A economia no país: “Houston, we have a problem!”

As análises sobre o PIB do 3º trimestre na grande mídia não são análises, apenas afirmações apologéticas. Pura disputa de narrativas sem amparo na realidade.


Mais honesto, sobre o PIB, seria utilizar a célebre oração que imortalizou o drama do retorno da Apollo 13 em 1970, em sua viagem à Lua, abortada por uma explosão do tanque de oxigênio.

O Globo mancheteou: “PIB indica recuperação consistente”. O gráfico principal apresentado sustentou que o consumo das famílias se manteve inalterado (1,2%) – logo ele que é considerado o “motor da retomada” – e o investimento, depois de 15 trimestres consecutivos, cresceu 1,6%. O governo usurpador com cabeça de planilha, inibiu fortemente e de modo pró-cíclico as despesas públicas – a PEC do teto os congelou por 20 anos – quando se sabe que as compras do Governo têm um peso de, em média, 20% no PIB.

É o primeiro problema. Até para o IBGE, dono das estatísticas sobre o assunto, expansão do PIB brasileiro é modesta e classificada como estabilidade. O jornal espanhol El país, que não é estúpido, crava: “PIB de 0,1% no terceiro trimestre mostra economia em recuperação fraca”. E mostra o gráfico-síntese fundamental: em 2017, crescimento do PIB trimestral no 1º trimestre de 1,3%, caindo no 2º para 0,7 e, no 3º, com crescimento de 0,1%. Tudo somado, 0,6% no ano.

Zeina Latif foi mais ousada com um cálculo rápido: nesse ritmo e as projeções do “mercado” para o futuro, o Brasil só vai atingir o mesmo PIB (corrigido) de 2013 – quando a economia ainda estava em crescimento – se o PIB se elevar em 3% ao ano por 5 anos… consecutivos.

O segundo, é que não combinaram as manchetes com a opinião pública. Renato Meirelles, ex-Data Popular e hoje do Instituto Locomotiva, afirma: “no País, 84% não sabem hoje quem poderia tirá-los da crise”; e acrescenta: dos 16% restantes, a maioria cita o Papa Francisco. E 92% acham todos os políticos corruptos!

Mas o mais insuspeito veio do IBOPE. Por incrível que pareça o Estadão teve que noticiar: “o otimismo dos brasileiros em relação ao desempenho da economia teve uma queda significativa e chegou em novembro ao patamar mais baixo dos últimos oito anos, segundo série histórica de pesquisas Ibope”. Apenas 21% preveem mais prosperidade no próximo ano – metade do porcentual obtido no levantamento anterior, feito no final de 2016.

Para o IBOPE, 76% dos brasileiros apostam que 2018 será de maior dificuldade econômica ou permanecerá igual. Quanto à situação geral do país, 56% consideram que 2018 será pior ou igual a este ano: só 12% conseguiram guardar dinheiro em 2017 e 96% consideram que Temer é corrupto e não está levando o país no rumo certo.

É dura e teimosa a realidade. Pensando bem, os panegíricos sobre a recuperação da economia podem se parecer com a célebre “visita da saúde” em doentes terminais, uma certa lenda urbana que, como diz o poeta, “se non è vero, è bene trovato”.