Morte do reitor Cancellier provoca luto e indignação em Santa Catarina

A trágica morte do professor Luiz Carlos Cancellier, reitor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), causou profunda indignação e uma grande comoção no estado. O governo estadual e a reitoria da UFSC decretaram luto oficial e diversas entidades emitiram notas de pesar.

Foto: Divulgação

 A trajetória do professor Cancellier foi destacada por diversas instituições A trajetória do professor Cancellier foi destacada por diversas instituições

Uma das manifestações mais veementes foi da seção estadual da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-SC) que, ao manifestar seu profundo pesar pela morte do reitor, afirmou ainda que “é chegada a hora da sociedade brasileira e da comunidade jurídica debaterem seriamente a forma espetacular e midiática como são realizadas as prisões provisórias no Brasil, antes sequer da ouvida dos envolvidos, que dirá sua defesa”. Para a entidades dos advogados “reputações construídas duramente ao longo de anos de trabalho e sacrifícios podem ser completamente destruídas numa única manchete de jorna”. Para a OAB-SC pessoas inocentes sofrem um prejuízo é irreparável, cabendo-lhes a vergonha, a dor, o sentimento de injustiça. “O peso destes sentimentos pode ser insuportável”, enfatiza a nota dos advogados.
Continue lendo

ENEM: uma prova histórica e uma resposta ao retrocesso social

* Luiz Henrique Dias 

Eu poderia falar sobre tantas questões do ENEM que trouxeram à tona temas como direitos humanos, liberdades individuais e garantia de direitos civis, bem como poderia comentar que gostei muito das provas de ciências da natureza e de matemática, minhas “áreas”, pois leciono essas disciplinas em cursinhos, mas eu gostaria de usar esse espaço para falar sobre algumas impressões a respeito da importância do exame.

O ENEM incomoda porque afronta o status social histórico do curso superior.

Outrora, a Universidade Pública era um lugar da elite, daqueles que podiam pagar por um ensino fundamental e médio privado e excludente, focado apenas no modelo tradicional de vestibular e afastado de qualquer compromisso social.

Uma prova, que em sua essência, discute o país e unifica o modelo de avaliação e seleção ao ensino superior é algo tão avançado quanto a palavra democracia, pois seleciona não pela meritocracia tecnicista, mas pela capacidade de compreensão do mundo e da sociedade e torna o ensino superior brasileiro cada vez mais alinhado com o país que realmente somos: efervescente e plural.

O tema da redação, acima de tudo, foi extraordinário: “A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”.

Vivemos um momento em que o país enfrenta a polarização de ideias, em diversos campos, sendo o mais grave nas questões envolvendo os direitos humanos e civis.

Há uma onda conservadora, de “proteção à família”, com viés de direita, embasado em questões religiosas de caráter interpretativo e individual e com um discurso fundamentalista de preconceito e ódio que não condiz ao século XXI.

Somos uma sociedade plural, diversa, rica e culturalmente esplêndida, onde não há mais espaço para movimentos retrógrados como a homofobia e o machismo, e onde não há mais justificativa para a violência, seja qual for.

Vivemos um momento ímpar do debate, avançado, e devemos encarar nossas pautas e discutir como conjunto de sociedade, decidindo de forma participativa e no campo das ideias, sobre questões como violência contra a mulher, descriminalização do aborto, política de drogas, união civil, modelos familiares, direito à cidade, uso da terra urbana e acesso à educação.

Da mesma forma, devemos quebrar a histórica barreira entre o público (sociedade) e o privado (lar, família, núcleo), aplicando a Lei onde houver atentado ao ser humano. Boa parte da violência física, psicológica e sexual contra mulheres acontece em casa, no “núcleo sagrado” onde, segundo a tradição, as pessoas estariam protegidas. Mas, sabemos, todos, não estão.

Estou muito orgulhoso de meu país por utilizar um instrumento tão importante quanto o ENEM para fazer tanta gente pensar sobre algo tão relevante e tão atual.

Não era apenas um simples tema de redação: era um sinal de que o Brasil vai encarar, finalmente, suas verdadeiras mazelas sociais.

E se queriam saber minha opinião sobre o resto da prova, pois bem: química tava foda.

Boa semana a todos e a todas!

* Luiz Henrique Dias é escritor e professor. 

Amelia Imperio Hamburger, uma intelectual e cientista íntegra

AmeliaHamburger01O vereador Jamil Murad e seu partido, PCdoB, prestam justa homenagem à Professora Amélia Hamburger. O Diploma de Gratidão da Câmara Municipal de São Paulo é mais que merecido, “in memorian”, àquela que formou gerações de pesquisadores e defendeu com vigor a educação e a democracia.

Conversei com Olival Freire Jr, físico, professor da UFBa, hoje na Secretaria do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia, membro do Comitê Central de nosso partido. Admirador que sou dele e de seu trabalho, com quem comparti bons anos de aprendizado em São Paulo, sabia que ele havia sido orientando de mestrado da Amélia, e depois, no doutorado, orientando de Michel Paty, convidado exatamente por Amélia. A área era história e epistemologia da ciência. Então, Olival nos concedeu estas reflexões.

Olival, fale de Amélia

“Eu tive o privilégio de ter tido Amélia Hamburger como minha orientadora de mestrado em tema de história e epistemologia da ciência. A minha motivação para trabalhar com Amélia decorreu do nosso interesse comum no pensamento e ação de alguns físicos marxistas, entre os quais o francês Paul Langevin e o norte-americano David Bohm. Trabalhei muito próximo de Amélia por cerca de cinco anos, três no mestrado e os dois iniciais de meu doutoramento. Aprendi muito com Amélia quanto ao rigor com que se deve pesquisar em história e epistemologia da ciência, mas o que mais aprendi com ela foi o papel dos valores que devem estar presentes no trabalho acadêmico, os quais tenho buscado incorporar na minha própria atividade profissional. Em particular, fui muito influenciado pelo encorajamento que ela levava aos seus estudantes; pela sua busca da circulação internacional da nossa pesquisa, absorvendo contribuições estrangeiras mas sempre valorizando a nosso própria produção; pelo relacionamento profissional que ela estabelecia com seus estudantes, sem subordinar este relacionamento a identidades políticas ou ideológicas com seus estudantes, ela dizia que havia aprendido isto com Mário Schenberg com quem conviveu de perto, tendo sido mais tarde a editora de suas obras científicas completas.”

Ela pode ser considerada uma cientista de mão cheia, no sentido de formar gerações de pesquisadores, difusora de cultura científica e, de certo modo, “caçadora” de talentos… Bons tempos para a universidade!

“Amélia foi uma difusora da cultura pelo seu envolvimento com iniciativas que visavam a circulação mais ampla da ciência e da cultura. Dentre estas atividades, destaco duas que conheci mais de perto. No início dos anos 1980 ela foi a responsável pela vinda ao Brasil, como Professor Visitante, do físico e filósofo francês Michel Paty. Michel já conhecia o Brasil porque tinha estado na Universidade de Brasília, tendo dela saído na crise gerada pelo regime militar em 1965. Nos quase 20 anos sem retornar ao Brasil ele havia se convertido de físico em filósofo e Amélia trouxe-o de volta ao Brasil nesta dupla condição. Desde então ele estabeleceu uma relação duradoura e consistente com os meios intelectuais brasileiros, relação que perdura até os dias atuais. Eu tive também o privilégio de ter sido orientado, no meu doutoramento, por Michel Paty. Desse modo, posso dizer minha trajetória acadêmica foi fortemente formatada pela influência direta e indireta de Amélia Hamburger. No final dos anos 1980 ela foi dos primeiros brasileiros a participar de um movimento internacional visando a aproximação entre a história e filosofia da ciência, de um lado, e a educação em ciências, de outro. Este movimento, sob a liderança do australiano Michael Matthews ganhou grande impulso no mundo inteiro e no Brasil em particular. A criação do Programa em Ensino, Filosofia e História das Ciências na Bahia, por exemplo, foi influenciado por este movimento. Amélia contribuiu também decisivamente para a preservação do legado cultural do teatrólogo Flávio Império, seu irmão.”

Jamil Murad e a Câmara de Vereadores convidaram você, Alfredo Bosi, Fernando Henrique Cardoso entre outros, para a sessão solene desta segunda feira, 26, 19 horas. Como você vê então o significado da homenagem pela Câmara, nos múltiplos papeis que teve Amélia?

“Trata-se de homenagem póstuma, concessão da Medalha Anchieta e Diploma de Gratidão da Cidade de São Paulo e é plena de significados. Amélia, além de uma vida inteiramente dedicada à ciência e à cultura, nunca deixou de adotar posicionamentos políticos claros e incisivos. Depois de uma carreira de pesquisadora em Física ela passou a se dedicar a pesquisas em educação, história e epistemologia da ciência, e psicologia da aprendizagem. Neste trajeto, além de uma obra intelectual própria expressa em livros e artigos, ela contribuiu diretamente para a formação pós-graduada de mais de uma dezena de estudantes e contribuiu indiretamente na formação de outros tantos. Foi uma das fundadoras da Sociedade Brasileira de Física, atuou na direção da SBPC e da ADUSP e na Sociedade Brasileira de História da Ciência. Com seu marido, Ernesto, também professor do Instituto de Física da USP, foram vítimas das perseguições políticas durante o regime militar, tendo sido presos no início dos anos 1970. O protesto de cientistas estrangeiros junto ao governo brasileiro certamente influenciou a liberação dos mesmos. Ao homenagear Amélia Hamburger a Câmara Municipal de São Paulo reconhece o papel extremamente positivo desempenhado por um de seus cidadãos no terreno da cultura, da ciência, da educação e da política.”

Olival Freire

Olival Freire

Obrigado, Olival, até segunda feira!

Parabéns, Jamil Murad, pelo exemplo e pela iniciativa!

Câmara Municipal de São Paulo,

Viaduto Jacareí 100, 8o andar

segunda-feira dia  26/9/11 às  19 horas