Novo ciclo demanda reposicionamentos e estratégias para a construção partidária

Está em curso uma mudança de fase na vida do país: o ciclo dos governo progressistas se esgotou e outro busca nascer, cujos contornos são ainda indefinidos. É preciso ser consequente com essa constatação. O Brasil e as conquistas sociais do povo estão em derrocada acelerada. Há como uma “contrarrevolução” em curso, que avança ferozmente contra tudo que se alcançou em longas décadas de luta, desde tópicos nascidos com o ciclo da modernização brasileira a partir dos anos 1930, e que abate todo o edifício político-social erigido com base na Constituição de 1988 ameaçado de implosão com crescentes violações do Estado democrático de direito.

A maré baixa subtrai perspectivas para a maioria da nação. Sobretudo para a esquerda, o melhor é considerar que se está apenas no fim do começo – o propósito último da ofensiva em curso é garroteá-la, pela tentativa de desmoralização, por processos judiciais facciosos e pela inadimplência

Nesse quadro, são necessários reposicionamentos na orientação política, nas relações com os trabalhadores e segmentos populares, na interação maior com as forças progressistas e democráticas e até mesmo forjar reconfigurações de caráter frentista e não partidistas para poder se apresentar como alternativa eleitoral. Continue lendo

Partido: métodos, concepções e linha

8º Encontro

Um interessante debate vem tomando forma e corpo, fruto da onda de choque do 8º Encontro sobre Questões de Partido, mas também dos inúmeros problemas que confrontam a construção partidária no cotidiano.

Trata-se da famosa questão dos métodos e estilos de direção, sobre que tanto já se escreveu. É de fato questão importante, que não cessa de se repor a cada patamar de avanço da atividade do partido. Nem sempre, porém, ela é tratada em toda a inteireza.

Sabe-se que métodos de direção podem travar a aplicação da rica linha política e de construção partidária e, de fato, isso ocorre com uma frequência inquietante ainda hoje. A questão de pôr a política no comando, unir com persuasão o coletivo num ambiente de total liberdade de opinião, não transformar contradições secundárias em principais, respeitando as instâncias e suas decisões coletivas, dando voz à militância e mantendo-a, para isso, organizada etc, já estão há muito tempo incorporados ao arsenal de métodos de direção e, mesmo assim, comprova-se sempre que sua ausência causa prejuízos consideráveis à eficácia da ação dos comunistas e construção partidária.

O PCdoB, sem dúvida, deu grande salto de conteúdo em sua maturação. O papel e lugar político dos comunistas foi firmado em bases superiores com o Programa Socialista, vértice de sua identidade, ideologia e política transformadora para o país, arma para a luta política cotidiana sem perder de vista o objetivo essencial de sua razão de existir. Em funcionalidade com ele, o Estatuto renovou o arsenal da vida partidária, e a Política de Quadros realizou uma síntese notável de avanços para a contemporaneidade com base na rica experiência de 92 anos de existência do PC do Brasil. A linha de estruturação partidária igualmente se tornou mais complexa e íntegra. Tudo isso enriquece os métodos.

Mas isso não pode significar que a assimilação e apropriação desses preceitos sejam uniformes em toda a extensão partidária. Por isso o debate é reincidente, tanto mais agudo quanto se trate de colocar em patamar superior a organização política neste ou naquele lugar, e assume formas particulares a cada situação de ultrapassagem de fronteiras.

Entretanto, muitas vezes se atribui a métodos mais do que é permitido. Métodos inferem, como base, questões de concepção. Se esta é pouco compreendida, ou assimilada ou respeitada, se não se leva em conta a linha política e de construção partidária, não há métodos capazes de salvar a situação.

O atual estágio do partido, após o 13º Congresso e o 8º Encontro Nacional referido, indica duas formas particulares que assume hoje o debate sobre métodos de direção, envolvendo uma propriamente de concepção a firmar e duas propriamente de métodos a deslindar.

A concepção que “faz falta aos métodos”, por assim dizer, é a de que não se alcançará outro patamar de construção partidária sem conjugar as linhas de acumulação de forças já famosas, e assentá-las em dois trilhos, os da linha política traçada em conjugação com a linha político-organizativa. E mais: sem que todos os quadros, atuem onde atuarem, não liderarem ambas as linhas perante todo o partido. Essa a consideração autocrítica feita no 13º Congresso, que tem os quadros dirigentes de todos os níveis e papeis como protagonistas. Se isso não amadurece como concepção e prática ao nível das direções, os métodos de direção não os refletirão e não se ultrapassam fronteiras. No fundo, isso quer dizer que o maior capital que temos os comunistas será sempre o papel do partido, sua força, tenacidade, clareza e convicção coletiva, mais que os papeis destacados que cada um de seus membros possa ter alcançado.

De método propriamente dito, o que mais vai se destacando no debate, visto na sua essência, é que cada vez mais a política de quadros precisa se instituir como centro da direção organizativa. Isso é mais fácil de dizer do que conceber todas as suas implicações. Essencialmente, precisa-se dirigir mais gente, compor e escalar a rica estrutura de quadros em seus papeis diversificados para não só assegurar a integridade partidária como também sua ação política, social e cultural na sociedade. Ou seja, bem vistas as coisas, no partido dirigimos pessoas, para as quais se precisa traçar projetos políticos e papeis definidos, levando em conta suas especificidades, articulando-os num todo coerente e eficaz. Daí que o papel específico da organização precisa se dar conta da centralidade da política de quadros e, como já se disse, todos os quadros de direção precisam liderar o discurso da construção partidária em ligação com a linha política. Quem dirige instâncias são as demais instâncias com os propósitos decididos por todos e não é tarefa apenas da política de organização mas de todos os dirigentes.

Isso conduz à segunda questão de métodos: o excessivo delegacionismo de instâncias verticalizadas. Quer dizer, as decisões são processadas de alto a baixo por instâncias, uma delega à sucessiva na escala vertical transmitir os rumos da ação para as organizações partidárias. Isso não é errado em si, o partido é de fato um sistema de organizações partidárias coordenadas e centralizadas de alto a baixo na ação política. Mas torna distante os dirigentes dos militantes de base ou do povo, pode diluir ou mascarar, na cadeia de transmissão, o reconhecimento das dificuldades e potencialidades da orientação política.

A sociedade, por arte das tecnologias de informação, se está fazendo mais horizontal em suas interações e relações, os papeis sociais se combinam mais na condição de trabalhadores, jovens e mulheres que confluem cada vez mais para um único sujeito social. Isso solicita mais horizontalidade na troca de experiências políticas e sociais. A implicação organizativa disso é muito grande. Exemplos destacados disso são os Fóruns de Movimentos Sociais, com sua transversalidade para dar conta de atuar em complexa sociedade civil, combinando a atuação dos movimentos sociais propriamente ditos e mais estruturados, com a intervenção articulada em múltiplas causas que caracterizam a luta social hoje. Outro exemplo, mais diretamente organizativo, são os Fóruns de Macrorregião instituídos na política organizativa: quanto mais o partido se expande, mais difícil imaginar como dirigi-lo sem o concurso dessa forma organizativa.

O mesmo sucederá com os Fóruns de Quadros de Base apontados no 8º Encontro. O desenho organizativo hoje em qualquer capital, notadamente nas maiores, deve ser cada vez mais multiforme para abarcar as múltiplas formas de ação dos militantes na sociedade. Junto a organizações de caráter territorial e de categorias, emergem muitas formas possíveis de organizar a militância com coletivos de cultura, ciência, jovens, mulheres, além de fóruns e organizações de caráter especial, cabíveis no Estatuto e nem sempre cabíveis apenas em bases territoriais. Por isso, além de uma estrutura de comitês auxiliares de variados tipos nas grandes cidades e principalmente capitais, e junto com elas, essa forma organizativa de Fórum de Quadros de Base permite mais horizontalidade na generalização da experiência dos militantes, aproxima as instâncias dirigentes das bases organizadas e permite o passo decisivo proposto pelo histórico 7º Encontro Nacional sobre Questões de Partido: conferir a cada base organizada um projeto político definido, um quadro dedicado a articular a militância respectiva nesse rumo, uma pauta e agenda regular de ações, um controle também regular das dificuldades e êxitos que se apresentam. Aliás, esse é outro dos propósitos centrais da política de quadros – dar visibilidade e valoração aos quadros de base que enraízam o partido no povo e formam o esteio da ação dos comunistas.

Dificilmente o partido dará um salto de qualidade política e organizativa sem esse passo, destinado a enraizar e capilarizar a organização dos comunistas, constituir redutos políticos e eleitorais de influência. No fundo, trata-se de uma questão de maturidade do pensamento e prática do coletivo comunista. Ligam-se não só à linha traçada como também à concepção de um partido comunista de quadros e de massas de militantes, filiados, amigos e eleitores, como corrente de pensamento e ação na sociedade, lutando pela hegemonia de suas ideias programáticas e valores culturais. No seio dessa formação, a estrutura de quadros é o âmago do Partido Comunista, que governa toda sua estrutura, e a política de quadros é o vetor para isso.

Confluem aí, portanto, concepções e métodos, implicados na linha política e de construção partidária. Como se vê, maturar isso é um processo prolongado que envolve uma luta de ideias no interior do partido. O que chama a atenção é que nem sempre os preceitos da política organizativa do PCdoB são tratados com a ênfase devida. Por mais que se aplique a situações concretas diferenciadas, há um propósito permanente nela, e o melhor é debater francamente como e em que ritmo implementá-la. O que não se pode é contorná-la por desconhecimento, ou por não debatê-la abertamente ou, ainda, por resistências surdas que atrasam o papel do partido. 

PCdoB-SP – ponto luminoso na trajetória

Foi um grande orgulho para a direção nacional o passo dado pelo Comitê de SP em eleger Orlando Silva Jr novo presidente, em substituição a Nádia Campeão que se licenciou devido às condição de vice-prefeita da cidade.

Registrei as inúmeras provas superadas pelo PCdoB paulista. A chacina da Lapa em 1976, a derrota política em plena redemocratização em 1986 e, mais recentemente no início da década de 2000, os retrocessos no espaço político duramente conquistado, marcaram a trajetória. À Chacina respondemos com a reorganização e a luta democrática; em 1986, um novo marco foi alcançado na direção estadual, com Olival Freire, baiano, como líder, ao qual sucedi na presidência de 1991 a 2001.

Nádia Campeão liderou a última retomada. De 2004-2006 até hoje, se recuperou espaços, prestígio e influência política, superando os patamares anteriores. Justas foram as homenagens ao trabalho dessa companheira que honra todo o PCdoB no país.

O momento foi de celebrar as retomadas, o empenho dos comunistas em se reerguer a patamares mais altos e maduros.

Por isso, o fato de sábado passado foi um ponto luminoso na trajetória plena de raízes dos comunistas em São Paulo. Isso, mais o alto compromisso e qualidade dos quadros comunistas no Estado, faz do PCdoB de SP um exemplo de unidade laboriosa e vigor.

Orlando Silva Jr, agora, liderará mais um arranque político. Ombreará com a nova geração política ascendente em São Paulo, com o brilho de craque político, respeitado líder entre seus pares e entre as forças políticas, comunista de fibra que enfrentou de cabeça erguida um dos ataques mais ferozes do anticomunismo nativo.

Houvera sido eleito, semana anterior, Jamil Murad presidente municipal. Saúdo esse binômio de Permanência e Renovação, chave da Política de Quadros madura e avançada do PCdoB.

A direção nacional tem plena confiança na direção estadual paulista. Mais que tudo porque ela foi provada na trajetória, que deixa como lição essencial que direção partidária é uma construção coletiva. Hoje cabe a Orlando construir-se como o líder desse processo; mas todo o Comitê Estadual precisa construir Orlando como o vértice da nova direção, construtor permanente da unidade e arrojo dos comunistas paulistas.

Grande é esse exemplo para todo o país: ajustes de direção feitos com perspectiva política, ousadia e maturidade. Isso, ao fim e ao cabo, é uma grande contribuição ao papel nacional do PCdoB na cena política do país.

Parabéns, comunistas de São Paulo.

Dynéas Aguiar, 80 anos

Devemos homenagear as pessoas com as quais aprendemos tanto, porque serve não só nem talvez principalmente ao homenageado, mas a todos nós, na forma de lições que nos são legadas.

No caso de Dynéas Aguiar, que completa 80 anos dia 30 de janeiro, isso é muito concreto, o que pede registros singulares de cada um de nós. Sessenta deles foram dedicados ao trabalho do Partido Comunista do Brasil.

Há dez dias, recuperado de sua afecção crônica, ele ligou imperativo e animado: “precisamos marcar reunião para retomar o trabalho interrompido”. Mas o principal da ligação era outra coisa: “Vocês me deram uma ajuda de custo para os medicamentos. É hora de cessá-la, porque já os consigo no sistema público. Esse recurso serve melhor ao partido”.

É uma lição da abnegação de Dynéas: o partido em primeiro lugar.

Há um outro registro, que me é muito caro e pessoal. Dynéas morou comigo em tempo de mais uma reorganização do partido, após a Chacina da Lapa e um pouco antes da legalização do partido. Convivi com um homem simples, culto, disciplinado ao extremo, solidário, humano – quando da morte súbita da pequena netinha, a sua dor sincera nos contagiou.

Quantas lições de integridade de vida!

Mais um. Num tempo determinado, Dynéas julgou melhor afastar-se do trabalho de direção. Propôs adotar militância de base, em Campos do Jordão, São Paulo. Foi uma dura prova para ele, nas condições daquele tempo, ou da compreensão que tínhamos – era ainda tempo de alguns dogmas e restrições férreas. A vida mostrou que ele mantinha a mesma consciência e eu sustentei que ele faria novo percurso em outra situação, mantendo os mesmos compromissos com o partido. Foi uma celeuma! Não havia a compreensão na época que temos hoje sobre a política de quadros: liberdade de pensamento, não imposição de opções. Errei no episódio: apesar de defender tal opinião não logrei mantê-la integralmente no momento; faltou-me discernimento e até mesmo maturidade de enfrentar algo que nos desafiava como renovação de concepções e práticas.

Eis aí uma lição indireta propiciada para nossa política de quadros. Atuamos com homens livres, comprometidos por consciência; não adianta impor nada, em determinadas condições, nem fazer juízos sumários ou doutrinários sobre o compromisso dos quadros. Ao contrário, ter uma visão estratégica de seu papel, de seu aproveitamento na luta em diferentes circunstâncias.

Dynéas fez-se líder em Campos do Jordão, secretário municipal de cultura e vice-prefeiro prestigiado e querido. Hoje, no município, queremos vencer as eleições a prefeito.

De onde provém essa força de Dynéas? Como se forjou? Como pode se manter até os 80 anos atuais? Como pode se forjar nos quadros nas condições atuais?

São as muitas perguntas que querem ser respondidas pelo partido, apreendendo lições.

Consciência, em primeiro lugar. Consciência histórica, revolucionária, compromisso integral com ela. No caso de Dynéas, foi essencialmente a de um autodidata. Sempre estudou o marxismo e sempre manteve uma visão estratégica do projeto partidário, o que está na base de seus compromissos e coerência.

Mas a consciência teórica nem sempre se transforma em compromisso ideológico maduro. Dynéas o forjou em condições outras, até extremas, próprias de seu tempo de jovem: o partido em primeiro lugar, até com o preço da vida se necessário. Foram forjados sempre a partir da condição de militância. O ideal do partido como caminho. Isso significa o compromisso estratégico com a corrente comunista.

Mas atuam nesse caminho características pessoais, de integridade, de ética e valores, de disciplina e coletivismo, que cada um traz consigo e aprimora na vida partidária. Isso é notável: tenho certeza de que Dynéas responderá à indagação “de onde provém essa força” de maneira direta: “vem do Partido Comunista do Brasil!”. Isso é exato, mas não é natural; é revelador da concepção de mundo que cada um de nós tem.

Como forjar e manter características desse tipo – consciência, compromisso estratégico, integridade – num tempo em que predomina a pequena política do cotidiano, tempo em que se repõe a cada passo o espontaneísmo e corporativismo que não ascende ao nível de um projeto político nacional, ou então a pesada carga de pragmatismo que assola a política, desmoralizada por força de uma luta política e ideológica incessante?

Esse é o esforço permanente do PCdoB. Esse é o desígnio da política de quadros. O que nos leva a dizer: nunca perder de vista a perspectiva a estratégica, a vocação para a grande política transformadora, o compromisso com uma perspectiva partidista transformadora, com atitude militante.

Isso é o que faz de nossa luta pelo socialismo não apenas – embora essencialmente – um projeto político, como igualmente um ideal de vida, uma vida a serviço de ideais.

Não vai se repetir a mesma trajetória de Dynéas Aguiar, mas a substância é a mesma, é a ela que queremos promover nas condições modificadas do tempo atual.

Essa a essência das lições que retiramos do seu exemplo. Cada um de nós poderia aduzir uma série de depoimentos pessoais, pois é muito longa e profícua sua participação na vida partidária. Digo simplesmente, de forma coletiva, que cada um de nós se daria muito por satisfeito se pudermos chegar aos 80 anos com a mesma coerência, dedicação e compromisso com a causa do socialismo, do povo trabalhador, da nação e da democracia.

Singelamente, esta é a homenagem, apesar do registro pessoal, que lhe é prestada pelo Secretariado Nacional do partido, de nossa Escola nacional, de toda a direção estadual do PCdoB.

Dynéas Aguiar, você é muito importante para nós. Obrigado por seu exemplo.

Veja também:

http://grabois.org.br/portal/cdm/noticia.php?id_sessao=72&id_noticia=3021

http://www.vermelho.org.br/tvvermelho/noticia.php?id_noticia=144265&id_secao=29

Nasce Estudos Estratégicos do PCdoB

Em entrevista ao Portal da Organização do PCdoB, Walter Sorrentino, secretário nacional de Organização do Partido, explica o que é e qual será o conteúdo da publicação “Estudos Estratégicos do PCdoB”, veículo eletrônico lançado nesta segunda (7) com o objetivo de organizar e compartilhar conteúdos relevantes que subsidiem o estudo, reflexão e elaboração dos quadros de atuação nacional.


Os “EE”, como estão sendo chamados, abordarão temas de ponta ligados ao Brasil e ao programa partidário, além de temas teóricos de fronteira. “É inédito no partido. Quer dizer, ‘injeção na veia’ para os quadros partidários ”, garante Sorrentino. 

Acompanhe a seguir a entrevista na íntegra:

Portal da Organização: Walter, o que será “Estudos Estratégicos”?
Walter Sorrentino: A Política de Quadros do 12º Congresso é enfática quanto à necessidade de os quadros se capacitarem a guiar-se de mote próprio em temas estratégicos, no rumo programático. As responsabilidades ampliadas do PCdoB perante a nação, e a extensão de suas fileiras militantes bem como da estrutura de quadros, a complexidade crescente da construção partidária, demandam instrumentos que possibilitem organizar a ingente luta pela ampliação e aprofundamento de conhecimentos e pensamento crítico.

Portal da Organização: Mas essa é uma tradição dos partidos comunistas, inclusive o nosso…
Walter Sorrentino: Sim, os quadros políticos do PCdoB são sempre chamados a se confrontar com o esforço pessoal, sistemático e organizado pela sua formação pessoal. Mas há um diferencial: cada vez mais, entre os critérios de promoção dos quadros, comparecerá também a capacidade de dominar o programa partidário em correlação com a luta pelo novo projeto nacional de desenvolvimento. Porque a influência do PCdoB e suas responsabilidades perante a nação são maiores que nunca.

Portal da Organização:
Qual o diferencial de “Estudos Estratégicos”?
Walter Sorrentino: Ele está voltado diretamente para os quadros com responsabilidades nacionais. Estudo organizado, com temas de ponta ligados ao Brasil e ao programa partidário, além de temas teóricos de fronteira. Tudo isso organizado em dossiês sobre responsabilidade de pesquisadores também de ponta sobre o tema. Já pensaram? É inédito no partido. Quer dizer, “injeção na veia” para os quadros partidários organizarem o estudo.

Além de ser singular pelo público que almeja em ligação direta, é também pelos temas e formato, e ainda pelo compromisso que for capaz de emular e consolidar com cada um. Ele se organizará em diversas seções e terá periodicidade compatível com o cumprimento de seu plano editorial até o 13º Congresso do PCdoB em 2013. A cada tema um dossiê, sob responsabilidade de um curador, articulando marxismo, programa socialista do PCdoB e desafios brasileiros para um novo projeto nacional de desenvolvimento. Legal isso, não?

Portal da Organização: Mas o público é limitado… Não é uma injustiça?
Walter Sorrentino: Não, ele será distribuído diretamente aos quadros da rede nacional, mas será publicizado oportunamente no Portal da Organização e no sítio da Fundação Maurício Grabois. Assim, estará à disposição também de todos que compreendem a inelutável centralidade da luta teórica como a parte mais complexa e elevada da luta política de classes de nossos dias.

Portal da Organização: Como se relaciona a proposta aos demais instrumentos com o mesmo objetivo?
Walter Sorrentino: EE tem sua originalidade singular, como já disse; é inédito nesse sentido. Agora, é mais um dos instrumentos voltados à formação. Ele soma com os demais, cada qual com sua especificidade. O que dá liga a tudo é a nossa teoria e nosso programa socialista.

Portal da Organização:
Como você encara este momento de nascimento do EE?
Walter Sorrentino: Puro regozijo. É um projeto de construção complexa, envolve muita gente e muito talento, além de conhecimentos teóricos. Por isso, inclusive, “atrasou”. Mas vingou e nasce dia 7 de novembro. A Secretaria Nacional de Organização e seu Departamento Nacional de Quadros João Amazonas estão tendo um trabalho de articulação intenso, junto com o Conselho Editorial que inclui, além de mim e Fabiana Costa, o Bernardo Joffily, Nereide Saviani e José Carlos Ruy. Esses três são nossas “feras”. E mais o trabalho indispensável da Ada Gasparini que nos secretaria a todos.

Portal da Organização: Um momento importante também pelos graves ataques de que o PCdoB vem sendo alvo…
Walter Sorrentino: É, o PCdoB cresceu muito e os adversários se deram conta… Quer dizer, neste momento o Brasil avança no enfrentamento da crise e Dilma consolida sua autoridade, inclusive abrindo caminho para alterar o pacto político predominante nos últimos quase 20 anos no tocante aos interesses financeiros que gravam a nação. Isso se vingar promete uma hegemonia mais duradoura das forças que estão no governo. Então, num quadro desses, cresce uma outra força de esquerda, o PCdoB, sério e conseqüente… E põe conseqüente nisso, porque todo nosso programa, nossa linha política e nossa política organizativa é a mais diferenciada do país: tem identidade, base teórica, prática consoante com o que diz. 

Portal da Organização: Então, o nascimento de EE é mais uma amostra de que esses ataques não nos farão perder o gume de nosso enfrentamento político na atualidade brasileira frente à crise e apoio a Dilma. Também não vamos nos desviar do caminho pelo qual optamos: renovar concepções e práticas de partido, abrir, crescer, fortalecer os quadros e a vida militante.
Walter Sorrentino: Mas sabem? Minha reflexão vem de antes disso. Vinte anos após a derrota do socialismo, com os vertiginosos acontecimentos que se seguiram à queda do Muro de Berlim, o PCdoB deu passos vigorosos rumo à sua renovação. Desde o histórico 8º congresso, de 1992, e dos subseqüentes (1997, 2001, 2005 e 2009), todo um programa de trabalho nesse sentido foi levado a cabo. 

Destaco retroativamente a renovação programática de largo alcance em 2012 (base dos êxitos partidários nestes anos), a justa e vitoriosa orientação política e a corajosa decisão da 9ª Conferência em 2003 – integrar o governo Lula com a qual colaboramos com jornadas eleitorais desde 1989. 

Paralelamente, chama a atenção o ajustamento do pensamento sobre a construção partidária acompanhando pari passu esses desenvolvimentos – política e organizaçÃ
£o se integraram decisivamente, em funcionalidade com o pensamento estratégico. O Estatuto aprovado em 2005 e, particularmente, a Política de Quadros desenvolvida em 2009, são grandes inovações nas concepções e práticas de partido, aliás tema tratado pelos maiores partidos comunistas do mundo. 

Portal da Organização: O PCdoB não se atrasou nesse programa de trabalho!
Walter Sorrentino: Com certeza, e a situação brasileira propiciou. O PCdoB tem vocação de vanguarda, moderna, cada vez mais inimigo de velhos hábitos e métodos antiquados. EE é parte disso. 

Portal da Organização: Quer dizer, dia 7 de novembro nasce o primeiro dossiê?
Walter Sorrentino: É, com o tema sobre economia, o 1º dossiê intitulado “O comércio internacional e uma abordagem da questão nacional e da transição” foi elaborado pelo curador do tema Elias Jabbour nosso combativo, jovem e ardoroso estudioso do assunto. Ele nos oferece uma panorâmica que permite desvendar a importância estratégica de âmbito econômico, geopolítico e diplomático que o tema abarca, por isso mesmo central para o projeto nacional. 

Portal da Organização: Sendo inédito, também vai exigir transpor desafios inéditos. Qual mais difícil?
Walter Sorrentino: São muitos. Mas talvez, destacaria a atitude pessoal dos quadros perante a exigência de estudar. A luta pelo conhecimento, pela consciência crítica, por apropriar-se da teoria é sempre uma luta muito pessoal. Sem a motivação e paixão do indivíduo pelo conhecimento, não dá. Volto a dizer: me parece que isso precisa partir da constatação do papel do PCdoB na atualidade, os desafios da luta política, cultural, social na sociedade, e a capacidade de ser quadro de referência em cada uma dessas lutas. Não basta o compromisso – indispensável -, a combatividade. É preciso também conhecimentos!

Portal da Organização: Então temos uma nova alvíssara?

Walter Sorrentino: É, uma “noticia alvissareira”, essa é uma expressão forte entre nós… Sabe? A data de 7 de novembro é feliz para nascer o EE. É a data gregoriana que pôs o nome de Lênin no panteão dos maiores revolucionários da história humana, liderando a Revolução Soviética. Pela primeira vez na história, os oprimidos venciam e ousaram instituir o esboço de uma sociedade sem explorados nem exploradores. Lênin é o patrono maior de Estudos Estratégicos, porque nosso partido é marxista e leninista. Então, estamos todos muito orgulhosos desse passo.


Fonte: Portal da Organização