500 anos de luta (por PCdoB)

Partido Comunista do Brasil, publicado em 01/05/2000

Na construção de um povo, uma cultura e uma nação novos O dia 22 de abril de 2000 assinala os 500 anos do desembarque de navegadores portugueses no litoral da Bahia. O Partido Comunista do Brasil comemora esta data que marca o início da formação do Brasil e do povo brasileiro com a convicção de que este é um momento privilegiado para a reflexão sobre a nação e as dificuldades que a atual conjuntura mundial opõe à sua afirmação soberana.

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"O povo brasileiro é foda… O brasileiro quer sonhar"

Renato Meirelles, do instituto Data Popular, é reconhecido como um dos melhores estudiosos dos novos comportamentos das camadas sociais que ascenderam economicamente nesta década e meia. Além de ser um grato amigo, arguto analista, com uma boa formação política. Vejam a entrevista dada a El País no dia de hoje.

“É um erro confundir a insatisfação com Dilma com apoio a sua saída”.

“A maior crise do Brasil é a de falta de perspectiva. Com o Brasil, [estou] otimista. Porque o povo é foda, transforma limão em limonada, não vai parar de comer o churrasco no domingo, o brasileiro quer sonhar”.

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Renato Meirelles aprendeu a enxergar o Brasil pelos olhos dos mais pobres. Sua empresa de pesquisa, o Data Popular, nasceu para ler o comportamento desse grupo, que representa, na verdade, a maioria das famílias brasileiras – 66% vivem com pouco mais de 2000 reais mensais. Essa proximidade o ajudou a antecipar diversos movimentos na economia – como a explosão da classe C a partir de 2004 – e na política – ele previu no início de 2013 que haveria uma pressão popular cada vez mais forte por serviços públicos de qualidade, mote das manifestações de junho daquele ano. Neste momento, ele enxerga o jogo de lideranças nebuloso, com um Governo e uma oposição que não conseguem apresentar perspectivas de futuro

Pergunta. Tivemos uma semana de estresse, com o Congresso desgovernado, e um debate explícito sobre impeachment. Como isso está na cabeça dos brasileiros?

Resposta. A decisão do futuro do país está na mão de uma briga de torcida e o brasileiro percebe isso. Não se pode colocar a estabilidade do país abaixo do interesse político. Ainda que as pessoas estejam insatisfeitas com o Governo elas se perguntam qual é o real interesse de um impeachment. É um erro confundir quem está insatisfeito com o Governo com apoio à saída da Dilma.

P. Os políticos passaram uma sensação de insegurança, o que fez empresários virem a público pedir bom senso e entendimento.

R. Estão todos em busca de um consenso, de entendimento. A fala do Michel Temer – precisamos de alguém que una o Brasil – contribuiu. As demonstrações raivosas, de ira, atiçam os guardiões do bom senso. O nervosismo do Temer ao falar na quarta-feira mostrou que temos de dirigir a classe política. Ninguém enxerga a porta de saída nem na situação nem na oposição, e essa guerra impossibilita o bom senso e prejudica a solução da crise política que paralisa a economia.

P. Nesse flerte com o impeachment, em que a oposição apoia em um momento, recua, volta a apoiar. Como é que funciona para o eleitor?

R. Primeira coisa para entender. Nas pesquisas, quando você pergunta sobre manifestações. “Você lembra de passeatas que aconteceram nos últimos tempos, que juntou muita gente na rua, não só na sua cidade mas no Brasil inteiro? A grande maioria das pessoas lembra de 2013. Estou falando muito mais a classe C e D. Eles não têm as manifestações deste ano como referência. Estamos há meses sem manifestação, porque se tentou radicalizar para o impeachment naquela conjuntura e aí foi perdendo força. Por que estamos voltando com isso agora? Porque além da Lava Jato ter ganhado novas proporções, do ponto de vista da comunicação com a opinião pública o Governo não fez nada para explicar, por exemplo, o ajuste fiscal e a crise econômica. A última passeata [de abril] teve menos gente do que a penúltima [março] e isso deixou uma sensação de que as coisas estavam resolvidas para o Governo. E não estavam, como não estão resolvidas desde 2013. Pensar no que levou as pessoas a reelegerem este Governo é fundamental pra entender o que a população quer e acredita. E o Governo tinha que ter aprendido. Por outro lado, a oposição tinha que refletir em como ela conseguiu perder uma eleição em que 71% queriam mudança. O que também não é uma coisa trivial…

P. A oposição não está conseguindo ganhar o terreno que o Governo está perdendo?

R. Se uma pesquisa de intenção de voto mostra, por exemplo, que o senador Aécio Neves estaria na frente se a eleição fosse hoje, é muito mais por ser o nome mais conhecido de oposição. Ele é o ímã dos insatisfeitos. Mas está longe de conquistar o coração e mente de pessoas. Muito mais longe de conquistar as pessoas que estão órfãos do presidente Lula.

P. Temos muitos órfãos?

R. Temos mais órfãos do que oposicionistas.

P. Órfãos do Lula?

R. Órfãos de uma liderança que defenda o estado de igualdade de oportunidades.

P. A raiva contra Dilma é somente pela economia?

R. Se a gente for olhar alguns dos grandes indicadores econômicos como desemprego, como reservas internacionais. Ou a escolaridade média do trabalhador. Na prática nós temos indicadores melhores hoje do que tínhamos antes, em 2008, por exemplo, ano de outra grande crise. O que diferencia os dois momentos? É não saber para onde estamos indo. O Brasil tem uma crise econômica? Evidente que tem. É só sair na rua. O Brasil tem uma crise moral e ética? Claro que tem. São as maiores do Brasil? Não. A maior crise do Brasil é a de falta de perspectiva. O brasileiro não sabe para onde vai e não consegue enxergar nem na situação nem na oposição, uma luz no fim do túnel. Isso que vai fazer diferença em todo o resto. No limite, o Lula chamava para conversar, como em 2008 “Ah meu amigo. Estão dizendo pra você guardar o seu dinheiro e não gastar. Se você não gastar, o seu primo que trabalha na fábrica Brastemp vai ficar desempregado…”

P. A lição popular de economia…

R. O governo tinha um reason why forte para essa condição de futuro. Só que ele está desde o segundo turno sem falar ou fazer algo que caminhe nesse sentido, enquanto o povo está fazendo seu ‘ajuste fiscal’ doméstico: rodízio de contas pra pagar, bico extra, cortando despesas… Não se explicou o que era o ajuste fiscal. E um monte de medidas que efetivamente poderiam ser muito positivas, não foram vistas por dessa forma por causa disso. Por exemplo, fraude no seguro desemprego. O seguro desemprego precisava mudar não por causa do ajuste fiscal. Por causa das fraudes!

P. O fato da Dilma não ter pedido desculpas, dizendo “erramos ao estender uma fórmula de economia”, pesa?

R. Temos que entender o que é a tradição cristã do Brasil. Os cristãos valorizam quem reconhece o erro. O Brasil valoriza quem joga limpo e pede ajuda. Seria muito bom que a Dilma conseguisse falar para a sociedade que reconhece o que as pessoas estão passando. Isso seria bom pra ela, e seria bom para o país. Do mesmo jeito que a oposição tinha de dizer claramente qual a proposta dela para sair deste momento.

P. O que é pior para a população da base da pirâmide: Lava Jato ou é a inflação que comeu o salário dele?

R. A gente tem pesquisado muito esse assunto no Data Popular. E basicamente vemos que a corrupção acaba sendo vista como a grande responsável pelo aumento de preços, por exemplo… por que a gasolina aumentou? Na cabeça do povo a gasolina aumentou porque tinha roubo na Petrobras e nós estamos pagando esse roubo com o aumento da gasolina.

P. Embora não seja exatamente essa lógica, não é de todo errado, se falarmos da gestão da empresa…

R. O meu negócio é percepção da opinião pública. A corrupção acabou sendo a grande vilã de tudo. Mas vamos pegar o histórico. Em 2013, passeatas, porque a régua de qualidade, de exigência dos que recebiam serviço público, tinha mudado. Eles haviam saído de 2010 com uma perspectiva de melhora de vida gigantesca, e a ela não estava mais melhorando. E os governos, de todos os níveis, não perceberam essa mudança. Mas o brasileiro pensava: “Eu estou fazendo a minha parte e o governo não está fazendo a dele”. Depois veio a Copa. E na sequência, o processo eleitoral mais pesado, e a percepção que a crise começou a crescer. A gente começou o processo eleitoral com 71% dos eleitores querendo mudança. O que aconteceu depois? Eu desafio qualquer brasileiro a me dizer cinco medidas positivas que o governo fez depois do segundo turno.

P. A base da pirâmide faz panelaço?

R. Faz. Primeiro entenda a eleição. Por primeira vez em muitos anos a classe C rachou. Os jovens da classe C estão indo para a oposição. E os mais velhos vão mais para a situação. O panelaço é a demonstração de insatisfação. Ele aconteceu muito mais em áreas ricas do que pobres? Sim. Isso significa que não acontece na periferia? Não é verdade. Agora, panelaço é a representação física da intolerância. Porque significa que você não quer ouvir, você só quer brigar.

P. Uma proposta de impeachment vai adiante?

R. Impeachment é um processo legal, logo, não é golpe. Mas é político. Portanto, sujeito a influências políticas, perspectivas de poder, e arranjos internos. Sujeito a negociações como moeda de troca por alguém estar sendo investigado pela Procuradoria. Podemos não ter abertura de processo de impeachment por uma questão legal, ou como abraço dos afogados do presidente da Câmara. Nesse jogo político tudo cabe. Achar que a população que diz defender impeachment não pode ser influenciada com o debate é um erro.

P. Em outras palavras, a batalha do impeachment está longe de ser ganha?

R. Completamente longe. Nem para um lado e nem para o outro. É a raiz da crise de perspectiva. Quando a gente coloca a seguinte questão em pesquisas – Quando eu falo futuro, qual é a palavra que aparece? As pessoas ficam em silêncio.

P. Quando você fazia essa mesma pergunta alguns anos atrás, quais eram as respostas?

R. Sempre era: ver meu filho se formar, ser dono do meu negócio, eu me formar. Conseguir viajar para o exterior, ter minha casa. Hoje há silêncio. E depois de um tempo respondem: incerteza, escuridão. Porque não tem perspectiva. O impeachment do Collor havia perspectiva. Não era só revolta. Este não tem. E a oposição não conseguiu formar quadros com a visão de ser um estadista. Um líder de verdade capaz de oferecer perspectiva de futuro. O maior erro da oposição é o que fortalece o Lula. Ele fica como a única opção efetiva. Agora, não é o Lula que xinga imprensa. Mas o que olhar pra frente, responsável pelas maiores mudanças do pais.

P. Um encontro entre Fernando Henrique Cardoso e Dilma Rousseff seria revolucionário nos dias de hoje?

R. Os dois ganhariam, sem medo de errar. O brasileiro não suporta mais político que age como candidato, estão buscando estadistas. Quem ocupar esse papel ganha o eleitorado.

P. Como São Francisco de Assis, “onde houver ódio que eu leve o amor”, e “ onde houver dúvidas que eu leve a fé”?

R. É basicamente um discurso de identidade. Por que o papa Francisco tem essa popularidade? Os políticos deveriam se inspirar na postura dele, de redução de desigualdade e defesa dos mais pobres. É o que o Brasil quer.

P. Mas e essas teses sobre fim de Bolsa Família, o discurso pela meritocracia, está restrito a um grupo pequeno, ainda que barulhento?

R. Toda vez que os movimentos de protesto de rua defendem meritocracia sem levar em conta a diferença de oportunidades, tratando pobre como vagabundo, defendendo Estado mínimo, ou quando alguém usa meme na internet, com adesivo ofensivo com a Dilma de pernas abertas, eles perdem. Quando eles dizem que o imposto dele paga o BF não está certo. Quem paga mais imposto, proporcionalmente, é a classe baixa. A elite tem dificuldade de entender, tanto no Brasil, como na América Latina, que houve melhora, com projetos de redução de desigualdade. E radicalizações de discurso não são positivos. A classe C não racionaliza o ganho de oportunidade. Ela só sabe que ganhou algumas coisas nos últimos anos, que teve oportunidades, que nunca antes imaginou em ter.

P. A ideia de um Estado que dá igualdade de direitos é um valor claro na cabeça do brasileiro?

R. O valor de defesa da igualdade de oportunidades está absolutamente claro para pelo menos dois terços do eleitorado brasileiro.

P. Ou seja, se o PMDB que está em evidência agora, com planos de lançar presidente. Se ele não oferecer isso, ele não se elege?

R. Se ele não oferece, mas os outros também não oferecem, talvez ele pode ter uma candidatura boa. Não depende só dele. Eleição é um jogo do que está sendo afetado. Agora que esse é um valor consagrado, é. Esse valor hoje é identificado com algum partido político? Não, nem com o PT.

P. Há um divórcio dos partidos?

R. A classe política não entendeu o recado de 2013. Empurrou esse não entendimento até hoje e agora tudo estourou. Qual é o recado número um? Minha régua de qualidade é outra, sou mais criterioso com o que espero do Estado. Mas o principal recado não foi esse. O principal recado foi a classe política não me representa. Os partidos políticos não me representam. Isso já refletia uma ausência de perspectiva. Isso parte de um entendimento de que o Lula, depois de anos e anos foi o primeiro político que conseguiu gerar identidade do povo. As pessoas gostavam e muitos gostam ainda do presidente Lula por duas razões. Ele tinha um reason why concreto do governo dele, então ele fez coisas que efetivamente melhoraram a vida das pessoas. Se era conjuntura internacional, se eram ações próprias do governo é um longo debate, eu acho que eram as duas coisas. E tinha um fator emocional, que ‘ele veio de baixo, ele sabe o que eu sofro, ninguém me entende como ele me entende’. E tudo isso foi elevado à vigésima potência em 2010 com a economia bombando e com maior índice de popularidade do Lula. As pessoas foram perdendo essas referências. 2013 estourou e nenhum partido político fez um conjunto de ações para trazer essas pessoas a voltarem a gostar da política organizada. Para mostrar que o Estado estava a serviço do cidadão. Na prática, isso foi o que levou ao Fla-Flu político. Ninguém acredita que os políticos que apoiam o impeachment da presidente Dilma o querem para melhorar a vida do povo.

P. Por isso não há identidade com as manifestações deste ano?

R. As manifestações de 2013 tinham a ver com discussões do cotidiano. E estas estão mais com uma coisa de disputa eleitoral, mais com o Fla Flu político. Não entendem como uma manifestação pode ser no domingo, e não em dia de semana como ele já viu. E não entende gente de classe média levando a babá, ter ‘camarote’ na passeata. Então não tem um lastro com a vida real das pessoas.

P. Não se pode dizer que as manifestações atuais representam o Brasil?

R. Representam os 20% mais ricos. Isso não quer dizer que o restante do Brasil esteja satisfeito. Mas os decepcionados são em número maior dos que radicalmente oposicionistas. Quando as pesquisas perguntam: você apoia as manifestações? Todo mundo apoia, diz ‘sou a favor’. Mas isso não dura 30 segundos de reflexão. E aí na pesquisa qualitativa, eles não sabem quem entraria melhor, sem proposta de futuro.

P. Vamos supor que houvesse uma eleição agora. Se um sucessor de Dilma não entregar perspectiva de futuro, ele corre o risco de viver o mesmo inferno que ela?

R. Claramente. Para mim, o maior termômetro de qualquer crise é quando as coisas mudam numa velocidade tão rápida que o que discutimos hoje pode não valer na semana que vem. Se tivesse uma eleição hoje, vamos supor, se fosse aquele modelo o mais difícil de acontecer: Impeachment completo e novas eleições. A chance de um novo, de alguém desconhecido aparecer, é muito maior. O momento é esse. Com alguém em tese sem nenhum tipo de vínculo, de lastro. Tudo isso muda? Tudo isso muda, campanha é campanha. Agora, a pauta da oposição é o antipetismo. Mas não é antipetismo que ganha a eleição, é uma discussão de futuro.

P. O que os analistas políticos repetem é que o objetivo central é matar o mito Lula. Conseguiram?

R. Quem primeiro entendeu a força do Lula foi o ex-presidente Fernando Henrique. Se você pegar os os artigos que ele escreveu no início do ano, todos eram ‘é o Lula, é o Lula.’ Porrada na Dilma todo dia, e ele diz: “Vocês não estão entendendo, é o Lula”. O Lula tem força.

P. Mas perde ibope?

R. Claramente. A popularidade dele cai por conta dos ataques, mas cai também por ele não aparecer. Estão batendo em um jogador que está no banco. Objetivamente qual a última entrevista que o presidente Lula deu?

P. Agora, você disse que o Brasil só quer consenso mas o Lula entrou no jogo do Fla-Flu quando ele fica falando de rico contra pobre e começa a falar que os petistas estão sendo tratados como judeus, não?

R. Mantenho o que disse antes. Qualquer radicalização é ruim, inclusive a dele. A gente fez uma pesquisa no Data assim: o que você acha de um político que fala mal do outro? Ele está querendo esclarecer alguém disso? Pouquíssimo. Ele está querendo o lugar do outro político? 80% respondem que sim. Quando um político critica outro, ele pode até desgastar o seu adversário, mas não ganha nada. Pelo contrário. A sua rejeição aumenta.

P. Com qual liderança há vínculo emocional por parte do povo?

R. O único político com real lastro emocional com a população é o Luiz Inácio Lula da Silva.

P. Nem Aécio?

R. O Aécio tem para parte do eleitorado dele uma alternativa de mudança. Muito mais inflacionado pelo antipetismo do que uma identificação com ele. A pessoa que gera identificação ainda é o Lula. As pessoas comentam que nas últimas pesquisas o Lula tinha 30% de intenção de voto, quando ele sempre aparecia no topo. Eu digo: sem dar nenhuma entrevista em quase um ano, tomando porrada todo dia, ele ainda tem 30% dos votos. E por que as pessoas não gostam do Lula agora? Porque esse é o Lula raivoso e o que eles sentem saudade é do Lula paz e amor, de 2002, é do Lula que passa a mão na cabeça e fala ‘vamos vencer, vai na minha, eu sei o que você está passando. Eu sei o que é passar fome, eu sei o que é dar o que seu filho está pedindo’. É desse Lula que as pessoas têm saudade.

P. O que o brasileiro médio pensa do Eduardo Cunha?

R. Não sabe quem é. Eles acham que é mais nessa confusão de políticos. Que ora ele faz alguma coisa que as pessoas defendem, a maioria da população defende, como a redução da maioridade penal, ora faz algo que eles não sabem direito o que significa..

P. E o Congresso como é visto?

R. É tudo igual. A mesma percepção que começou em 2013 e que a classe política não foi capaz de mudar, de que político é tudo igual. Isso é tão sério, porque isso gera um vício de origem na critica política. Por que o tema corrupção hoje é mais importante do que foi na eleição? Ninguém fez essa pergunta né? Porque o tema da corrupção sai de um debate da sociedade civil, da opinião pública e da imprensa. Na eleição saía de outros candidatos. Quem são os outros candidatos? São políticos e se é político, é ladrão. Na opinião pública.

P. Você está mais para pessimista, realista ou otimista com o país?

R. Com o Brasil, otimista. Porque o povo é foda, transforma limão em limonada, não vai parar de comer o churrasco no domingo, o brasileiro quer sonhar. Ele sabe que esta não é a primeira nem a segunda crise que vai passar. Temos hoje uma população mais empoderada, mais escolarizada, que sabe seus direitos de cidadão, de consumidor. Escolaridade maior, sonha em ter o filho da universidade. Vai ser com dor, sofrimento, não vai ser fácil, mas o povo brasileiro é foda…

O Brasil, a fome e o ciclo civilizatório

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O Brasil alcança a meta contra a fome

“Esta é a maior demonstração que o sonho de uma geração, de um país sem fome e sem miséria, está sendo realizado”, exaltou a presidenta Dilma. Ela se referia ao relatório da FAO/ONU de que o Brasil sai do mapa da fome: desde 2012 apenas 1,7% da população pode ser considerada em situação de insegurança alimentar. Considerando como referência o período de 2000-2002, desde 90-92 a redução do estoque de miséria/fome no Brasil foi de 15,6% (redução de 3,5 milhões de pessoas); na década seguinte, 2003-2012, a redução no índice foi de 82,1% (15,6 milhões de pessoas).
Graças ao governo Lula e Dilma, esse risco vai desaparecer de nossa história! Como o FMI credor do Brasil, direitos sociais protelados, falta de reconhecimento e empoderamento dos negros, mulheres e jovens.

 

Marina chorou ao dizer que passou fome. Foi, acredito, sincera. Mas a postura de Marina, nesse e em outros casos, indica que ela reforça um ideário conservador que vai se insinuando fortemente na sociedade, que é o da meritocracia, ou seja, de que as pessoas subiram na escala social pelo próprio esforço. Claro que esse esforço é indispensável: os brasileiros têm fibra. Mas a experiência brasileira, como a secular luta pelo fim da miséria e da fome demonstra, indica o quanto foi indispensável a noção de um projeto nacional autônomo e democrático, com atenção do Estado sob um governo de bases populares, para zerar a dívida social acumulada. Nesse sentido, é incrível a mudança de lado e perspectivas de Marina desde o início de sua vida política.

 

O resultado referido é histórico, mas a ninguém é dado desconhecer a ainda longa jornada por aprofundar as mudanças necessárias ao país para sua afirmação nacional, soberana, democrática e de plenos direitos sociais, quer dizer, completar o esforço civilizatório e abrir nova etapa em sua trajetória. Futuro é educação e reformas estruturais democráticas para consolidar e aprofundar as mudanças em curso. Isso não prescinde de nova vitória de forças populares à Presidência da República, de uma esquerda forte, sintonizada com o tempo e atuante, com um plano estratégico para novo ciclo. E cada dia mais vai se demonstrando que os maiores entraves para tanto residem na natureza a um só tempo conservadora e fragmentada do Estado brasileiro em disfuncionalidade com tais exigências.

Paixão e confiança

Passagem de ano e o êxtase que se manifesta em cada um e cada uma é um quase-universal cultural humano, creio. Mas o caso brasileiro é incrível. Deve ser uma das maiores comemorações humanas do planeta, nessa data.

Imaginem: quase todos com quem falo, moram, estão ou têm algum conhecido na praia – pequena, média ou grande, distante ou próxima. Em cada uma houve um revéillon na passagem à meia-noite, com queima de fogos e muita, muita gente. Dá a impressão que nesse dia o Continente aderna a estibordo com o peso de tanta gente nos 8 mil km de litoral brasileiro… como se os Andes subissem um pouco mais e se inclinassem, a maré no Pacífico descesse vários metros, a América do Sul balançasse ao sabor das ondas do mar em que navega.  Num será?

Há uma imensa energia espiritual de sermos melhores em todos os sentidos no ano que entra, e uma enorme confraternização, companheirismo mesmo entre os que não se conhecem, o desejar aos outros que sejam tocados pela ventura e felicidade. É belo, sublime e bem brasileira essa paixão e confiança de que as coisas vão ser melhores. Talvez seja coisa de um povo jovem. Grande força essa, que nos faz um povo com esperança, muita esperança.

Dá vontade de prolongar esse êxtase por cada dia do ano. Deveria haver um outro revéillon depois do carnaval, por que não? Uns três por ano, para não retardar a recuperação e renovação da esperança. É o que desejo em 2014: novo êxtase com a desejada vitória brasileira na Copa… E renovação de esperanças com a quarta vitória popular à presidência na República, com Dilma. Quer dizer, desejo bons desejos a todos e muita paixão e confiança de que em 2014 vamos ser mais felizes como brasileiros.

Só não dá para esquecer de que, nesse clima democrático e cheio de esperança, há companheiros presos, alvos de um julgamento político. Isso não vamos esquecer.  A luta continua, sempre.

 

 

 

 

"Vamos nos unir e trazer a Marajó os Jodos dos Povos Indígenas de 2012 numa celebração histórica".

Caboco marajoara, que o leitor do blog deve  conhecer, propôs essa grande ideia ao ministo Aldo Rebelo. Eu apoio! A Ilha tem todo o simbolismo para sediar os jogos, projetar o sentido democrático de integração de nosso povo, dar a se conhecer internacionalmente e pôr o Pará onde merece na família nacional.


Aproveito para partilhar o texto do Varela, nosso caboco marajoara que tem um lindo blog sobre a questão dos indígenas e brasilidade e recupera a memória do grande comunista Dalcídio Jurandir.

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Sabem por que Jorge Amado chamou de “índio sutil” a Dalcídio Jurandir? Primeiro, que o nome civil do autor de “Chove nos campos de Cachoeira” é Dalcidio José Ramos Pereira e ele próprio adotou nome de “Jurandir” (Jurandi, “aquele que veio com a luz do céu”, o relâmpago). Depois, que o laureado romancista da Amazônia encarna o arajó profundo: ponha lá mais de mil anos da primeira ecocivilização das terras baixas da América tropical somada a importantes contribuições negro-africanas, açorianas e, por último, galego-portuguesas de que nosso doutor Honoris Causa Vicente Salles ensina com maestria. Sem esquecer a presença incontornável do Nordeste brasileiro a partir das primeiras migrações Tupinambá com choque cultural disto decorrente até o êxodo das grandes secas desde fins do século XIX.

Sem excluír o caminho do Maranhão ao Grão-Pará passando pelo Caeté [Bragança-PA], o rio dos Tocantins foi a grande via do sertão para o Alto Amazonas (Peru), donde o arquipélago do Marajó, obviamente, tornou-se campo de guerra antropofágica. Se ao sul reinava o Pindorama ao norte era a Tapuya tetama [terra dos Tapuias], transformada em Amazônia, quem daria as cartas.

Esta semana, em Porto Nacional (Tocantins) trancorrem os XI Jogos dos Povos Indígenas (JPI). Um evento de esportes no calendário brasileiro, cada vez mais importante, e que extrapola ao campo da competição esportiva para se tornar numa celebração e confraternição entre todas etnias da brasilidade.

Porto Nacional, no Tocantins, poderá ficar na história como o lugar em que se tomaram a decisão dos JPI se tornarem internacionais, provavelmente pan-amazônicos sobretudo. E queira, então, o grande Espírito dos povos originais que venha ser o Marajó do dito “índio sutil” a próxima parada dos JPI na sua primeira versão internacional.

Bela coincidência da ilha-mãe da civilização amazônica (cf. Antropologia / Denise Schaan) onde o Araquiçaua [Arakyxaua, lugar onde o sol ata sua rede] atraiu e seduziu os caraíbas Tupinambá na saga da Terra sem mal [ver Florestan Fernandes, Darcy Ribeiro e outros], em guerra com os Tapuias no Maranhão (lembrar Tapuitapera [tapera tapuia, ruina tapuia], hoje Alcântara-MA, centro brasileiro de lançamento de foguetes). No além fronteira do Oiapoque, o centro espacial europeu, em Kuru (Guiana francesa) parece avivar a memória do Contestado do Amapá que, pouco a pouco, transforma a fronteira que antes separava agora na ponte que aproxima…

Pois não foram aqueles bravos Tupinambás de outrora que — na justa e perfeita ambição de toda humanidade um paraíso mágico onde não há fome, trabalho escravo, doenças, velhice e morte — convidaram corsários franceses a se instalar no Maranhão?

E não foram eles em embaixada à corte de Paris, onde seus antepassados da Guanabara foram antes, em Ruão, segundo Montaigne, levar a sugestão da revolução francesa? Pois o confronto tupinambá-tapuia, como se sabe, pariu a “France Équinoxialle“, com a fundação de São Luís do Maranhão a completar 400 anos em 2012. Ou seja, a invenção da Amazônia.

O “nheengaíba” [falante da “língua ruim”] foi o marajoara guerreiro que encarou a avançada Tupinambá. A falta de interesse acadêmico (apesar da monumental historiografia jesuítica a partir de Luiz Figueira, massacrado em Marajó em 1745) empalidece a resistência marajoara na História do Brasil e esconde ainda as raízes do circum Caribe no norte do Brasil apenas revelado nos rítmos e na música popular paraense. Eis que pelo casamento da necessidade com o acaso, mais uma vez, como o povo fala Deus escreve certo por linhas tortas…

Os incipientes Jogos dos Povos Indígenas (JPI) começados contra muitas incertezas e desânimos chegarão, nos 400 anos de invenção da Amazônia [fundação de São Luís-MA, 2012 – fundação de Belém-PA, 2016] em sua primeira versão internacional.

E Marajó talvez brilhe por uma celebração dentre Povos Indígenas, sem precendentes no mundo dividido em guerras e loucura. Quem sabe, há de recuperar para sempre o espírito daquelas pazes “impossíveis” de 27 de Agosto de 1659, em Mapuá [Breves]. Que colocaram fim numa guerra invisível entre as nações indígenas e europeias no Pará velho de guerra… A esperança é a última que morre: quem ouviu ao longe o som de um clarinete tocado por mestre Bibiano Rodrigues ao cair da tarde junto à praia de Mangabeira (Ponta de Pedras ) [cf. Bernardino Ferreira dos Santos Filho em “Nas margens do marajó-Açu] pode crer que ainda chegará o dia em que as flautas sagradas vindas do Rio Negro e as clarinetas do Toré vindas do Oiapoque poderão ecoar sobre a baía do Marajó, nosso grande mar de água doce, desde a dita praia que foi no passado aldeia dos “nheengaíbas”. Como no igarapé morto do Vilar (antiga aldeia dos “Guaianases” referidos pelo Padre Antônio Vieira como uma das sete nações que celebraram a pax de Mapuá).

Aquelas pazes lesadas pela ambição colonial e a cegueira que o payaçu dos índios denunciou no “Sermão aos Peixes” em S. Luís-MA, 1654, sobre os cativeiros indígenas (lei de 1655 e fonte de conflito dos colonos com os padres). Tem uma chance de ser celebrada, de maneira inesperada, pelos 12º JPI e primeiro internacional no solo simbólico marajoara.