Portinari coloca negros e negras na sala de jantar das elites 

Com obras que retratam o universo negro, rural e periférico, exposição no MASP sobre Candido Portinari segue até 15/11

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Colona sentada, de Portinari – 1935. / Reprodução/Instituto de Estudos Brasileiros da USP, Coleção Mário de Andrade, São Paulo – SP.

Renata Felinto *

Candido Portinari pode ser considerado o artista modernista por excelência do nosso país. Dominou todos os cânones das Academia para depois desconstruí-los à luz das novas formas de representação trazidas pelos movimentos de vanguarda europeia do início do século XX.

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A Paz é criança, a Guerra é fera

Feliz 2012, ou pelo menos, bom trabalho para todos e todas. Dúvidas houvesse de que o ano começou de fato hoje, em SP ontem havia centenas de milhares de pessoas nas ruas. Bykes, corredores, parques cheios, trânsito… Hoje, nas ruas, trânsito total. Enfim, o ano começou.

Mas há alegrias e suspiros possíveis. No Memorial da AL uma exposição extasiante. Guerra e Paz, de Portinari, foi recuperada por um excelente trabalho de equipe nacional, contou com apoio da ONU e do governo brasileiro. Mas, além do trabalho técnico de alto nível, sobressai o papel de João Cândido Portinari, que viu a ocasião e permitiu aos brasileiros o contato com um dos maiores expoentes da pintura mundial no século 20, nosso caro Portinari.

Que posso dizer da obra mais que três gigantes intelectuais já disseram?

A escritora Rachel de Queiroz:

“Quando nós, intelectuais Brasileiros, desanimamos de fazer alguma coisa que atravesse a grande muralha de silêncio atrás da qual vivemos confinados, devemos pensar em Portinari. Ele sozinho, à força de talento e trabalho, conseguiu irromper a crosta de isolamento, de ignorância, de desconhecimento que nos envolve, mostrando em Paris e New York , qualquer coisa de realmente valiosa feita aqui. Machado de Assis, Villa-Lobos, Portinari. Pelo menos esses três já nos deixam tranquilos, pois à sombra deles podemos ficar certos de que há alguém para representar o Brasil”.

Antonio Cândido, biógrafo de Portinari:

“Portinari  marcou, com seus Retirantes, seus Meninos de Brodowski, seus quadros de lavradores o abismo que ainda existe entre a natureza brasileira, entre o país brutalmente grandioso que nos surge à mente quando dizemos, como se disséssemos palavra mágica, “Obrasil”, é a vidinha que montou no Brasil o homem imitador da Europa e dos Estados Unidos. Sua pintura daqueles tempos é um protesto contra essa falta de intimidade que existe entre nós e aquilo que se chama realidade brasileira. É um clamor contra o fato de ainda estarmos tão superpostos à paisagem e não vitoriosamente fincados nela, como estão os pés dos pretos, dos caboclos, dos tapuias, dos cafusos, dos curibocas e dos imigrantes”.

E Jorge Amado:

“Cândido Portinari nos engrandeceu com sua obra de pintor. Foi um dos homens mais importantes de nosso tempo, pois de suas mãos nasceram a cor e a poesia, o drama e a esperança de nossa gente. Com seus pinceis, ele tocou fundo em nossa realidade. A terra e o povo brasileiros – camponeses, retirantes, crianças, santos e artistas de circo, os animais e a paisagem – são a matéria com que trabalhou e construiu obra imorredoura”.

Sempre há o que acrescentar. Guerra e Paz é um manifesto dos brasileiros ao mundo. A Guerra é fera, é perda, é sofrimento, é morte. A Paz é criança, é folguedo, é alegria, é confraternização, é mestiçagem. E, com o perdão da palavra, acrescento ao grande panteão dos brasileiros universais citado por Rachel de Queiroz, os imortais Oscar Niemeyer e Edson Arantes do Nascimento, Pelé. O Brasil dá sua contribuição à humanidade, com obras que serão lembradas para sempre nos próximos milênios. Viva Portinari, o senador “furtado” pelo Partido Comunista do Brasil, vitorioso nas urnas, perdedor no “bico de pena”. Parabéns a João Cândido e ao trabalho da fundação que dirige. Nenhum brasileiro deveria deixar de ver Guerra e Paz de Portinari.