto e as regras de campanha tornaram isso ainda mais difícil.

Mas não é uma campanha despolitizada. Há uma recusa surda da bipolaridade que comanda a vida política há mais de vinte anos, uma tendência de mudança e não de continuidade, o que fragmentará os resultados eleitorais em termos de legendas partidárias. Fala muito disso o fato de o PRB evangélico estar liderando por ora nas duas maiores cidades do país. A direita política, com o golpe, de fato lograram construir uma corrente de voto de opinião, baixa mas generalizada no país. Fazem o gênero da anti-política, mas não enganam nem aos incautos: são políticos profissionais e corporativos. Mas o que se fiam no exemplo de sua vida, não há como esquecer o governo Lula e as melhorias sociais introduzidas, apesar do anti-petismo em ascenso.

Isso indica que para vencer não bastaria demarcar campos do ponto de vista nacional tanto quanto não bastaria só apresentar propostas para a cidade. O eleitor está exigente, como sempre, não despolitizado, precisa ser capturado num fio narrativo, pela racionalidade e ainda mais pelo ideário e emoção, que dão base à sua sustentação e propostas.

Propostas são condições necessárias porém insuficientes para vencer a disputa na campanha. Não bastam, se não se sustentarem também na identidade de campos sobre a cena nacional, produzindo identidade de campos políticos, bem tratados sob o ponto de vista do ideário médio do eleitor.

Sobretudo nos grandes centros urbanos como São Paulo e Rio, é de se esperar que esses fenômenos sejam mais nítidos. Jandira no Rio, por exemplo, disputa palmo a palmo sua entrada no segundo turno contra a máquina do governo municipal, acertando no ponto de combinação entre identidade de campo político, no plano nacional, referido aos campos em disputa na cidade, e suas propostas. Tanto assim que levou Dilma e Lula à campanha. Assim, tende a ultrapassar Freixo do PSOL e sua boa mensagem.

Haddad, prefeito e candidato à reeleição em São Paulo, não encontrou esse bom ponto. Foi travado graças a certa invisibilidade de suas realizações e persona política e, quanto à identidade de campo, pela má situação do PT. Suas propostas são as melhores, suas realizações são realmente boas e importantes, mas não bastarão se não se combinarem com alguma contundência e emoção sobre os polos políticos em disputa na cidade referidos aos acontecimentos nacionais. Ele tem moral para a contundência, apelar ao eleitorado para levar essa quase metade da população contra o golpe ao segundo turno e até para fazer a defesa do PT, como partido que legou muitas transformações positivas ao povo e que quer se reformar, aprender com os erros, tarefa na qual Haddad joga grande papel. Na dúvida, lembrar sempre que mais de 80% rejeitam o governo Temer e, até nas manifestações pró-golpe, uma ampla maioria manifesta de público rejeição massiva a Alckmin, Aécio e Serra, por exemplo.

Uma outra conclusão é que, se para ganhar as duas condições são necessárias, para perder deve-se sempre ter em mente o saldo que fica: pode-se ter uma derrota eleitoral sem necessariamente uma derrota política. É o que se chama “cair de pé”, com reforço da imagem e representação de campos políticos nítidos. Porque não há vitórias irreversíveis, nem derrotas definitivas.

 

A guerra política contra Dilma

Antena

A ordem unida soou há tempos e está superativa: desconstruir Dilma Rousseff, impor-lhe a derrota, a que preço for. O trabalho da mídia e da oposição, somada até com a suspeita ajuda de Eduardo Campos, lembra Gil Vicente com suas cantigas de maldizer, “aquelas que fazem os trobadores […] descubertamente; e em elas entram palavras que querem dizer mal e nom [devem] haver outro entendimento senom aquele que querem dizer chãamente”.

O terrorismo econômico é cotidiano na mídia com uma blindagem anti-Dilma e pró oposição – o exemplo de Alckmin e a crise do abastecimento de água é gritante. A maldição da organização da Copa não se comprovou, e a mídia recolhe o que cuspiu para cima. O pessimismo promovido pelos empresários e rentistas se reflete nas pesquisas de modo claramente contraditório: o pesquisado não teme o seu desemprego e o de seu entorno, mas registra um clima “geral” de preocupação. 

O maior sinal da guerra política está no comportamento dos “agentes econômicos”. Dilma cai nas pesquisas, a Bolsa sobre em São Paulo. O Ibovespa teve ganho de 2,47%, para 57.012 pontos – a mais alta pontuação desde 14 de março do ano passado. Isso se deveu às ações das estatais: as da Petrobras subiram alta de 4,91%, Banco do Brasil, 2,65%, e da Eletrobras, mais negociados, ganharam 6,2%. Quer dizer, o resultado agradou ao “mercado”. Um escárnio, ainda lembrando Gil Vicente, “cantigas aquelas que os trobadores fazem querendo dizer mal d´alguém em elas, e dizem-lho per palavras cubertas que hajam dous entendimentos pera lhe-lo nom entenderem… ligeiramente; e estas palavras chamam os clérigos hequivocatio”. Só falta subirem também as ações da Sabesp que promoveu o desinvestimento no abastecimento de água em São Paulo.

Quanto à crise em que navega o mundo, é tratada como abstração. Medidas de matriz econômica inovadoras implantadas por Dilma são demonizadas. Boa parte do empresariado, não apenas do setor financeiro, se descolam dos interesses do desenvolvimento nacional, após terem sido contemplados com várias medidas indispensáveis para sobreviver e se afirmar produtivamente. Adiam ou bloqueiam os investimentos, tangidos pelo “pessimismo” produzido, ao invés de enfrentar as novas condições mundiais num país de clara vocação e potencial pela sua afirmação autônoma. Buscam os aportes do governo mas querem impor-lhe a derrota, pensando ganhar mais com as lides financeiras.

Quanto àquele, o setor financeiro, já não tem rebuços: capitaneia abertamente a volta ao passado, representados por Aécio Neves. Arrocho do tripé macro-econômico para produzir alguma recessão, diminuir o emprego e a renda do trabalho, para um “ajuste” fiscal rigoroso que permitiria “engatar o Brasil nas cadeias globais capitaneadas pela recuperação econômica norte-americana”. Com a blindagem alcançada, imaginam nem ter que dizer abertamente onde vão cortar os gastos – quem sabe na ciência e tecnologia, no Minha Casa, Minha Vida, nos investimentos nas universidades, no Mais Médicos… Tergiversarão e imaginam poder combater à sombra.

Fizeram progressos, essa gente. O Datafolha diz que 47% dos paulistas não votam na presidente de jeito nenhum; significativamente, Haddad rejeitado como ruim e péssimo para 47% dos paulistanos. Num eventual segundo turno, em São Paulo Aécio derrotaria Dilma por 50% a 31%, e mesmo Eduardo Campos (PSB), um desconhecido no Estado, ganharia da presidente por 48% a 32%. Quer dizer, as pesquisas fazem como aquele famoso final dos teoremas, “como queríamos demonstrar”. O mal-estar é fabricado e depois mensurado. Mesmo assim, Dilma lidera as pesquisas.

Por mais 75 dias, sobretudo os primeiros 30 até o início da campanha na TV, isso seguirá sem obstáculos e monoliticamente na mídia. Depois o debate se estabelecerá um pouco mais equilibrado. Os brasileiros querem uma sociedade gerida pelo e para o “mercado” ou para o desenvolvimento de uma nação soberana, democrática e de inclusão social? Querem um um choque de produtividade hoje indispensável – porque exigência e porque se acumularam condições – de caráter regressivo ou progressista? Querem recuar no tempo e nas conquistas ou avançar em seus direitos e na inclusão social? Querem combater a inflação com mísseis do Banco Central na elevação de juros, cortes fiscais com recessão e desemprego, ou enfrentá-la com um choque de oferta de serviços e produtos para os novos patamares de consumo da camada C que ascendeu, e deslindar o nó dos preços monitorados pelo governo? Esses dois componentes, somados ao dos alimentos, respondem por 95% da inflação brasileira, todavia dentro da meta, repita-se.

Dilma tem o melhor programa para esse combate, mas isso não bastará para ganhar a guerra. Sem os dados de 2014, seu governo alcançou em três anos um crescimento médio de 2,1% e inflação 6,1%, dentro da meta neste primeiro governo (no primeiro governo Lula as médias foram, respectivamente, 3,5% e 6,4%, e no primeiro período FHC as médias foram respectivamente: 2,4% e 9,4%). Enfrentou a crise mantendo a renda do trabalho em alta e o emprego, o contrário do que fez a Europa e os EUA. Seu novo programa, recém-apresentado, vai ao encontro da realidade: um novo ciclo de transformações, ancorado em tudo que se conquistou nestes doze anos. Manter o consumo da massa como alavanca, ampliar o investimento público e privado, realizar a atualização da infra-estrutura nacional e enfrentar o grave problema do subinvestimento na reforma urbana.

O Brasil tem plenas condições de seguir adiante e abrir esse novo ciclo. Não bastará o combate no plano econômico, a não ser ligado a um projeto e plano nacional de desenvolvimento, mais amplo, a reformas estruturais corajosas. Sem elas, o Brasil já avançou. Postergá-las não acalma os reacionários e se descola de sua base social amplíssima, a maioria do povo. 

O que o Brasil não tem é uma oposição à altura de defender e representar o interesse maior desta nação de 200 milhões de brasileiros e brasileiras. Malgrado sua força enquanto “sistema” – jamais essa velha palavrinha, tão usada outrora, foi tão atual.

Esse o combate em curso. E ele vai exigir tomada de posição de todos, no debate, nas ruas, em campanha. Acomodar-se ou se esgueirar por objetivos menores, à margem dessa grande via de combate, será fatal. Dilma vencerá com apoio do povo ao  liderar essa proposta com determinação.

O IBOPE e suas leituras

Pelo IBOPE destes dias, 35% dos consultados indicam que “se mantivesse alguns programas mas mudasse muitas coisas”. Outros 21% que se “fizesse poucas mudanças e se desse continuidade a muitas coisas”, a que se acrescem 9% que “pedem continuidade total ao governo atual”. Na outra ponta, 30% afirmam querer que se “mudasse totalmente o governo do país”.

São portanto 30% oposicionistas frontais, 30% governistas abertos, 35% em disputa com o sinal de mudanças na continuidade. Este último é o espectro maior em disputa. Pode-se, ao contrário do que faz a mídia, somar os governistas com os 35% em disputa: dá 65% com quem se dialogará: o que fazer de mudanças dentro da continuidade, ou seja, sem retrocesso. É um mar de gente, e teremos um oceano de realizações a apresentar num privilegiado tempo de TV.

Dilma em ação já vem compondo novas pactuações e tem imensas possibilidades de falar de esperança para essa gente. Não há o que a oposição comemorar.

Ontem postei a matéria sobre a pesquisa e o gráfico das médias dos institutos, que é essencial para não perder de vista o “filme”, fixando-se apenas na fotografia. Veja em http://waltersorrentino.com.br/2014/05/22/nova-rodada-ibope-dilma-no-1o-turno/.

A oposição está onde sempre esteve – lamentavelmente Eduardo Campos somou-se a ela e levou água para o moinho de Aécio, num erro político inesperado. Cravam os 30%. Quer-se ver como podem liderar a esperança com um programa que vem a ser de suposta defesa dos avanços sociais e austeridade fiscal e monetária para apontar um suposto “novo ciclo de crescimento econômico”.

Austeridade não rima com progresso social, nem um pretenso social-liberalismo de fachada abre perspectivas para a nação.

Nova rodada IBOPE – Dilma no 1º turno!

Dilma

A nova rodada mostra que vamos bem.

Brancos e nulos caem 10% e os que Não sabem mais 3%. Portanto, novos 13% se definiram.

Dilma sobre acima da margem da pesquisa. Aécio e Eduardo também, mas mesmo somados aos demais candidatos, não alcançam Dilma.

Variou para melhor o quadro, portanto. Dilma tem 35% de ótimo e bom, 30% regular e 33% de ruim e péssimo – oscilações na margem.

No primeiro turno ela venceria. Se fosse ao segundo, venceria com folga. O Ibope não registrou a espontânea: na última rodada do IBOPE ela disparava com 27% (conta 6 de Aécio e 3 de Eduardo).

Dilma terá 60% do tempo de TV, tres vezes mais que Aécio e mais de seis vezes o de Eduardo.

Nisso tudo atuou a definição formal pela candidatura Dilma por parte do PT, mais os apoios de PCdoB, PSD, PMDB, PP, PTB, PDT e outra série de partidos da atual base, faltando a definição do PR. Lula também entrou forte na cena.

Detalhe: pesquisa se deu após apedrejamento de Dilma e Petrobrás pela oposição. Não deu: Dilma subiu. Ainda vem a Copa pela frente e será vitoriosa para o país.

A propaganda eleitoral do período ajudou a abrir a reflexão de largas camadas do povo. A ideia de nova esperança contra o retrocesso é justa. Foi melhor começar assim, desde logo, para um choque de realidade, porque ao longo da campanha propriamente dita haverá muito que apresentar de realizações alcançadas e das propostas para uma nova arrancada no projeto encabeçado por Dilma.

Ainda falta muito de campanha, mas vamos bem e vamos melhorar quando mostrarmos o que alcançamos e o que vamos fazer para corresponder às esperanças dos brasileiros.

O Estadao tenta introduzir o critério de Média de todos os Institutos. Muito importante ver ver o link abaixo: mostra que os institutos se anteciparam em dar a elevação de Aécio e Eduardo e, agora, nas médias, estancaram. A única que está em ascendência é Dilma.

Veja o desempenho dos candidatos na média dos institutos. É o segundo gráfico, não perca.

É isso aí.

Eleições presidenciais, alianças estaduais e programa da disputa

Ibope

O quadro das pesquisas da disputa presidencial está relativamente congelado. Dilma tem vantagem, oscila mas a oposição não cresce. É pouco provável que isso se altere significativamente até junho-julho. Haverá a Copa Mundial, cujo efeito eleitoral é imponderável. A oposição está concentrada em desconstruir a imagem de Dilma no plano político, e a situação econômica tem, rigorosamente, pouca probabilidade de atingir os índices de Dilma.

Ha dois movimentos menos visíveis que preparam a verdadeira disputa. Um é o quadro de alianças estaduais: a eleição presidencial tem autonomia relativa com respeito à disputa de governos estaduais, mas esta última constitui um esteio de sustentação daquela. O outro é a construção das mensagens programáticas com que se apresentarão as candidaturas.

No plano das alianças e sustentação estadual, o quadro geral ainda está com vários graus de indefinição nas composições a governadores e senadores. Mesmo assim, e sem toda precisão, o comportamento das forças é o seguinte neste momento.

O PT privilegiará reeleger seus quatro governadores, mas tem por centro elevar as bancadas de deputados e senadores. Apresenta-se até o momento com 12 candidatos próprios ao governo e apoiará 6 candidatos ao governo do PMDB, outros dois do PSB, e um apoio cada a candidatos do PTB, PROS e PP (possivelmente). Está indefinido no MA, GO, MT, RN e PB, mas em todos os casos predomina tendência a apoiar o PMDB, o que levaria o cômputo geral a 12 candidaturas próprias e 11 em apoio ao PMDB.

O PMDB, por sua vez, por seu caráter regionalizado e de federacão, precisa eleger seus governadores, mas está tensionado pela estratégia d
o PT de fazer maioria na Câmara e força no Senado. Apresenta-se até o momento com situação mais fechada de apoio ao PT em MG e DF. Terá 18 candidaturas próprias ao governo. Vai disputar com PT a
bertamente em SP, RS, RJ, BA, MS, RR, AP, PI, PE e, a definir, no CE. No restante mesmo com candidaturas próprias estarão no mesmo campo. Confronta o PCdoB diretamente no MA, apoia o PSD em SC tendencialmente, e o PSB em PE e ES. É o mais favorecido pela coalizão com o PT.

O PSB está em outro campo. O grau de indefinição é maior, porquanto tem que compor internamente com a Rede. Precisa manter seus 5 governadores, liberando-os relativamente da campanha presidencial (exceto PE), e enfrentar o isolamento em diversos locais. Até o momento, terá 10 candidatos próprios oriundos do PSB, 5 são reeleições e mais na BA, DF, AM e GO (estes dois últimos a conferir). O apoio ao PSDB em MG e PR está definido. Em outros 9 ou 10 Estados tem indefinição interna quanto a candidaturas próprias ou apoio a outra legenda; mas é oposição no RS, CE, SE; apóia o PDT em MT e PPS (ambos em oposição a Dilma), e em TO, palanques partilhados com Aécio. É estratégia auxiliar do PSDB em SP, provavelmente CE e possivelmente outros estados; e tem acerto indireto com PT na BA e AC. Apoia o PCdoB no MA, o PMDB em RO e, tendencialmente, o PROS no RJ e o PSD em SC. Estão até agora divergentes PSB e Rede em 5 Estados.

O PCdoB está bem definido quanto à disputa do governo do MA, eleger mais senadores e bancada de deputados federais. O quadro de composição até o momento é de 11 apoios a candidatos a governador do PT, mais 1 possível (a convergência não ocorre no PI); 7 apoios a candidatos a governador do PMDB; 4 apoios a candidatos a governador do PSB e um apoio possível a candidatos a governador do PP e PROS. Duas situações estão ainda indefinidas – MT e RN. Reinvindica a candidatura ao Senado no AC, CE, RS e SE, no RJ e AP. No Acre a aliança está consolidadada para a candidatura.

Por ser menos visível, isso está ainda pouco valorizado e não se reflete em pesquisas. Dilma leva vantagem por sua ampla base de sustentação e de realizações de governo, mais o tempo de TV das alianças e palanques fortes e-ou variados para a campanha nos Estados. O eixo PT-PMDB domina a cena, relativamente, mesmo com disputas entre eles. O PMDB ficou estressado com o projeto do PT, arengou na luta política no Congresso visando a pressionar o governo – quis mais espaços ministeriais, ameaçou votações na Câmara, etc. O episódio Petrobrás realinhou muito disso e o processo ainda está em curso. O PMDB brande, com alguma razão, condutas hegemonistas do PT – hegemonia é obrigação na política, a questão são os caminhos e métodos para tanto, e o PT não gera confiança nesse quesito. O PT não privilegia alianças à esquerda política, como vem se tornando notório no Maranhão.

A oposição mais estruturada é a do PSDB nos Estados, fortalecidos pela força do podereconômico, financeiro e midiático, arrastando parte da classe média mais bem aquinhoada. Mesmo assim, sua estrutura de sustentação e alianças não é tão forte quanto o binômio PT-PMDB como eixo de sustentação de Dilma. O PSB, por sua vez, está sem alianças fortes nos Estados (a não ser aquelas com PSDB mas pouco favoráveis ao desempenho presidencial) e com pouco tempo de TV, além de isolado em mais de uma situação estadual.

Quando se realizarem as convenções, até 30 de junho, isso tem potencial real de alterar a situação das pesquisas eleitorais. Ao mesmo tempo, prepara a campanha de massa, pela TV e nas ruas, onde as mensagens respectivas se confrontarão. Só aí as pesquisas terão sentido finalista.

Aí entra outro componente, o projeto que cada força encarnará. As oposições já disseram a que vieram. De comum, Aécio Neves e Eduardo Campos centram ataque frontal a Dilma. Ela já foi declarada “persona non grata” pela grande mídia monopolista. Também partilham declarações bisonhas de que “manterão as conquistas sociais”, mas com um conjunto de sinalizações ao empresariado e ao mundo que as contrastam. Aliás, fazem mais campanha hoje em conciliábulos com corporações que junto ao povo.

O PSDB, concluiu sua “equipe”, parte de que a crise financeira e econômica “já está sendo superada”, principalmente nos EUA. E isso os leva a tentar retomar ofensiva no projeto para o país: forte acento da luta contra a inflação, reforçando o tripé macroeconômico vigente, para o que, mantido por suposto o câmbio flutuante, exige novo e firme ajuste fiscal, se necessário por lei, para “dar confiança” aos agentes econômicos, bem como uma reforma tributária “simplificadora do sistema” – nada a ver com progressividade dos tributos para nova onda de distribuição de renda aos assalariados. Visam a induzir nova onda de privatizações. Amarrando tudo, um realinhamento completo do país no plano externo, de modo a re-engatar o vagão na locomotiva da globalização hegemonizada pelos interesses norte-americanos.

Eles não temem “ser impopulares”, mas calam-se por completo sobre as consequências dessas medidas no que tange ao emprego, renda do trabalho e o investimento para um desenvolvimento autônomo. Faim-se na atração de investimentos estrangeiros e no livre mercado. Lixam-se para o papel do Brasil na América do Sul e Latina, sem falar nos BRICS. No plano da negatividade, dirão que faliu a experiência do que chamam “nacional-desenvolvimentismo” e um novo ciclo se abrirá, com uma “década disputada” no ciclo progressista da América do Sul. Melhor seria dizer claro, porque em campanha não há espaços para falácias: retomar a experiência dos anos 90 e considerar o ciclo atual de doze anos um mero interregno num mundo ainda comandado pelo poderoso sistema financeiro-midiático cujo vértice está nos EUA.

Até onde o PSB largará bandeiras históricas e acompanhará tal diagnóstico está por se ver. Houve interessante divisão de trabalho: enquanto Fraga está no jogo do PSDB, Pérsio Arida formou ao lado de Campos-Marina. No campo econômico, portanto, há um vazio a ser preenchido provavelmente por caminhos conservadores. No plano político, a mensagem se restringe a dizer que “o melhor líder sou eu”; ambos, Marina e Eduardo nem tem estrutura para alterar tal sistema em direção progressista, nem propriamente tradição de Eduardo tem muito a oferecer nesse quesito.

É um debate que dificilmente será escamoteado em meio a uma polarização frontal, pela TV e em debates. Avançar ou retroceder, essa a questão.

Para o campo Dilma, se apresenta o desafio de indicar as mudanças necessárias para dar continuidade ao atual ciclo. Quanto mais se avança nas mudanças, mais complexo se torna enfrentar os gargalos do desenvolvimento travado, para que a alavanca do crescimento econômico se mova do consumo de massas para a capacidade de investimento privado e público e se alcance novo arranque no desenvolvimento. O conjunto de obras e investimentos do governo, as contas nacionais e as defesas contra as vulnerabilidades permitirão a Dilma lançar uma mensagem de nova esperança.

Em síntese muito apropriada, a questão é empreender um conjunto de reformas estruturantes, democráticas, para destravar esses rumos, enfrentar as consequências da crise econômica mundial e a contra-ofensiva dos poderosos de sempre, e afirmar uma nação autônoma e mais civilizada. Bandeiras, clareza e determinação não faltam a Dilma.

A questão é como enfrentar isso na correlação de forças do país e do mundo e sinalizar um segundo mandato. No fundo, trata-se de pactuar e repactuar politicamente os desígnios do futuro com as forças econômicas, políticas e sociais brasileiras. O mais importante é considerar que isso só pode ser feito com um projeto claro, e alinhar a esquerda política e social num grande bloco político-social que sustente rumos para uma ampla coalizão de forças. Isso sim seria Dilma e PT constituírem uma hegemonia – um projeto, liderança política de uma ampla aliança, mobilização das forças fundamentais de sustentação. Hegemonia assim não seria unipartidária, e sim mais condizente com a realidade e a história do Brasil.